sexta-feira, 19 de abril de 2019

Adilson não está sozinho



Marcus Vinicius Batista

Adilson Durante Filho é a bola da vez, símbolo e sintoma de como as relações raciais se estabelecem e se desenvolvem onde vivemos. Ao fazer um discurso racista contra os pardos via áudio, o então secretário-adjunto de Turismo de Santos e conselheiro do Santos Futebol Clube se tornou presa moribunda num momento histórico no qual o politicamente correto passa por crise de identidade, legitimado pelas lideranças políticas e econômicas, com a esquizofrenia de muitos setores da sociedade, de forma explícita, na sala de jantar ou no grupinho de rede social.

O caso, embora não tenha esperança de que servirá de aprendizado para ninguém, estimulou o arroto de doses de hipocrisia e merece algumas considerações em diversos níveis, do pontual ao individual, do macro ao microcosmos social.

Eis aqui algumas ideias:

1) Adilson Durante Filho cometeu um erro de racista principiante. Foi arrogante além dos limites que a KKK tupiniquim suportaria. Confiou demais nos parceiros de virulência. Ele não atacou os negros, e sim os pardos. O ataque aos negros também seria recebido com repulsa, mas uma parcela da sociedade fingiria que não é com ela. Fingiria porque se esconde dentro do conceito de pardo, sem vivenciá-lo no cotidiano, se fantasiaria de “cidadão de bem” com aquele papo furado da “minha avó é parda, meu pai também”, para parecer mais simpático publicamente à diversidade racial.

A diferença parece ser sutil, mas funciona como cortina de fumaça que, infelizmente, colabora para a permanência das ideias racistas na dinâmica social e cultural brasileiras. Os hipócritas, assim, conseguem entrar na onda de rejeição e podem, inclusive, se colocar como vítimas em potencial, o que camuflaria o cinismo de quem discrimina ou de quem se cala.

2) O pardo é quase uma entidade espiritual no processo social brasileiro. Embora a palavra tenha peso histórico, o pardo é construção social conveniente, um mecanismo de defesa para suportar o racismo branco, uma manta que cobre e esconde a discriminação que sobrevive pelo silêncio, pela conivência, pela ignorância e pelo debate carente de aprofundamento estrutural, que se limita a arranhar a superfície.

O pardo também apanha na rua, também toma geral da polícia, se encaixa no estereótipo do bandido, é chamado de “mau caráter”, mas o termo permite – pela manipulação individual e coletiva – certa proteção quando associado à posição social. Pardo cultiva, nas relações raciais brasileiras, status superior ao negro, fruto inclusive da aura de miscigenação como elemento democrático, não como um símbolo de violência ontem, hoje e sempre.

3) O pardo, no racismo brasileiro, é conceito incapaz de simbolizar a vida prática. Neste país racista, pardo serve para negar a negritude. Como consequência, auxilia na negação do racismo.

De forma involuntária, acelera as ações da “turma do deixa disso”, quase sempre brancos interessados em evitar exposições. Jogue alguém aos leões, sem mexer no estado de coisas.

Na semana que vem, Adilson será passado. Até o próximo caso.

4) A reação política do prefeito de Santos, Paulo Alexandre Barbosa, foi previsível, como qualquer político com razoável inteligência faria – olhe para Brasília e entenda que não é regra geral. O prefeito deu ao então secretário-adjunto a honra de pedir o boné, mas não perdeu a oportunidade de falar de si mesmo, na sutileza do narcisismo político e do autoelogio. Nenhuma surpresa, é protocolo político.

Outro ponto: é louvável e direito do prefeito se considerar pardo. Respeita sua história e origens familiares. Só tenho dúvidas se muitos de seus amigos políticos o enxergam assim.

5) Quando Adilson vomitou o palavrório racista, ele o fez porque é muito provável (muito mesmo!) que teve caixa de ressonância. Há audiência cativa para este tipo de violência. Como diz minha esposa, semelhante atrai semelhante. Como praticam os algoritmos, as redes sociais funcionam como bolhas de opinião, onde os pares se encontram e dividem prazer em seus achismos, preconceitos, discriminações, visões doentias de mundo.

6) Como figura política, Adilson colecionou adversários, para não dizer inimigos. O vazamento do áudio não aconteceu por preocupação social, por denúncia contra o racismo ou por um lampejo de cidadania. O vazamento ocorreu para destruir uma reputação, para retirar uma pedra do caminho, dentro de certos interesses políticos. Só nos resta saber – se é que importa – se o rastro dos pedacinhos de pão nos levará à Vila Belmiro ou à Prefeitura de Santos.

7) Adilson Durante Filho vive numa cidade historicamente conservadora, que se manifesta há décadas por atos racistas, entre outros processos de discriminação. Uma cidade onde, nos anos 40, sambistas negros eram presos por vadiagem, onde a polícia oprimia os desfiles carnavalescos.

Santos é uma cidade na qual um prefeito negro eleito, Esmeraldo Tarquínio, foi proibido de ocupar o cargo e perseguido pela ditadura militar por muitos anos. É a mesma cidade onde um jogador novato, chamado Pelé, foi proibido de entrar pela porta da frente de um clube de elite. Depois, campeão do mundo, ele foi recebido como se nada tivesse acontecido. A lista de fatos é, infelizmente, bem maior do que esta reflexão poderia comportar.

8) O conselheiro do Santos Futebol Clube vive num mundo onde negros e pardos são as estrelas do show, mas são tratados como empregados ou até escravos modernos. O futebol funciona como reflexo social, um ambiente onde o racismo se pratica em todos os níveis, dentro e fora do campo.

Os excrementos racistas proferidos pelo conselheiro não mudarão o modo de ver o futebol. No último episódio de racismo envolvendo o clube pelo qual Adilson torce, sobrou para a vítima. O goleiro Aranha testemunhou o clube lavar as mãos, parte da torcida desconfiar dele, a imprensa colocar panos quentes até que a história fosse abafada. Para muitos, ficou parecendo chilique do goleiro.

9) Adilson Durante Filho pediu desculpas publicamente e buscou se retratar. Não fez mais do que a obrigação. Quando membros da elite se veem em saia justa ou provam da violência social e psicológica que costumam perpetuar, sempre penso nos dois motivos que levam alguém a pedir desculpas.

O primeiro é o reconhecimento real do erro, do entendimento de que o outro foi machucado, da humildade de enxergar que um ato de violência foi cometido. A segunda razão é pedir perdão como autopreservação, como sinal de medo pela punição, de perder as posições que ocupa, de se proteger para manter a estrutura confortável em que vive, jamais pelo olhar sobre o outro, por se colocar no lugar dele.

Em qual destes caminhos Adilson Durante Filho preferiu colocar seus pés, sua reputação?

terça-feira, 20 de novembro de 2018

Consciência Negra pra quê?

Lima Barreto, escritor brasileiro discriminado
dentro e fora do sistema manicomial

Marcus Vinicius Batista

Sou um homem branco de classe média, de alta escolaridade, que vive num centro urbano de excelentes condições socioeconômicas. Hoje, num dia de folga, sem os empregados do comércio e das casas ao redor, sem a coleta de lixo, sem as mulheres que varrem as calçadas da minha rua, sem os moradores de rua que visitam a armação de metal, a casa dos nossos restos, durante a madrugada, eu poderia perfeitamente perguntar aos meus vizinhos: Dia Nacional da Consciência Negra pra quê?

Poderia também questionar os frequentadores da academia da moda, que fica na esquina de casa. Poderia também indagar a maioria dos meus colegas de trabalho, quase todos professores universitários com seus títulos e honrarias. Consciência Negra pra quê?

Eu poderia confirmar a dúvida de uma amiga de faculdade, que vivia entre o comércio no Gonzaga e o prédio de alto padrão no Campo Grande, a um quilômetro do trabalho dela. Onde estão os negros em Santos (a cidade onde moramos)?

Poderia ainda colocar em debate – na verdade, sucessivos monólogos de confirmações de tese – a questão posta por um colega de futebol, anos atrás. Ou uma dúvida nada infantil de um aluno de universidade, que prefiro dizer que se matriculou em minha disciplina, mas a assistiu com aqueles fones de ouvidos resistentes ao barulho de britadeira. Por que não temos o Dia Nacional da Consciência Vermelha? Por que não temos o Dia Nacional da Consciência Humana?
Sou um branco, num país onde a maioria das pessoas são negras ou pardas, esta última uma classificação peculiar da cultura brasileira, uma parcela da sociedade que preferia (já explico o verbo no passado) o silêncio sobre o racismo, quando defende uma fantasia chamada democracia racial e suas derivações delirantes.

Escrevo há anos sobre o tema. Escrevi uma dissertação de mestrado sobre o assunto. Levo o problema para sala de aula, para uma plateia majoritariamente branca, todos os semestres. Ouço os argumentos brancos, os da negação, e busco refutá-los com informações, com serenidade. E testemunho como as mudanças estavam acontecendo de maneira lenta; lenta, mas gradual.

Não tenho mais ânimo para argumentar com estatísticas. Se alguém duvida de que o Brasil é desigual até a alma (sem cor, aliás), faça uma pesquisa chinfrim na Internet. Qualquer ângulo: saúde, políticas públicas, sistema prisional, segurança pública, universidades, política e até futebol. Se está com preguiça, ande na rua e converse com as pessoas. O racismo só não aparece para os cegos, surdos e mudos de consciência política.

Se não quer sair de casa, acesse qualquer rede social. Ali, você verá o que mudou. Não deixamos de ser racistas. Passamos a acreditar que é possível ser racista sem maiores consequências. Autorizados ou não pelo próximo Governo, muitos saíram do armário da ignorância e da vergonha, se vestiram de colonizadores e resolveram falar como personagens de novela de época do século 19.

O palavrório discriminatório saiu da negação, em muitos cenários, para a agressão com nome e sobrenome. Se no Planalto pode, por que não poderia na terra batida gourmet?

Jamais saberei o que é o racismo, na combinação cor da pele e posição social, no sentido mais profundo, aquele que dilacera a essência, aquele que corrói a identidade e a dignidade de alguém. Ao conhecer sua existência, porém, é vital não ficar calado ou me omitir pela inércia da falsa naturalidade das coisas.

Não é porque uma parcela estúpida se sente legitimada a vomitar sua boçalidade travestida de inteligência que deveremos aceitá-la como parte das relações humanas. O racismo é uma falsa característica humana, ela pertence aos selvagens.

Como disse recentemente a antropóloga Lila Schwarcz, o racismo brasileiro diz respeito aos brancos, pois é provocado por eles. E, desta forma, o ativismo branco é essencial para que seus supostos pares de cor se retraíam na vergonha, na mediocridade e no crime que cometem a cada vez que abrem a boca na mesa de jantar ou escondidos atrás de uma tela de computador.

quinta-feira, 15 de novembro de 2018

Mais Médicos: quem se importa?


Marcus Vinicius Batista

Este texto não é para você, meu costumeiro leitor. É um texto para aqueles que, provavelmente, por falta de acesso não o lerão. É para quem terá uma infinidade de problemas mais urgentes do que usar uns minutos para uma reflexão política.

Vivo numa cidade onde muitos não se importam com a saída de profissionais que pertencem ao programa Mais Médicos. Não se tratam de cubanos, alienígenas ou corintianos. Trata-se de pessoas que, dentro de sua invisibilidade, dependem deste programa para não morrer de causas que deveriam estar nos livros de História sobre Idade Média, como diarreia e infecção urinária.

Vivo numa cidade onde muitos reclamam dentro do que consideram ser um direito dos privilegiados, uma expressão contraditória em si. Privilegiados em ter plano de saúde, mesmo que tenham que esperar três meses por uma consulta com um médico que os atenderão por 15 minutos porque precisa receber um monte de pacientes, pois – como privilegiado também – recebe uns R$ 30 por consulta. Aliás, sem garantias de pagamento porque um erro num formulário burocrático vai significar “pagamento indeferido”.

Não precisamos do programa Mais Médicos porque entendemos que nossa rede hospitalar é suficiente para atender a todos, principalmente aqueles que podem acionar a rede de favores, do médico que é primo do primo, amigo da ex, tio do chefe, o profissional capaz de arrumar um leito para internação do nosso parente. O parente que pagou décadas por impostos, assim como nós – os pedintes de favor -, mas que desprezamos o SUS porque é ruim e, por isso, não serve para a classe média que atira verbalmente no alvo errado.

Não precisamos do programa Mais Médicos porque, muitas vezes, a minha cidade de muros simbólicos possui uma farmácia em cada esquina nos bairros “bons” (os nossos), fingindo descontos já embutidos no preço da concorrência quase cartelizada, mas que alivia nosso ego que adora um discurso fraudulento de lesa consumidor. O consumidor que acha que leva vantagem, como se estivesse num cassino, local onde vantagem é utopia.

Dispensamos o programa Mais Médicos porque podemos entrar no cheque especial – alguns até fazem empréstimos consignados – para pagar pela consulta particular, que será amanhã cedo em vez dos três meses de espera. Na mentalidade do consumidor, podemos pagar R$ 350 pelos mesmos 15 minutos – ou um pouco mais para justificar o “investimento” e receber uma lista de exames que será bancada pelo mesmo plano que paga esmolas aos médicos. Mas cuidado: dependendo dos exames, senha, fila, auditoria, culpa do sistema, atendente uniformizada pior remunerada do que você e que te olha com cara de misericórdia.

O programa Mais Médicos não tem nada a ver com a origem dos profissionais, para um paciente que nada tem. Ele somente expôs o que não queremos ver, a podridão que permeia as relações entre Governo e população, governo de todas as camisetas, caro amigo que julga um grupo corrupto e os demais limpinhos. Não vivemos num filme de super-heróis baseados em histórias em quadrinhos.

O Mais Médicos coloca na vitrine – com 8 mil profissionais – o quanto somos vários países em um só. Vários países na sua cidade. Falta saúde digna de seres humanos, com seres humanos e para seres humanos na cidade onde você mora. No mesmo bairro que você reside. Do outro lado da rua.

As pessoas não precisam de médicos cubanos. Elas precisam de médicos, assim como precisam de outros tipos de serviços públicos. Não é preciso andar tão longe. O buraco da saúde pública está no posto há uma quadra e meia da minha casa. Da sua, caro leitor, a variação da distância não o deixará cansado do passeio que nem podemos chamar de caminhada.

Este texto não é para aqueles que ficarão sem os médicos e que podem morrer de diarreia, infecção urinária e outros problemas medievais. Este texto é para você, leitor, que queima dinheiro em impostos e se vê como privilegiado porque paga para esperar por três meses por consulta. Contraditório, não? Sim, como nossas ações diante do que deveria ser feito neste país.

terça-feira, 6 de novembro de 2018

Resistir é legítimo!


Marcus Vinicius Batista

Os apaziguadores podem ser sujeitos perigosos. O perigo mora na ambiguidade de suas atitudes e como elas podem usadas pelos lados do balcão (sempre mais de dois). A turma do deixa disso pode pecar pela ingenuidade, vestida de Poliana enquanto um dos lados ladra e ladra no limite da agressão.

O pacifismo, quando mal intencionado, mascara a crueldade, camufla as intenções de enfraquecer quem pensa e age diferente, vendendo e comprando a ideia de que todos os envolvidos estão de bandeira branca erguida. Na verdade, bandeira que encobre o desejo por sangue alheio daqueles que incentivam a falsa palavra de paz.

Independentemente do que carregam atrás do palco, os apaziguadores acabaram, no passado recente, por comprar um discurso distorcido de quem virou situação pelo voto, antes pelos conchavos, na política brasileira. Os mensageiros da paz engoliram a ideia que resistir significa, no automático, torcer contra, pensar que quanto pior, melhor, expelir ranhetice, não saber perder. De alguns, pode ser. De todos, é se sentar na infantilidade generalizada.

Esta postura esconde, de maneira voluntária ou não, uma série de pontos. O autoritário deseja, em todos os níveis, ser a única voz. O autoritário goza ao som das próprias notas, sem ruídos, sem interferências, sem contestações. Resistir é mostrar a ele que a voz pode ter vários timbres, diversos autores, inúmeros instrumentos. A resistência aponta para a mudança de repertório com alguma influência de todos os músicos da orquestra, e não exclusivamente do maestro.

O segundo ponto é a própria existência da democracia em si. A democracia representa o regime da maioria e um governo só cresce, só se mostra efetivo quando conversa e ouve, de fato, todos que se sentam à mesa. Resistir pode elevar o nível do debate, apontar novos ângulos, olhar novas perspectivas que não podem ser esquecidas por quem se senta à cabeceira da mesa e hoje dá as cartas.

Resistir é fazer oposição. E fazer oposição é diferente de ser do contra. O ser do contra, cedo ou tarde, se esvazia no próprio discurso oco, sem ideias oxigenadas, sem propostas que arejem o ambiente político. A resistência nasce até com o risco de ser plagiada, quando o poder não sofre da arrogância cega da tirania. O poder inteligente é capaz de aproveitar os questionamentos da oposição igualmente sagaz, nem que seja com o objetivo maquiavélico de tornar seus adversários figuras decorativas.

Resistir é sinônimo de liberdade, de livre trânsito político, de pensar na coletividade, de escapar do destino de repetir mensagens superficiais a serem ruminadas pela manada. Resistir é ser livre para escolher caminhos de proteção contra os excessos do poder constituído, exercitar a fiscalização, vigiá-lo de perto para que não confunda liberdade com ausência de limites, equívoco que resulta em violências de todas as ordens.

A resistência não tem cor de partido derrotado nem cheiro de sigla contaminada pela mosca azul que voa nos palácios dos acordos, porcentagens e dinheiro vivo guardados em todos os buracos do corpo humano e institucional. Resistir é ecumênico, inclusos os que votaram no próximo ocupante da cadeira, caso ele e sua turma decidam pela estrada das patotas, das panelinhas, dos amigos dos amigos. A resistência veste a toga não para se beneficiar, mas para indicar que governar significa mais do que projeto de poder pessoal ou de um grupo.

Resistir é política saudável. Sem contraponto, a democracia adoece, as instituições balançam as pernas, os donos do poder se embriagam sem que ninguém tenha força para fazê-los contornar alucinações e delírios de grandeza. A resistência pode ser o remédio para a soberba política, para o complexo de Deus (ou o caráter messiânico) que acomete e acometeu muitos “pais” da República brasileira.

Os apaziguadores, quando pedem que a resistência desapareça, se esquecem de um ponto vital: quem é situação hoje foi ou pode ter sido oposição ontem. Quem estará no poder amanhã compôs os quadros da oposição agora há pouco ou ontem. Resistir é parte da democracia. Sem ela, temos tirania. Sem resistência, caminhamos sem freios para o totalitarismo.

Nele, o pelotão de fuzilamento atira na verdade, no diálogo, no debate, no pensamento crítico, na contestação, não exatamente nesta ordem de corpos ao solo. A lista de cadáveres inclui os que quiseram costurar panos quentes.

quinta-feira, 1 de novembro de 2018

O juiz


Marcus Vinicius Batista

O maior humanista que conheci tem cerca de 85 anos. É um sujeito de hábitos, entre eles, estudar todos os dias. Ler, escrever, dialogar, incentivar a produção de conhecimento alheio. Sou fruto desta frase.

Quando discordamos, ele sempre me presenteia com ponderações, com análises – conceito diferente de opinião -, com sugestões de textos, links ou outras fontes de informação que possam reforçar a conversa entre nós. Jamais partiu para a desqualificação pessoal. Jamais se colocou numa posição de superioridade ou discursou em tom professoral. Sempre me ensinou sem nunca me dar aula.

Como um humanista, ele sempre entendeu que o amor pelo conhecimento nunca se coloca acima dos homens. Que os homens necessitam do conhecimento a favor de si como coletividade, nunca como individualismos. Ajudou muitos em momentos difíceis, formou inúmeros em contextos iniciais de suas vidas, orientou quem ansiava por aprendizagem, inclusive aqueles que o utilizaram como trampolim. Ossos do ofício. Sedução pela utopia filosófica, talvez.

Este humanista foi juiz de Direito. Desculpe, é, pois não se trata de uma questão de estar, de almejar saltos vantajosos ou oportunos. Ele chegou no alto da hierarquia do Poder Judiciário do Estado de São Paulo e ali se aposentou. Sempre por méritos próprios, nunca por conchavos, acertos ou trocas de favores. Estudou como um condenado à prisão perpétua para concursos, inclusive enquanto criou cinco filhos ao lado de uma mulher de visão, fibra e postura semelhantes. Todos, em sua casa, souberam compreender o valor que se deve dar para a construção do pensamento próprio. Sou testemunha ocular.

Este juiz nunca desejou os holofotes. Nunca se envolveu em polêmicas pela imprensa, concedeu entrevistas coletivas para absorver os louros de uma decisão judicial ou posou para fotos com políticos em eventos de cunho esquisito.

Como juiz, lutou para se aproximar da isenção e consistência máximas, da neutralidade, consciente de que tais termos são falhos e limitados, mas que devem ser perseguidos com obsessão para se aproximar de uma sociedade menos desigual, mais equilibrada, mais justa (com o perdão do trocadilho).

Este juiz jamais tentou interferir em decisões do Poder Legislativo feito deputado ou agir como substituto eventual do Poder Executivo. Conhecia suas fronteiras e atribuições e atuava com a distância de quem é responsável por definir, a cada canetada, os rumos da biografia de outra pessoa. Sempre foi politizado, justificou suas escolhas em âmbito privado, mas se esquivou de maneira obsessiva da política partidária e das tentações dos corredores dos palácios.

Ele escreveu livros (ainda o faz), incansável na busca do entendimento do humano. Sempre repudiou, óbvio dizer, a corrupção. Curioso quase patológico, estudou tão fundo o tema que produziu um livro de 600 páginas. Coincidência ou não, a obra foi editada por uma editora portuguesa, não por estas bandas.

Ele falhou diversas vezes como qualquer sujeito, na vida cotidiana. Cultivou defeitos e manias como todos nós e tentou revê-los na velhice, em exercícios de autorreflexão. Autorreflexão porque a leitura de homem como ser biopsicossocial e espiritual estava incompleta até pouco tempo.

A percepção da incompletude só veio aos 75 anos, quando quebrou resistências internas, descobriu a Psicanálise e se sentou na poltrona dos pacientes em terapia. “Por que não descobri isso antes?”, me perguntou entusiasmado, certa vez, num restaurante.

Na última vez que nos encontramos, não podemos conversar muito. Ele comprou meu livro novo. O anterior, adquiriu pela terceira vez. Dei risada, autografei e perguntei:

“O senhor sabe que comprou pela terceira vez?”

“Não tem problema. Vou dar de presente.”

Dois de seus filhos foram para o mundo jurídico. Outros dois foram para a Saúde. O mais novo milita na Educação. Todos admiráveis pela politização, senso de Justiça, caráter e decência no trato com o humano. Repetem, no cotidiano, as qualidades expostas acima, não como mérito, como obrigação inerente às relações humanas.

O humanista mais importante que conheci deixou de ser professor há uns dez anos. Quando perguntei o motivo, ele me disse estar cansado. Cansado das pequenas corrupções, assim vistas como menores no ambiente institucional. Cansado dos plágios, das negligências, da política provinciana e feudal em muitos ambientes do Ensino Superior.

Ele preferiu estudar em casa, aprender sempre, escrever quando possível. “Estou aprendendo húngaro”, me contou há quatro anos. Era seu décimo idioma, na minha contagem, pois nunca o vi se gabar disso, sequer contabilizar em público. Achei desnecessário perguntar.

Este juiz, cujo nome preservo pelas óbvias motivações descritas ao longo deste texto, nunca quis ser celebridade. Nunca cortejou lado. Jamais seria ministro. O humanista não fez ou faz política partidária. Ele tem a alma de um juiz.

quarta-feira, 31 de outubro de 2018

Carta ao eleitor (quase) silencioso


Marcus Vinicius Batista

Caro eleitor punitivo,

Com a vida voltando ao normal e o novo presidente agindo dentro de sua normalidade, você acreditou que poderia se despir da fantasia social de domingo. Não precisaria mais ser eleitor, cumpriu sua obrigação, e era hora “de deixar o homem trabalhar”.

Você conseguiu o que desejava e é seu direito. É importante dizer, não a você, mas aos truculentos, que é direito. Só que há uma distância entre colaborar com a derrota do adversário – rejeitado por você, não por Deus! – e evitar as discussões cotidianas sobre política.

Numa eleição sem precedentes, caro amigo, política ainda será rastilho de pólvora por algum tempo. Ainda bem. Você não pregou que era fundamental acompanhamento contínuo de quem exercita o poder com mandato. Democracia é assim. Assim talvez o seja para ti.

Sei que você se enxerga como uma pessoa moderada, típica da classe média, pagadora de impostos, trabalhadora em excesso, horrorizada com tanta corrupção. Não questiono este discurso, e creio que seja uma postura, de fato. Você é meu espelho, você mora em meu microcosmo.

A diferença entre nós é o fardo que colocou no seu lombo. Agora que a raiva começa a se diluir no dia-a-dia, você me dá sinais de que o voto emocional, o voto de indignação, o fez simbolicamente violento. Estender o próprio limite, antes desconhecido, pode machucar. Isso talvez o deixe constrangido, comportamento que transparece nas entrelinhas das rodas de conversas, das discussões do intervalo de trabalho, nos elevadores e até no banheiro.

Diante desta tarefa rara, você busca escapar das conversas sobre política. Elas tocam geralmente nos atos do presidente a ser empossado, na sua equipe, no seu palavrório de campanha, nas especulações de nomes de caráter e gosto duvidosos. Você não se manifesta, abaixa a cabeça, sorri de canto de boca. Mea culpa seria necessário? Não sei, emoção e razão caminham juntas dentro de nós.

Como se considera um sujeito ponderado, avesso à desqualificação do outro, equilibrado nas opiniões e nos atos, você evita o argumento falho, mas real, que justifica seu voto. Por que falar do perdedor? Um mérito no pós-jogo. Ele é passado no Executivo federal; por sinal, há dois anos, embora suas heranças povoassem seus pensamentos por semanas até a decisão de clicar outro número na urna eletrônica.

Quem sabe o silêncio calculado mascare a dificuldade em encontrar argumentos consistentes no novo? Você pensou nisso antes? Defender sua escolha, sem cair na tentação de atacar o outro?

Lembre-se: a escolha foi seu direito. Mas assinou um papel pelas razões erradas? Não jogue nas costas do tempo, não o utilize como solução do destino. O tempo é volúvel por natureza, perceptível de forma particular por cada um de nós.

Sua incerteza é o preço do voto útil, do voto que guilhotina o réu nosso de cada eleição. Assim, seu silêncio é justificável. Na dúvida entre a sanidade e a confissão de obsessão, melhor ficar em pose monástica, com sorriso de Dalai Lama.

Você votou também pela dúvida. E se apoia nela quando se encoraja em participar da conversa. O benefício da dúvida para o novo presidente. Você se mostra um sujeito otimista, mas que legisla em causa própria, quase um Poliana.

“Vamos esperar”, você diz.

“Vamos torcer”, você reforça.

“Ele não vai fazer tudo o que falou”, você teme.

“Deus vai nos ajudar”, você apela, sem reconhecer que transfere responsabilidade.

Certamente, o Altíssimo tenha ocupações demais para nos informar, outra vez, que não nasceu no Brasil. Qualquer argumento morre de inanição depois de cinco séculos de violência.

Você caiu em si. Você é diferente daqueles que acompanharam Bolsonaro desde o início da campanha. Estes eleitores não são da mesma crença que você. Eles têm fé no homem. Compartilham de seus valores, muitos até se expõem, inclusive de forma violenta, em nome Dele. São convertidos, parte do processo.

Você votou por descrença e agora, nos olhares, na fala um tom abaixo do normal, na saída à francesa da sala, indica que a racionalidade faz com que seu medo mude de endereço. Você tem medo do que fez? O liquidificador de sentimentos é tão previsível nesta altura quanto foi seu voto. Só que a raiva, ensina a cultura popular, é o veneno que tomamos enquanto desejamos a “desgraça” do outro.

Como Deus virou água na boca dos políticos, só te resta reconhecer os pecados, caso os julgue deste modo. Nunca vou apontar o dedo para ti. O “te avisei” será seu, se houver a dor única do arrependimento.

Compreendo seu sofrimento, que se parece com o meu, ao ver a política se vestir de guerra, com suas propagandas, derrubando soldados feito pássaros pelas mãos de um menino inconsequente e ressentido, armado com uma espingarda de chumbinho.

A má notícia é que ele não governará para você. Ele deveria governar para todos, mas os primeiros passos indicam que o caminho da seletividade está definido. Não silencie. Dialogue. Ouça, acima de tudo. Proponha. Acompanhe de perto.

Estes são os primeiros degraus para quem fechou os olhos com raiva e agora percebeu que talvez tenha falado demais. Ou apertado um botão vermelho, o da emergência, não o do partido-gatilho de obsessões eleitorais.


Já começou!


Marcus Vinicius Batista

O funcionário do supermercado fechou o caixa e virou a placa que informava a suspensão do atendimento. Um consumidor, na faixa de 45 a 50 anos, ignorou o aviso e começou a colocar suas compras no balcão.

O funcionário, de maneira educada, pediu:

— Senhor, por favor, coloque as mercadorias no caixa ao lado. Aqui está fechado e, se o senhor colocar as compras, outros clientes vão achar que o caixa está aberto e vão formar fila.

— Vou colocar minhas compras sim e você vai me atender!, o cliente retrucou aos gritos

— Sinto muito, mas eu tenho direito a um intervalo para ir ao banheiro. Aquela moça vai me substituir e, daqui a pouco, haverá atendimento.

O rapaz, negro e homossexual, virou o corpo para deixar o caixa, quando ouviu o senhor dizer, no mesmo tom alto, pelas costas:

— Ah, a moça vai fazer xixi sentada? Olha, gente, a moça vai fazer xixi sentada.

— Vou sim, senhor, e o senhor não tem nada a ver com isso.

Todos os clientes que estavam nas filas aos lados do caixa ouviram a conversa. Apenas uma mulher respirou fundo e sussurrou: “Já começou!” Todos os homens da fila permaneceram em silêncio.

**********

Enquanto o próximo presidente da República oscila entre as bravatas de campanha e os anúncios iniciais sobre ministérios, seus súditos voluntários começam a colocar as mangas e a irracionalidade de fora. Há vários registros de casos de violência, entre ameaças, atos caricaturais na Internet e registros em delegacias.

A ressaca eleitoral ainda não se dissipou e, mesmo quando acontecer, será difícil conter os comportamentos agora explícitos de quem se sente autorizado, legitimado pelo líder político em suas palavras de ordem contra quem não se encaixa em seu estereótipo de menino valentão.

Os agressores, em todos os episódios que testemunhei, se intitulam cidadãos de bem (voltarei neste conceito em outro texto). Consideram-se, na sua estupidez de baixa cidadania e certezas dogmáticas, legítimos representantes acima de lei e da ordem. Querem, na verdade, privilégios dados aos escolhidos (ou mantê-los), seja pelo discurso irresponsável dos políticos, seja por Deus – quem seria? – que tem seu nome surrado em vão por gente que dá a impressão de cultuar os princípios daquele que foi expulso do paraíso.

A eleição serviu, entre outras coisas, para nos esfregar na cara o quanto somos uma população que chafurda em violência cotidiana, em preconceitos, em intolerância, em mesquinharias, na capacidade de enxergar o outro como diferente, como ser humano. Gente que defende a morte de gente apenas por ser gente...diferente. E olha que, muitas vezes, a diferença se dá somente na vida pública, na máscara do personagem.

O novo presidente tem a obrigação moral de reduzir sua valentia atrás das telas e apaziguar aqueles que pregam truculência em seu nome. Se já é um irresponsável quando faz apologias violentas, será cúmplice quando se sentar na cadeira em janeiro. O problema é esperar uma postura distinta, além dos limites éticos e intelectuais que talvez Bolsonaro não possa nos entregar.

Em vários ambientes, vejo discursos de união, de redução de danos, de expectativas positivas para o novo Governo. Soam mais como justificativas para o cheque branco assinado em vez leituras concretas. Até porque Bolsonaro se elegeu sem pouco propor. Estamos acompanhando seus interesses mais explícitos na economia e na política palaciana nos últimos dois dias, muito pouco para atender 55 milhões de pessoas, no mínimo.

O discurso apaziguador vem, na maioria, daqueles que votaram em outros candidatos e fizeram a escolha por Bolsonaro para punir o Partido dos Trabalhadores. Mas esta fala está se misturando com fatos previsíveis.

O preconceito e a selvageria, em nome de Deus, da família ou quaisquer outras razões cínicas e hipócritas de muitos que não as praticam (conheço tantos assim!), saíram da sala de jantar e das mesas de boteco. Começam a se transformar em ações, que expõem a frágil fronteira entre a civilidade e a barbárie de quem cansou de interpretar o papel de tolerância, de ser humano.

O ciclo de estupidez só ficará completo quando estes sujeitos, muitos de classe média ou baixa e ausentes de crítica política, feito crianças numa democracia cheia de falhas, perceberem que o Estado truculento e seus súditos são míopes também para os “cidadãos de bem”. Que ser eleito significa muito mais do que esbravejar, de forma covarde, na fila do supermercado, como se pagar as compras o tornasse uma criatura acima das demais. Um feitor do “olha com quem está falando” que sonha em viver os tempos áureos das chicotadas nos moradores da senzala.

O feitor, mal sabe ele, só distribui lambadas porque o senhor dos escravos não gosta de sujar as mãos. Um dia, ele se cansa e troca a mão que faz sangrar. E envia, sem escalas, o feitor de volta à senzala.

O senhor, neste momento, está mais preocupado em fazer campanha, enquanto joga a conta nas costas de Deus e flerta com seus falsos profetas.