domingo, 28 de outubro de 2018

Carta ao Fernando (a não ser lida – Parte I)


Marcus Vinicius Batista

Caro Fernando,

Quando passar a ressaca da festa, uma virada histórica sem precedentes, tenho certeza de que você vai colocar a mão na cabeça e pensar: venci de que maneira? E o que fazer agora? Como conquistar a outra metade que me rejeitou com veemência?

Você, certamente, não terá uma longa lua-de-mel com a vitória. A fiscalização será acirrada, ao menos nas primeiras semanas do seu governo. A curto prazo, haverá truculência, possíveis protestos, violência, nada incoerente do trajeto percorrido por esta campanha eleitoral, suja, sem debates, com raras propostas, inclusive da sua parte, convenhamos.

Muitos vão te acusar de ser um fantoche. O adversário, você sabe, o intitulava “poste”. É um ponto a ser contestado no poder. Assim como foi feito na Prefeitura de São Paulo, cidade territorialmente favorável ao quase nanico PSDB.

Espero que você reaja, como muita gente escreveu, conversou, bradou, pregou. Ao se sentar na cadeira do Palácio do Planalto, desejo que a criatura se volte contra o criador. Ou, pelo menos, ande com as próprias pernas. Você não estaria onde se encontra sem o apoio ou a chancela de Lula.

No entanto, até para ser decente com a figura de pai que tanto Lula gosta de cultivar, é preciso inseri-lo no lugar adequado da História. Lula é um líder, independentemente de seus atos, mas é a hora de pegar o boné. Não quero mártir sonhando com a capa de super-herói. Desejo um líder que saiba a hora de sair de cena e resolver seus próprios fantasmas.

Fernando, você tem a oportunidade única – com o poder em mãos – de reabilitar seu partido. Terceira chance, o que poucas pessoas recebem na vida. Limpe a casa. Estimule a punição de quem pecou além dos limites. Isso reforçaria a tais instituições, tão defendidas por você e por outros para manter a democracia de pé.

O PT te levou ao segundo turno. O PT quase provocou sua derrota. Você sabe o quanto o voto punitivo (anti-autoritário) colaborou com sua vitória. Dois candidatos com mais de 40% de rejeição. Foi uma eleição sui generis.

Não permita que os demais caciques rifem o partido outra vez. O PT precisa voltar a fazer jus ao nome que compõe essa sigla tão manchada pelos seus “companheiros”. É, creio eu, a última oportunidade de dedetizar um partido que passou por tantos buracos em quase quatro décadas. Que quase fechou as portas por causa do fedor exalado por uma minoria.

Fernando, você tem a obrigação de ser um presidente acima de todos. Todos quem? De saída, as lideranças que tentam sobreviver jogando e ditando cartas nas prisões. O PT não é apenas eles. O PT é aquele militante que vota com esperança. O PT é aquele que mudou de voto porque se decepcionou e ouviu tantos “eu te disse” depois de testemunhar a arrogância política de quem vislumbrou projetos de poder, e não de governo.

Tenho ciência de que você é um sujeito preparado para o cargo. Sei que, no máximo, saiu chamuscado do incêndio que corroeu aqueles que ajudaram a te construir. Mas é fundamental provar, inclusive para quem defende limpeza étnica, social e um monte de outros aspectos que justificam violência verbal, psicológica e física, que a democracia apanhou e segue de pé.

Não haverá outra oportunidade, caro presidente. Como professor, aprenda com os erros seus e de seus colegas, dialogue em vez de ser professoral, a arrogância dos didáticos, ensine seus adversários. Governe para todos e resista aos peixes podres que nadam sorridentes pelos corredores do Congresso Nacional. Vá além dos muros do Partido dos Trabalhadores.

Boa gestão! Um abraço!

Carta ao Jair (a não ser lida – Parte II)


Marcus Vinicius Batista

Caro Jair,

Não acho que o senhor seja o melhor nome para a Presidência do país onde nasci e resido. O senhor considera uma informação irrelevante, porém é preciso localizar meu lugar de fala. Não creio que o senhor esteja preparado para exercer o cargo ao qual se candidatou, mas tenho consciência de que o presidente, como figura política, é capaz de montar uma equipe que reduza danos ou possibilite avanços.

Imagino que, na festa da vitória, aconteceram muitos tapinhas nas costas, muitos parabéns, muitas promessas, muitos sorrisos, muitas outras coisas mais. Presidente, sinto dizer: a lua-de-mel será também curta para o senhor, como seria para seu adversário, caso ele tivesse vencido.

A lua-de-mel será restrita por razões diferentes. Sabemos que, entre as mentiras contadas por tantos candidatos, uma delas foi a distância da corrupção de sua candidatura. Não o acuso de coisa alguma, mas seus aliados – ligados em vários níveis a Deus, o Diabo e outros grupos que pulam entre as duas entidades – vão cobrar a conta da festa. E cobram sem pudor, sem misericórdia, rezando até. Assim o fizeram com o partido do seu adversário.

Sabemos também, caro presidente, que sua estratégia de campanha se transformou num caso a ser estudado, discutido – e jamais repetido – na História político-eleitoral. Seus eleitores não te conhecem. Votaram numa fantasia, num personagem construído e alimentado, inclusive pelo senhor, que reforçava o voto punitivo ao PT, a limpeza generalizada, os preconceitos, as pequenas violências cotidianas, o pensamento e as práticas da violência institucional.

O senhor tem total consciência de quanto a facada se tornou o divisor de águas nesta campanha. Jamais defenderia tal ato, mas também repudio o uso indiscriminado do vitimismo que o senhor tanto rechaça. A facada te fez fugir de um debate público, organizado, sobre propostas. Por quê? O que temia? Murchar a candidatura?

Meu maior medo é não ter a menor ideia do que o senhor pretende fazer como presidente. Um programa reduzido e vago – ainda que saibamos que programas são peças ficcionais, mas que insinuam a visão de um político e seu grupo de interesse -, e aparições por telas, tão artificiais e limitantes quanto os discursos que carregam, impostos, sem a chance de contestação, do contraditório, da continuidade da reflexão.

O senhor apostou num eleitor insatisfeito, punitivo em ambos os lados da moeda. Um eleitor que não te quer, quer a ausência do seu adversário, não o homem, e sim o partido, do poder. Um eleitor que acredita – em sua ingenuidade – que retirar um presidente é como expulsar um síndico incompetente na reunião do condomínio, na sexta-feira à noite.

Este eleitor, caro presidente, não te escolheu por ser quem é. Ele te escolheu pelo que o senhor representa. Jair Bolsonaro (falar em terceira pessoa significa um sintoma) é uma mentalidade, uma forma de viver para certas parcelas da sociedade. Se todo político sonha em entrar para a História, aí está a sua boa nova. Mas a que preço?

Nunca se esqueça, caro presidente. O senhor está onde está porque a democracia, ironicamente, permite que se fale contra dela dentro de si mesma. O autoritarismo, também vivido pelo senhor, não. Entre os autoritários, só abrem a boca as patotas, ainda assim cerceadas por sólidos protocolos e hierarquias rígidas. O senhor é um homem de posições rígidas, mesmo que sua biografia indique diversas flexibilidades pessoais. A coerência seria uma qualidade, não?

Presidente, seus novos amiguinhos vão mudar o tom da conversa em breve. Seus eleitores, tenho sérias dúvidas, talvez te cobrem um pouco. Seja pelo voto punitivo, seja pela mesma forma de ver o mundo, seus eleitores só queriam a mudança. Talvez a mudança de país, certamente a mudança de grupo de poder. Será que apostou certo? Será que as sombras não são as mesmas?

Jair, me perdoe, tenho quilos de dúvidas sobre o senhor como presidente. Certeza, quem sabe uma só e ela não precisa ser dita: o teor desta singela e curta carta explica.

Boa gestão! Um abraço!

sábado, 27 de outubro de 2018

Por que perdemos essa eleição? (ou A derrota acima de todos!)



Marcus Vinicius Batista


Conscientes ou em coma induzido, abrimos a Caixa de Pandora nesta eleição. Colocamos para fora – não nasceu hoje nem ontem – nossos piores sentimentos e perspectivas de mundo. Trocamos a chance de aprender com esta campanha pela prisão voluntária de nossas pequenas mesquinharias.

Perdemos a vergonha. O politicamente correto ou a lei mesmo mantinha muita gente com seus preconceitos guardados no fundo da gaveta do armário mais obscuro da casa. Aquele que armazena as tralhas.

Testemunho pessoas pedindo limpeza de outras pessoas, clamando pelo silêncio amordaçado de quem não pensa como elas, defendendo o extermínio absoluto do outro, tão impossível de conviver porque pode representar aquilo que mais se abomina em si próprio.

Perdemos a solidariedade, aquele sentimento que costumamos cultivar quando queremos parecer bons. Adotamos a máscara do cidadão de bem, termo que forma patotas e exclui os diferentes, num maniqueísmo raso (perdoe a redundância, é só para reforçar) que divide o mundo entre bons e maus e dispensa duas das características humanas: a contradição e a imperfeição.

Perdemos pessoas. Desfazemos amizades, ignoramos colegas, ofendemos parentes, esbravejamos em textos, áudios, imagens, histerias pontuais e estruturais. Perdemos pessoas por causa de políticos, que tanto desprezamos. Isso! Perdemos pessoas por sujeitos que viram as costas, convictos da falta de fiscalização, assim que as urnas se apagam. Repito: perdemos pessoas por causa de políticos, muitos deles capazes de nos agredir verbalmente a cada aparição pública.

Perdemos o outro como humano. Deliramos sobre outros sujeitos como se fossem coisas, por causa de suas escolhas, por causa de seus comportamentos individuais. Podemos jogá-los na vala comum, sem identificação, sem passado, sem história, mesmo que a História nos tenha mostrado tanta crueldade e bestialidade em nossos ancestrais.

Fingimos desconhecer o mal que nos habita, com a desculpa esfarrapada de “apenas cumprimos ordens”. Ou porque alguém falou. Ou porque é culpa do sistema. Ou porque só “trabalho” aqui.

Perdemos a capacidade de dialogar. Na nossa arrogância, julgamos sermos politizados só porque falamos de política. Falamos, gritamos, impomos, pouco debatemos, raramente aprendemos. Preferimos ganhar a conversa a qualquer preço, ainda que sacrifiquemos as pessoas ao nosso lado – aquelas que costumam importar.

Talvez façamos isso como ato reflexo dos candidatos que adoramos desde a semana passada. Típico de quem crê que a culpa sempre está no outro corpo. Por que não nos calamos de vez em quando?

Perdemos, como conseqüência, a capacidade de ouvir. Não estamos apenas cegos de ódio, mas surdos diante de qualquer voz que não seja a nossa, que também cacareja, que também digita muito e pouco escreve. O próximo presidente, rezo para que nos escute, deveria implantar um programa gratuito, em caráter nacional, que envolva cursos de Escutatória, conforme pregava Rubem Alves.

Perdemos o valor da verdade. Na hipocrisia e no cinismo de todos nós, adoramos cultuar quem matamos dia após dia. A primeira vítima de uma guerra, como explica o clichê. Não falo das pequenas mentiras cotidianas, mas daquelas que contamos para nós mesmos. Daquelas que minimizamos quando levamos adiante informações caluniosas, argumentos levianos, quando compactuamos com a mentira escancarada, mas dita pelo anônimo, que vai machucar quem não pensa como nós. Estúpidos somos quando nos esquecemos que uma campanha eleitoral se movimenta como bumerangue.

Perdemos a liberdade. Confundimos a ideia de que liberdade de expressão significa o poder de dizer qualquer coisa, sem limites. Rasgamos a liberdade para defender o privilégio de agredir quem não está comigo, como Bush ou Trump em seus olhares belicistas.

A liberdade como prática individualista se chama egoísmo, primo da vaidade. A liberdade sempre será sinônimo de convivência, de ato coletivo. Só seremos livres quando todos o forem. E não enxergamos que defendemos o fim da liberdade justamente porque ... somos teoricamente livres. Teoricamente!

Por contradição, tenho dúvidas: será que perdemos tudo isso mesmo? Então, quando teria sido este escoamento moral pelo ralo da violência? Ou será que apenas rompemos os filtros e agora precisamos descobrir e assumir que somos deste jeito, uma espécie truculenta, selvagem? Francamente, não vejo tanta gente assim fazendo mea culpa.

Desconfio que, como animais, somos menos humanos do que imaginávamos ou editávamos no feliz mundo das redes sociais e das conversas cotidianas.

Se todos perdemos, quem ganhou o jogo sem vencedor?

PT, co-criador de Bolsonaro


Marcus Vinicius Batista

A esquerda brasileira paga o preço pela própria arrogância. Pelo narcisismo político. Pelo egocentrismo de seus líderes. A esquerda, neste caso, é simbolizada pelo seu maior representante nos últimos 35 anos: o Partido dos Trabalhadores. Associar esquerda e PT significa, aliás, dois pontos: 1) esquerda como antítese da direita numa eleição de extremos; 2) esquerda atual está longe de representar a definição ideológica clássica ou a forma de governar. O PT esteve muito mais próximo do centro do que se imagina.

O PT, na figura de seus caciques, desdenhou Bolsonaro. Ignorou o crescimento do fenômeno político e não visualizou nem como miragem o fato de que a extrema direita aprendeu a fazer política eleitoral com a própria esquerda. As críticas de Mano Brown, rechaçada por muitos petistas, são pertinentes e sintetizam o pensamento de vários ideólogos da própria esquerda.

Em janeiro, por exemplo, Bolsonaro oscilava em torno de 8% das intenções de voto. Muitos representantes da esquerda o descreviam como um bufão, como um cavalo paraguaio, que não sobreviveria à corrida eleitoral. Apostavam na repetição da polaridade com o PSDB, que também se apequenou tamanha a quantidade de erros estratégicos de campanha.

O PT foi rifado, em termos institucionais, por suas lideranças. O partido patinou por mais de quatro meses até oficializar Fernando Haddad como candidato, em 11 de setembro. Ele teve pouco mais de três semanas para firmar uma linha mestra de campanha. E pior: ainda luta para se desvencilhar da sombra de quem se coloca como pai novamente.

Usando o futebol como metáfora, compatível com o personagem, Lula jogou com o nome durante boa parte do campeonato. Perdeu o momento de tirar o time de campo, enquanto desejava ser mártir e se colocar acima da história do partido. Em outras palavras, o PT foi o dom que carregou Haddad ao segundo turno, mas poderá ser a maldição que selará uma derrota.

As lideranças, obcecadas por um projeto de poder, e distantes de um projeto de governo, se afastaram da militância, minimizaram sua relevância, passaram a falar somente a língua dos corredores palacianos e acreditaram, após quatro vitórias nas urnas, que não havia necessidade de se reinventar, de renovar nomes. Como Narciso, olharam para o espelho d´água e não perceberam que a mentalidade Bolsonaro – não o homem apenas, mas a forma de pensar, a estrutura moral distorcida – passou por trás delas e aos berros.

O PT perdeu duas vezes a chance de limpar a casa. De se proteger como instituição, de sacrificar parte da sua própria carne. Manteve os órgãos em putrefação, excluiu militantes históricos que questionaram seus líderes e atacou para se defender e ocultar seus esqueletos. Postura adotada no mensalão, repetida na Lava-Jato, insinuada nesta campanha eleitoral.

A esquerda, se pensarmos nos demais partidos, tentou se divorciar do pai falível, mas também não entendeu o século 21. Não compreendeu que precisava se adaptar às novas tecnologias, às novas formas de se comunicar, ao olhar fluído da política e aos novos caminhos de construção e difusão de informações. Cultivou o egocentrismo das reuniões intermináveis, das estratégias utópicas, mas – principalmente – o muro que se ergueu entre as instituições partidárias, seus políticos e a população em geral. Não se sabia mais com quem se conversava. Só com a corte.

A direita representada por Jair Bolsonaro fez política de base adaptada, guardando as devidas proporções. Política de base virtual, por vezes suja e selvagem, mas dentro de um mundo real. Real, mas fora da bolha que envolveu o adversário.

Neste sentido, o baile de marketing político incluiu a cristalização de rótulos infantis como a associação entre PT e comunismo, aproveitando-se de que as redes sociais funcionam como terreno fértil para a fragmentação e a superficialidade de informações. A direita nadou de braçada, armada de intolerância e preconceitos, num modelo anteriormente dominado por ícones e instituições simpáticas à esquerda. A desinformação só fez crescer o bolo belicista.

O PT dá a impressão que descobriu o erro e transmite neste final de corrida eleitoral, nas palavras de Haddad, que pretende comprar material de limpeza e de dedetização. Nenhuma prova concreta até agora. Cedo para dizer.

O problema é que a criatura nunca esteve tão forte como fantasia e mentalidade e, por isso, talvez o PT tenha acordado da soberba tarde demais.

sexta-feira, 26 de outubro de 2018

Por que meu voto será nulo





Fernando Rossi*


Quando achava ter chegado ao fundo do poço, redescobri o pré-sal.

Se, em 1989, o então candidato Fernando Collor de Mello surpreendeu o país ao levar em seu programa eleitoral a filha bastarda de Lula para que, entre outros assuntos, acusasse o pai de querer que sua mãe a abortasse, os programas eleitorais de hoje são a prova cabal de que Collor seria, hoje, candidato ao papado.

O termo Fake News tomou o país com a mesma força das pragas do Egito. Parentes e amigos enviam e compartilham, sem checar, os mais diversos absurdos. Sou combatente voraz (e feroz). A praga é tamanha que não conseguimos ouvir propostas.

Mas, afinal, quem as ouve?

Não somos politizados. Cresci com as máximas “brasileiro quer levar vantagem em tudo” e, com frequência, “política não se discute”. Discutimos posturas e falas dos candidatos, apenas isso. Enquanto um propaga “vamos exterminar os vermelhos” o outro diz “vamos subir a rampa com o presidente Lula”. Ambas falsas ou editadas.

Mas, no que queremos acreditar? No “salvador” ou no “amigo do verdadeiro filho de Deus”?

Eu, que até pouco tempo acreditava na necessidade da quebra do status quo, hoje tenho dúvidas. Não são poucas, a começar por todas as entrevistas que vi do atual líder das pesquisas. E, por mais que ouça “isso é só para ganhar voto”, não consigo aceitar nenhuma. Do poste, confesso, sinto pena. As últimas, da Bíblia “roubada” e do “pedido para desligar o whats”, enterraram qualquer possibilidade de outro sentimento.

Meus textos sempre foram pontuados pelas “desgraças que o partido do governo fez ao longo destes 16 anos” e aos “milhões de pessoas que ficaram desempregadas”. Não os nego, não mesmo. Porém preciso ser honesto com minha consciência e dizer que sim, foram anos difíceis, mas nunca me faltou trabalho e condições de pagar minhas contas. Assumi posturas diferentes, procurei novos caminhos na minha área e não desisti.

Trabalhei mais do que a CLT exige? Muito mais. Me arrependo? Jamais. A crise promove mudanças nos que não ficam parados, dirão os especialistas.
Minha crise, neste momento, é de consciência. As decisões tornam-se mais difíceis para quem sempre teve a mente ligada ao coração.

Já fiz campanha para candidatos à vereador e pude entender uma pequena parte de como funciona o “processo” político. As manipulações, aliadas à tecnologia e à falta de escrúpulos, permitiram que vidas fossem destroçadas e não me permito concordar com isso.

Quero um país melhor, mais seguro e justo. Mas não consigo olhar o “Brasil acima de tudo”.

A tecnologia, ao mesmo tempo que encurtou distâncias, promoveu um abismo entre pessoas que tem pontos de vista ou pensamentos divergentes. O algoritmo das minhas redes sociais facilitou o trabalho deste distanciamento.

Meu posicionamento de “PT Não” era minha única justificativa para votar no “Ele sim”.

Perdoem-me os que de mim gostam, mas meu “egoísmo” pulsa: faltando apenas 2 dias para a eleição mais sórdida de toda nossa história, nenhum dos dois candidatos terá meu voto, decisão que se aplica também aos postulantes ao governo do Estado de São Paulo.

O novo presidente será eleito como a “representação da mudança”. Torcerei, talvez, em silêncio.

Minhas opiniões políticas foram deletadas de minha timeline. É um passado que não interessa a ninguém. Foi um trabalho de pouco mais de uma hora. Recomendo à todos.

Respiro, aliviado, por fazer o que sempre fiz: ser verdadeiro e tentar ser sempre melhor para com meus semelhantes.

Sejam felizes.

* Fernando Rossi é publicitário com 25 anos de experiência e trabalhou em diversas campanhas eleitorais.


quarta-feira, 24 de outubro de 2018

O novo (velho) eleitor


Marcus Vinicius Batista

Ao final da aula de Ética, uma aluna de Relações Públicas veio me procurar.

— Professor, o Bolsonaro tem casos de nepotismo. Por que o adversário não o ataca com isso?

— Porque as pesquisas indicam que esta estratégia tem pouco efeito.

— Como assim, mas é nepotismo? Contratar parentes não é ferir a Ética?

— Você sabia que as pesquisas sobre Ética e Política apontam que entre dois terços e 75% dos entrevistados empregariam parentes se fossem eleitos. Eles entendem que, se o cargo é de confiança, melhor um parente encostado do que um técnico competente.



O eleitor médio, muitas vezes nós mesmos, é um sujeito prático. Ele escolhe seus candidatos por centenas de razões, de estética à comportamento sexual, de parente encaixado na Prefeitura à negação de um favor, de indicação de marido, mãe, pai ou alguém próximo até determinação do chefe. Eventualmente, avalia programas de governo, consome alguma informação, troca opiniões ou assiste debates.

O eleitor não é um sujeito nobre. Sinto que, por trás do discurso em torno do eleitor brasileiro, persiste uma aura de canonização. Isso esconde a cumplicidade e as conivências na hora do voto.

O eleitor também é fruto de instituições que pouco prezam pela educação política – não confunda com doutrinação ideológica, presente em universidades, igrejas e empresas. Porém, não dá para aceitar um determinismo político, com tantas prateleiras de informação disponíveis nos dias de hoje.

O eleitor é um sujeito que também vota por mesquinharia. Por cinismo. Por hipocrisia. Por efeito manada. E depois esquece o que fez, fugindo da responsabilidade. Fruto também da ausência de consciência crítica. Oito em cada dez eleitores não se lembram mais em quem votaram para o Poder Legislativo, seis meses após as eleições.

O eleitor médio é um sujeito que não vota por ideologia. Papo furado, tanto da esquerda como da direita. O eleitor, na sua praticidade cotidiana, vê um como o oposto do outro. E utiliza, mesmo quando enganado pela salada partidária e pela promiscuidade política dos candidatos, o processo de tentativa e erro, como permite de forma saudável a democracia.

Esse olhar pragmático, no qual as teorias e as análises parecem aulas entediantes de História do Ensino Fundamental, é capaz de não enxergar a própria ironia desta campanha presidencial sem precedentes históricos. Talvez porque não tenha visto as tais aulas de História. A ironia reside no fato de assistirmos à defesa veemente da tirania, do autoritarismo justamente num cenário de liberdade de expressão, o primeiro princípio a morrer quando se instala um regime de mão de ferro.

O eleitor não está sentado sobre os cânones éticos. Ele aplica, por conveniência, as expressões típicas do brasileirismo. O jeitinho. O “você sabe com quem está falando”. O “é dando que se recebe” e assim por diante. Neste caminho, o eleitor perdoa deslizes éticos da classe política, ainda que não saiba que está perdoando a si mesmo.

O eleitor tolera o “rouba mas faz”, engole a corrupção generalizada, não apenas a do PT, distorce a própria ideia de corrupção generalizada, classificando o mesmo PT como o dono de todos os males, deixa de lado comportamentos que reprovaria em parentes, amigos, na própria esposa, no próprio marido.

Ele rasga a Ética nas relações diárias e não percebe que tem os políticos que merece. O eleitor os instala numa torre de marfim para que não veja o espelho que nos indica como um político se parece com Dorian Gray, decrépito em seu próprio reflexo, lindo aos olhos do público.

O eleitor costuma ser narcisista. Vê o mundo a partir de seus próprios problemas. Pouco acompanha o contexto por trás de uma campanha ou das medidas dos governantes. È previsível e aceitável. Nenhum demérito, dentro das limitações da própria humanidade.

Nesta corrida, o eleitor se sentiu no direito – também por conta dos candidatos-espelhos – de colocar para fora o que sente perante a política. Frustrações, indignações, fé, intolerâncias, preconceitos, um caldeirão de sentimentos por vezes desfocados, que funcionam melhor quando aplicados num cenário maniqueísta com tons novelísticos. É mais confortável quando o outro se materializa no colega de trabalho, no amiguinho da rede social.

O eleitor costuma se julgar mais inteligente do que a maioria. O ser humano costuma se julgar mais inteligente do que a maioria. Muitos se consideram especiais, únicos. Afirmações previsíveis de pilhas de pesquisas em neurociências (voltaremos no assunto em outra ocasião).

A arrogância o faz presa fácil para o discurso bem encaixado, e baseado em pesquisas e análises, das candidaturas, de quaisquer cores. O eleitor, nesta campanha, comprou nomes, confirmou formas de vida, ignorou partidos – exceto o que veste a máscara do primo leproso -, sem perceber o quanto política e suas estratégias de comunicação podem ser manipuláveis.

O eleitor, com seus defeitos e lampejos narcisíscos, é essencial para a democracia. É vital entendê-lo, ainda que esteja no outro lado de nossas preferências. Não adianta agredi-lo, pois somente reforça suas convicções.

Para convencê-lo a pensar, é preciso seduzi-lo, nas conversas do dia a dia. Na campanha, um dos presidenciáveis o fez com eficiência. O outro, ofuscado pela petulância de seus líderes, mal teve tempo de se apresentar. Políticos, como bons mestres sedutores, são práticos.

A orgia política




Marcus Vinicius Batista

Qualquer criança sabe: a campanha eleitoral reproduz – como bem disse um grande amigo – as brigas entre o 5º ano A e o 5º ano B. Valem cusparadas, xingar a mãe, socos em frente ao colégio, pancadaria dentro de quadra no interclasses e até o grito de “ai ai ai, não deixava”.

Ao longo do ano, os alunos se esquecem porque surgiu a rivalidade entre eles, pois sabem que o que importa é dar a última palavra, mesmo que seja baseada em mentiras deslavadas, que afundam no universo imaginário de um moleque de 11 anos, louco para se afirmar entre os colegas.

Vivemos uma disputa entre dois modos de ver o mundo. Não é preciso explicar quais são, dentro da corrida presidencial. No governo do Estado, não são dois mundos, mas o mesmo endereço e a negação de relacionamento com o primo chamado de leproso, aquele que ninguém quer ver na ceia de Natal (expressão de outro grande amigo).

A luta de classes – interprete como quiser, seja pela veia marxista ou pelo 5º ano da escola – faz com que pouco saibamos o que efetivamente cada candidato pretende para o país. Esqueça os planos de governo, que sempre foram tratados como peças de ficção, pois são reescritos durante a campanha ou têm itens negados para simplesmente sumir no fosso da Internet depois da contagem de votos.

Santos, a cidade onde moro, é um endereço que costuma refletir o cenário político, em termos estaduais. No âmbito nacional, vemos lampejos conceituais, de leitura filosófica dos processos políticos. Em outras palavras, a cidade viveu no final do século passado e no início deste um reflexo do que tinham se tornado as campanhas políticas. Prevaleciam as propostas dos “gerentes”, não porque todos os candidatos eram mais sofisticados, mas porque o eleitorado rejeitava o perfil “metralhadora giratória”, o candidato que só atacava e nada propunha.

Numa das vitórias de Beto Mansur na disputa pela Prefeitura, um dos adversários caiu de terceiro para quinto – e assim acabou em empregos públicos por indicação – por conta de ataques aos candidatos que estavam à sua frente nas pesquisas. Ele acabou visto, por parte do eleitorado, como um pretendente sem conteúdo, sem atrativos para cortejar a noiva. E olha que possuía bons dotes em níveis estadual e federal.

Hoje, os presidenciáveis e os potenciais governadores de SP ultrapassam os limites da ética, da decência, da humanidade. É óbvio que devemos olhar para o comportamento moral de um candidato, mas o moralismo substituiu de maneira porca, perversa o conceito anterior. Enquanto um foge de propostas e alimenta fantasias genéricas, o outro ataca para se defender. As ideias se perdem no cheiro fétido da tampa do esgoto recém-aberta.

Se olharmos como Poliana, saberemos pelo menos que modo de vida, que mentalidade cada candidato – seja em Brasília ou em São Paulo – defende. É um começo, mas parece muito pouco para entendermos o que virá nos próximos quatro anos. Parece-me claro como se processa o funcionamento mental dos presidenciáveis, por distorção comportamental ou por desvio de foco, algo mais nebuloso entre os candidatos ao Governo do Estado.

No entanto, fica difícil desenhar com firmeza uma espinha dorsal de projeto de governo. Vemos projetos de poder. Neste caso, o lápis treme na criação do traço. A ilustração está desfocada, o que aguça a imaginação, a alucinação e até o delírio de quem o observa.

O triste é que temos os candidatos que merecemos. O eleitor é conivente, cúmplice da selvageria e da sangria verbal. Ainda assim, terá que escolher um, por voto útil, convicção ou somente ódio.

Na orgia política, não existem vítimas, tampouco santos. Só os de fala oca. Como as bravatas da turma do 5º ano.