terça-feira, 16 de outubro de 2018

O diálogo entre política e futebol



Marcus Vinicius Batista

* Texto publicado, originalmente, no jornal A Tribuna, de Santos, em 15 de outubro de 2018.

Política e futebol são como primos: apresentam semelhanças, mas não possuem traços iguais; tem grau de parentesco, porém convivem de vez em quando; e dividem paixões quase inconciliáveis, embora muitos não percebam que seguem a mesma dinâmica familiar.

Em tempos de discurso de ódio, a campanha eleitoral se transformou em um Fla-Flu, digno de hooligans, os violentos torcedores ingleses, no auge da selvageria do final do século passado. O interessante é que dirigentes, imprensa e parte da sociedade mantém relações contraditórias quando envolvem jogadores de futebol e manifestações políticas.

Neste período eleitoral, é comum se ouvir que os jogadores são alienados, sujeitos emburrecidos pela dedicação exclusiva ao esporte. Outras críticas os colocam como seres que fogem de quaisquer discursos sociais ou de perspectivas que alcancem um olhar mais aguçado sobre a sociedade contemporânea.

Esta fala esconde um tom de hipocrisia. Por trás dela, mascara-se o desejo de manter os jogadores de futebol profissional dentro do cabresto. Defende-se que abram a boca por conta da visibilidade e da influência que exercem sobre torcedores e simpatizantes, desde que sigam as cartilhas dos cartolas ou dos comentaristas supostamente formadores de opinião. É a mordaça institucionalizada.

Jogadores que pensam além dos muros dos centros de treinamento são vistos como incômodos, chatos ou até subversivos (termo, aliás, ressuscitado e distorcido na era da infantilização política via rede social). Afonsinho, nos anos 70, Sócrates, a Democracia Corintiana e as Diretas Já, nos anos 80, Alex e Rogério Ceni, na década passada, e Paulo André, nos últimos anos, são exemplos de como atletas podem sofrer com estigmas ou ter a imagem manipulada por interesses políticos, inclusive dentro dos clubes onde atuaram.

Governos de diversas linhagens sempre utilizaram o futebol como instrumento político. Mussolini e o fascismo italiano na década de 30. Getúlio Vargas e a profissionalização do futebol, em 1933. Os 90 milhões em ação, cantados em verso e prosa pelo regime militar, em 1970. A curiosa cambalhota de Vampeta, em 2002, na rampa do Palácio do Planalto, sob os olhares de FHC. Lula e as metáforas sobre futebol, faturando com a escolha do Brasil para sede da Copa do Mundo, em 2014.

Jogadores de futebol são cidadãos com um poder imenso em suas palavras e atitudes, principalmente os de elite, que ganham visibilidade midiática diária. Estes e os demais operários do esporte têm a obrigação de driblar o desinteresse pela política.

Os destinos do futebol – e deles também – são decididos nos gabinetes de criaturas engravatadas, que se sustentam dos milhões gerados pelo trabalho de muitas pessoas, cujas vidas significam abrir mão de familiares, amigos e estudos. Jogadores têm que tomar posição política – diferente de defender candidato – para melhorar, direta ou indiretamente, a profissão que exercem, com tempo limitado.

Política e futebol se discutem sim, dentro dos limites de um diálogo. Rivalidades alimentam o espetáculo e engrandecem o esporte como ação política. Futebol como política não tem relação alguma com intolerância, independentemente de se dizer: alguém sim, o outro não.


segunda-feira, 15 de outubro de 2018

O que é ser (ou não) professor



Marcus Vinicius Batista

Tenho 44 anos e, fazendo uma conta grosseira, percebi que estou há 37 dentro da escola, como aluno, como professor. Nos últimos anos, os dois ao mesmo tempo. Este internato voluntário me dá a clareza de que professor e escola transcendem um ao outro, independem dos muros institucionais que podem, inclusive, cegá-los para o que importa na formação humana.

Professor não é quem comanda os trabalhos dentro de uma sala de aula em caráter absoluto, é cada vez menos o sujeito que fala e os outros ouvem, quando não se sugere que abaixem as orelhas. Professor é quem abre as portas para a pluralidade de vozes, para a conversa coletiva, para a construção de pontos de vista, com suas contradições, angústias, retrocessos e avanços.

Professor não é o sujeito sentado sobre os almanaques do saber. Professor não é quem restringe conteúdos por medo de ficar ultrapassado, por pavor de ser ultrapassado por seus alunos. O professor não é um pai, mas como tal, sabe que seus alunos nasceram para voar mais longe. O professor sorri quando os vê numa altitude mais elevada, jamais ceifa suas asas.

Professor não é somente o homem dos diplomas pregados na parede, dos títulos, das comendas, das honrarias. Muitas das maiores atrocidades dentro de uma escola foram ditas e cometidas por quem se veste de “doutor” ou se fantasia de “mestre”. Grandes professores podem também não ter um único diploma, mas ensinam pelo exemplo, pelas ações, raramente pela retórica ou pelas aspas decoradas. As citações só valem no contexto do ato.

Professor não é aquele que amarra seus alunos pelas provas difíceis ou pelas chamadas ou listas de presença. Professor conquista sua platéia a cada apresentação, de corpo, alma e espírito. E sabe, acima de tudo, que bons alunos não se definem pelas notas de suas provas amedrontadoras. Bons alunos são definidos pelo caráter, pela decência, pela dignidade em torno de suas escolhas, daquilo que pretendem levar adiante em suas biografias.

Professor não é aquele que transmite um único modo de pensar, mascarando uma ideologia como se não existissem outras. Professor tem ideologia, mas é honesto intelectualmente para denominá-la, reconhecê-la como falível, entendê-la como parte de sua vida.

Professor não é aquele que defende um candidato ou que defende o silêncio de quem pensa diferente dele. Professor é quem dá voz à coletividade, pondera sobre as escolhas políticas, consciente de que o homem como ser político se sobrepõe a quaisquer camisas, dentro dos limites da humanidade.

Tento ser um professor há 16 anos. Por vezes, este ofício me conduz ao limite da fadiga. Por vezes, este ofício salva meu dia, minha semana com pequenas vitórias. Em certos dias, a burocracia e a estupidez humana quase me fazem desistir. Em outros, as pessoas me fazem voltar no dia seguinte. Eventualmente, a ausência de reconhecimento – inclusive de quem deveria nos apoiar – nos empurra para a sensação de indigência. De vez em quando, o aplauso de quem sabe que a evolução humana pode acontecer nos garante que os medíocres não vão permanecer por perto. Ser professor é pisar em solo movediço, paradoxal como o próprio caminhante.

Professor não é somente o sujeito que está em sala de aula. Professor está em todos os cantos, onde há gente, onde há diálogo, onde há respeito pelo outro, onde ele mal consegue perceber que assim o é. Um professor jamais é professoral. Ele é professor quando não percebe que está em aula!

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Di Renzo: o animal político

Fotos: Marcos Piffer
Marcus Vinicius Batista

* Este é o quarto (e último) dos perfis que foram publicados na revista Guaiaó, n.12, em novembro de 2016. A capa: "Aqueles que nos inspiram."


O diretor teatral Renato Di Renzo entrou em processo de desintoxicação. O tratamento exige disciplina, consultas periódicas - cinco, seis vezes na semana - e dosagens cavalares de um medicamento que ele toma desde 1989. O uso contínuo tinha sido suspenso por 45 dias. Os sintomas não o surpreenderam, mas - pelo sim, pelo não - Di Renzo correu para as origens, para onde se sente seguro há 27 anos.

A cura pelo teatro político foi o caminho que ele encontrou para se "limpar" da política eleitoral. Ainda que toda a obra dele seja marcada pela reunião umbilical entre teatro e política, Renato - aos 62 anos - nunca havia vivido a experiência de uma campanha eleitoral, não na linha de frente.

Renato não se candidatou - mantém a promessa de que nunca o fará -, mas organizou e trabalhou na campanha de sua parceira de quase três décadas de trabalho, desde a Casa de Saúde Anchieta, em 1989. Cláudia Alonso experimentou o gosto amargo de uma corrida eleitoral pela primeira vez. Entre os 21 vereadores eleitos, ela terminou em 29º lugar, com 1713 votos. O resultado foi considerado muito bom, por ser primeira tentativa e por concorrer entre 381 pessoas, índice comparável à vestibular da USP.

O diretor teatral aprendeu e ensinou em 45 dias de campanha. Embora o prazo seja curto demais para vender o "produto", a política-partidária o permitiu entender que arte e política vivem misturadas. "Existe um elemento artístico na política, na cena, na troca com o eleitor."

Para ele, a campanha apresenta muitas semelhanças com a montagem de um espetáculo. Contudo, há um lado perverso, no qual prevalece a exibição dentro de temas da moda, o ato de oferecer desejos, em vez de necessidades. "As pessoas não querem ouvir ideias. Com ideias, a gente perde a eleição. Na política, vale o grito maior, a indecência maior."

Arte e política correm no sangue. O casamento começou no final da década de 80, quando Renato - pedagogo de formação - foi contratado para trabalhar na Casa de Saúde Anchieta, hoje um cortiço atrás do Hospital Beneficência Portuguesa, mas vivo na mentalidade histórica da cidade como um dos símbolos do horror humano nas instituições psiquiátricas brasileiras.

Em uma das salas do Anchieta, Renato começou um dos projetos mais duradouros da área de arte e educação. O TamTam sobreviveu não apenas ao descaso político e ao preconceito em 27 anos de vida, mas também à intervenção no hospital, no início da década de 90. O fechamento do Anchieta é um ícone na história da luta contra os manicômios no país.

Foi lá no hospital que Renato conheceu a então bailarina, recém-formada em Psicologia, Cláudia Alonso. Daqueles corredores de paredes descascadas e trânsito de pessoas com dores na alma, os dois montaram a ONG Projeto TamTam, que permanece na trincheira até hoje, com meses melhores e outros piores da perspectiva financeira. 



A ONG tem como sede o terceiro andar, lado oeste, no Teatro Municipal de Santos. O espaço abriga o Café Teatro Rolidei e é visto como "a casa de todas as gentes." Se o teatro tem a política como braço direito, o outro braço é a inclusão social. Todos os meses, Renato Di Renzo viaja pelo país para falar sobre o assunto. Em 2016, ele esteve, por exemplo, nas Paralimpíadas, no Rio de Janeiro. "O mundo hoje é inclusivo e espero que esteja por completo até 2025."

Além de um banheiro unissex, que abriga uma cadeira de barbeiro vermelha, daquelas tradicionais do século passado, a casa de Renato e toda a turma do TamTam possui um café e um palco com arquibancadas de madeira. Ali, as paredes são decoradas como bagunça organizada, que aponta a importância da diversidade cultural, como também a multiplicidade que pulsa dentro da condição do homem.

De flâmulas de times a fotos históricas, de bonecas quebradas a pedaços de tecido, de brinquedos a esculturas tradicionais, o ambiente é múltiplo em suas atividades. Do início na Casa de Saúde Anchieta e depois no programa de rádio que tornou o TamTam conhecido no Brasil, ficou a missão de reunir pessoas com todos os tipos de comportamentos, gente que escapa da utopia do padrão único, na estética e na Ética.

A leitura de mundo de Renato se materializa no uso cotidiano do Café Teatro Rolidei para a prática e o pensar artísticos. Encontros literários semanais, organizados por Regina Alonso e Maria Teresa Teixeira Pinto, aulas de dança, debates sobre arte, formação de atores, saraus e festas culturais.

Em 3 de outubro, um dia após a eleição, Renato Di Renzo retomou a criação teatral como o medicamento para curar surpresas e frustrações, além de cristalizar o aprendizado da campanha. Ele, Cláudia e seus atores e atrizes iniciaram os ensaios - que, de fato, é um processo coletivo - para montar a nova peça do TamTam.

Segundo o diretor, a indignação é o ponto de partida. O catalisador se traduz na residência, no tempo de permanência - todos juntos - no palco, nas mesas, no ambiente de ensaio. O espetáculo vai debater a ditadura da estética, por meio da boneca Barbie, o brinquedo mais vendido da história e paradigma de beleza no mundo globalizado.

Para isso, Renato partiu de referências que soam, em princípio, caóticas, como "Orlando", romance de Virginia Woolf; "Casa de Bonecas", peça de Henrik Ibsen; e "Tudo sobre minha mãe", filme de Pedro Almodóvar. Os primeiros laboratórios aconteceram no banheiro unissex da ONG. O banheiro, explica Renato, é o local máximo de solidão e intimidade.

O teatro como política, na visão do diretor e de seu grupo, é mais do que desintoxicação, é o tratamento que o mantém saudável. É o único remédio para dizer o que precisa ser dito. "O público está sempre lendo. Pode até ser 'Gostei pra caralho, mas não entendi nada'. Se é isso, o espetáculo já é alguma coisa."

terça-feira, 8 de agosto de 2017

Fixxa: a bruxa e a queimadura


Fotos: Marcos Piffer

Marcus Vinicius Batista

* Este é o terceiro de quatro perfis, que foram publicados na revista Guaiaó, n.12, com a capa: "Aqueles que nos inspiram".



Aline Benedito, a Fixxa, tomava uma cerveja em um bar, ao lado de uma grafiteira francesa, em Coloz, na Espanha, quando Arí apareceu. Minutos antes, a francesa afirmara que elas estavam sendo seguidas por uma mulher. Fixxa pensou em brincadeira da amiga.

Arí se apresentou às duas como bruxa e garantiu que a grafiteira brasileira havia sido uma delas em gerações anteriores. Embora Fixxa estudasse o assunto desde 2014, ela permaneceu em dúvida. Até que Arí foi taxativa: "você tem uma queimadura no corpo. E é de outras vidas."

Fixxa cedeu. Não só mudou de opinião como acompanhou Arí em um ritual específico. A bruxa recomendou que a grafiteira voltasse para um novo ritual, ainda nesta existência. Por enquanto, Fixxa mantém contato e tira dúvidas com a espanhola via Whatsapp.

Fixxa passou uma semana na Espanha, em 2016, para participar de um festival de arte urbana, como prêmio por vencer um concurso cultural, em São Vicente, numa parceria entre a Prefeitura e a Unibr.

A queimadura ocorreu nesta vida e é recente. Foi em 27 de março de 2015, Dia do Grafite. Fixxa colocou uma coxinha - destas de festa - no óleo fervente. A coxinha explodiu e provocou queimaduras de segundo grau na mão direita da artista. Foram cinco meses sem poder trabalhar. A cicatrização aconteceu em 30 dias. "Eu conversava com a queimadura, como forma de energia. Foi uma das coisas mais bonitas da minha vida". 



A queimadura levou Fixxa para uma jornada interior, que mudou o relacionamento consigo mesma, com a arte e com pessoas próximas, como os pais. "A queimadura me ensinou a perceber mais o outro e me reencontrar com todas as partes do meu corpo."

A bruxaria sempre teve relação direta com a arte dela. Fixxa desenha o que denomina, em termos conceituais, de meninas-bruxas. Elas representam "o monte de mulheres que tenho dentro de mim, boas e más." O trabalho dela de street art se apoia em linguagens como estêncil, stick (adesivo), cartaz lambe-lambe e grafite.

Os desenhos de figuras femininas, que integram a militância feminista da artista, se juntam a elementos da natureza e atraem as crianças. "Muitas vezes, elas me cercam na rua. Elas me protegem e falam o que eu não tinha percebido."

O estêncil foi o começo da relação com a arte urbana, quando tinha 21 anos, em 2001. Recém-casada com o artista Colante, ela saiu de Tambaú, no interior do Estado, para morar em Santos. Aqui, ficou fascinada como o estêncil produzido pelo marido e partiu para o estudo e produção artística. De início, junto com Colante, até que ele sugeriu - em 2006 - que seguissem caminhos próprios. "Você está preparada, ele me disse", explica Fixxa.

A primeira saída para as ruas aconteceu perto de casa. Fixxa usou estêncil num muro de uma casa abandonada, na rua Tocantins. Quando viu o trabalho pronto, chorou. Hoje, o estêncil serve para o desenho de detalhes, como uma flor, inclusive porque depende de uma parede lisa.

O traço fica a cargo das latas de spray. Ela teve que se adaptar à nova técnica. "Tive que mudar a respiração e o posicionamento de mãos e dedos. O excesso de força, por exemplo, faz a tinta escorrer na parede." O fundo do desenho, por sua vez, é produzido em látex.

A arte tem origem familiar. O pai, chamado de Réu, produzia vasos de cerâmica. A mãe, Dita, os pintava. Réu é um apelido que vem do tribunal. Quando adolescente, Réu se apaixonou por uma garota da cidade. Ele inventou que havia transado com a menina. O pai dela, enfurecido, conseguiu que fosse levado para uma audiência no fórum. Embora no banco dos réus, ele acabou absolvido.

O nome Fixxa nasceu de um sonho. Aline procurava um nome artístico. No sonho, ela era uma garota que voltava da escola rabiscando paredes. Rabiscava uma única palavra: Fixa. O marido sugeriu que a letra X fosse dobrada.

Fixxa se vê como sensitiva, como uma bruxa. "Sinto o que acontece muitas vezes. Tenho presságios que se manifestam por sonhos." Ela os escreve em um caderno, que permanece ao lado da cama. Os sonhos mais perturbadores, com mais símbolos, viram desenhos. "Sonhar é o jeito para me ouvir, para ver o mundo." O caderno é um sketchbook, que aprendeu a fazer com o cartunista DaCosta.

Antes de ir para a rua, Fixxa permanece em silêncio durante uma hora. É uma forma de se preparar para a turbulência, para as variadas energias que vem da rua. Depois, coloca um esparadrapo no umbigo, para evitar a entrada de energia do outro. Na volta, mais uma hora de silêncio no escuro, para renovação energética.

Aos 36 anos, Fixxa é várias mulheres numa só. O misticismo da bruxaria que se casa com o ativismo da feminista. Como padrinhos, a arte-educação e a arte urbana. "O grafite é a realidade de uma sociedade enquanto expressão. É o DNA de uma sociedade que pode ser feia e suja."

Em meados de outubro do ano passado, Fixxa conheceu outra "bruxa". Ela participou, por uma semana, de um encontro chamado Cores Femininas, em Pernambuco. Ela e outras grafiteiras foram trabalhar com crianças em Totó, bairro da periferia de Recife. O bairro fica entre um cemitério e um presídio.

Na visita ao presídio, Fixxa conheceu uma senhora que se dizia presa há 40 anos. No final da conversa, a senhora disse: "Todo dia é o mesmo dia." A grafiteira pediu para sair da sala e chorou.

Só uma bruxa reconhece outra. Só elas identificam quem sobreviveu à fogueira de uma Inquisição particular e interior, seja na Espanha ou no Recife.

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Da Costa: o último desenhista de humor

O cartunista Osvaldo DaCosta, em seu quarto-ateliê
(Fotos: Marcos Piffer)

Marcus Vinicius Batista

*** Este é o segundo perfil que escrevi para a Revista Guaiaó, n.12, com a capa: "Aqueles que nos inspiram". 

O cartunista Osvaldo DaCosta contou, certa vez, que Ziraldo o fascinava. Além dos desenhos e das histórias infantis, DaCosta ficara impressionado com a capacidade do colega mineiro de nunca parar de desenhar. Ziraldo rabiscava em folhas de papel até ao telefone. O chão do escritório estava inundado de ideias em forma de traços, que morreriam de incompletude artística.

DaCosta é como Ziraldo. Não está artista. É sempre cartunista, com o perdão da rima. Quando não desenha em papel, produz uma gravura. Quando não está envolto em aquarelas, carrega um sketchbook (caderno de desenhos, em tradução livre) para retratar algum canto de Santos ou de outros endereços, para onde viaja como professor ou para ganhar prêmios. Quando não esboça alguma imagem, fabrica os próprios cadernos ou ensina seus alunos.

Um dos mais premiados cartunistas brasileiros se esconde no quarto dos fundos de um apartamento térreo, na rua Bento de Abreu, no Boqueirão, em Santos. O quarto é local de estudos, dormitório, biblioteca, estúdio musical e ateliê. Ali, ele recebe pessoas e dá vazão à ansiedade cultural, à crítica do mundo cotidiano e da política.

Nas estantes, descansam biografias de astros do rock, como Eric Clapton e Jimi Hendrix, obras de História da Arte, História Cultural, romances, Estética e História em Quadrinhos, todas compatíveis com um sujeito quase sessentão que valoriza o estudo e a técnica para lapidar um talento. Talento que começou quando moleque e o levou à Faculdade Belas Artes de São Paulo, onde se formou na década de 80.

DaCosta saiu dos bancos universitários para a imprensa. Trabalhou nos principais jornais de São Paulo, como Folha de S.Paulo e Folha da Tarde (hoje Agora SP), além do Diário do Povo, de Campinas, e da Tribuna, de Santos. Ilustrou também capas para a revista Exame, da editora Abril, entre outras publicações.

No entanto, ele sofre do mal que acomete muitos artistas brasileiros: ser mais conhecido no exterior do que no próprio país. DaCosta foi premiado várias vezes na Europa. Só no PortoCartoon, em Portugal, duas vezes. Ganhou prêmios também no Irã e na Espanha. No Brasil, venceu várias vezes o mais antigo Salão de Humor, de Piracicaba, a ponto de se transformar em jurado.

Inquieto, DaCosta descansa dos pincéis e lápis com uma guitarra nas mãos. Ele é fanático por Jimi Hendrix que, para ele, é uma espécie de corintiano do rock, uma forma de casar duas paixões que convivem em um dos cantos do quarto-ateliê.

À esquerda, reprodução da capa do livro
"O berro da Ovelha Negra"

Insatisfeito consigo mesmo, o cartunista se transformou em escritor em 2015. Depois de defender a dissertação de mestrado em Comunicação na Universidade Municipal de São Caetano do Sul, ele a publicou como livro. "O berro da Ovelha Negra" (Ateliê de Palavras) conta a história do Ovelha Negra, o único jornal alternativo ao regime militar feito por cartunistas e ilustradores. O jornal, editado em São Paulo, sobreviveu por oito números e chegou a ter 70% das páginas com cartuns, charges e caricaturas.

DaCosta, fora da sala de aula, transfere o ateliê para as ruas, onde capta, quase sempre em aquarela, imagens mínimas, as entrelinhas da cidade. Ele e a namorada, a artista plástica Nat Cunha, organizam a cada dois meses o SketchCrawl, evento que ocorre simultaneamente em dezenas de cidades pelo mundo. A reunião é aberta para quaisquer pessoas interessadas em desenhar ao ar livre.

Os dois escolhem um endereço para que todos possam retratá-lo, sempre em um sábado à tarde. Os encontros já aconteceram na praça em frente ao Sesc, no Museu de Pesca, na praça das Bandeiras, entre outros lugares. Depois, os desenhos são postados em um site que reúne a produção de todo o planeta.

Para Ziraldo, a recíproca é verdadeira. Quando editava o Pasquim 21, uma ressurreição do jornal alternativo mais famoso do período militar, Ziraldo dedicou uma página para DaCosta. O título da matéria: O último desenhista de humor. Alguém se atreve à contestá-lo?

sábado, 5 de agosto de 2017

Preta Rara: múltiplas mulheres, uma voz

Joyce Fernandes - Preta Rara (fotos: Marcos Piffer)

Marcus Vinicius Batista

* Este é o primeiro de quatro perfis que escrevi para a revista Guaiaó, número 12, com a capa "Aqueles que nos inspiram".

A professora de História Joyce Fernandes, de 31 anos, só percebeu que a voz de Preta Rara ecoava acima de seu controle, em agosto do ano passado, em Salvador. Ela participava de um encontro de estudantes e o show dela só foi anunciado pela organização meia hora antes de entrar de palco.

Três mil pessoas assistiram à apresentação da rapper Preta Rara, nome artístico da professora desde 2011. Ela saiu do palco escoltada por seguranças. "As meninas queriam tocar em mim. Muitas choravam."

Assim como na capital da Bahia, Preta Rara se tornou uma voz importante no ativismo social. Na metade do ano, ela criou a página Eu#Empregada Doméstica, endereço que reúne relatos de empregadas de todo o país.

A página viralizou na Internet e levou Preta Rara ao centro da mídia. Participação em programas da Rede Globo, entrevistas para toda a imprensa nacional, além de veículos americanos e europeus. Da imprensa colombiana à polonesa. No início de novembro, ela falou para 1.200 pessoas na sala São Paulo, na capital paulista, no projeto TEDxBrasil, que reúne personalidades com projetos sociais.

A exposição assustou a rapper que, cinco anos atrás, sofria para cantar de graça em palcos da periferia, num gênero musical ainda dominado por homens. Muitos rappers viam aquela moça como "café com leite", que poderia ocupar uns minutos no final da apresentação. Cachê mesmo, só fora de Santos.

Joyce Fernandes sabe o que é preconceito, de várias formas. Mulher, negra, moradora de periferia, pobre, gorda, ex-empregada doméstica. Ela faz questão de se vestir como uma mulher de raízes africanas, roupas coloridas que chamam a atenção, da admiração à intolerância. Certa vez, ela estava numa esquina, em São Vicente, quando um carro passou, a passageira colocou a cabeça para fora e gritou: "Sai, macumbeira!" 



A rapper é a voz da coragem de quem enfrenta a opressão. A professora de História é o sussurro de quem tem medo. Joyce trabalhou como empregada doméstica por sete anos, seguindo o ofício da mãe e da avó. Hoje, Joyce se apavora com a ideia de que a Preta Rara perca espaço e não consiga pagar as contas do mês. "O serviço não pode ser hereditário. Tenho medo de ser empregada doméstica de novo."

Ela fez parte do curso de História, na Universidade Católica de Santos (Unisantos), trabalhando como empregada. A última patroa, de quem se desvinculou em 2010, a permitia estudar e emprestava livros. A mudança aconteceu quando conseguiu estágio como monitora no Engenho dos Erasmos, que fica no Jabaquara, em Santos, e é mantido pela USP. "Depois, ainda vivi preconceito de gente que, ao ver meu currículo e olhar para mim, duvidava que me formei em História e estagiei no Engenho."

Por isso, Joyce seguiu como professora no Colégio Exemplo, escola privada no bairro do Humaitá, na Área Continental de São Vicente. Ela trabalhou lá por quatro anos. Muitas vezes, alunos a convidam para ir até a porta da escola para provar que a professora deles é a Preta Rara. É o jeito de dizer que sentem orgulho dela.

A exposição a colocou em dúvida sobre seu papel. Os questionamentos a levaram para o divã há um ano e meio. A terapia, além de evitar que adoecesse, foi o caminho para compreender mudanças tão rápidas e tamanha visibilidade. "Não sou guru. Cometo falhas. Erro como qualquer pessoa."

Na última eleição, ela foi convidada para se candidatar à vereadora por quatro partidos. Pessoas perguntaram em quem votaria para repetir o voto dela. Joyce recebe muitas denúncias, como exploração do trabalho, assédio moral e estupro. Por outro lado, Preta Rara recebeu até consultas sobre qual cor de cabelo usar.

Para ela, o público não compreende que existe a Joyce por trás da Preta. São fantasias em torno de uma mulher forte, infalível, guerreira. É uma luta para resistir ao padrão. "Há patrulha. Tenho que ser sempre séria."

A rapper e ativista se apoiou na experiência como professora para aumentar o trabalho com crianças. Nasceu a Oficina de Rimas. "As crianças se identificam. Minha imagem também está ligada a eles."

Eu#Empregada Doméstica transformou Joyce Fernandes, Preta Rara, na porta-voz de 6 milhões de mulheres, sendo 80% negras.

A agenda de shows e palestras já virou o ano. Preta Rara lamenta não ter mais tempo para compor. É o preço de uma voz que ecoa.

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

DNA inglês, modelo brasileño

O escritor John Mills, ao lado do busto de Charles Miller
Fotos: Marcos Piffer

Marcus Vinicius Batista


Quando chegou ao trabalho, John Mills viu repousar em sua mesa um calendário da Pirelli, famoso pelas 12 mulheres bonitas que enfeitavam e seduziam os homens a cada mês do ano. Naquele ano de 1969, no entanto, o calendário trazia a história do futebol, por causa da Copa do Mundo no México, no ano seguinte.

Entre os jogadores-modelos, um sujeito de bigode comprido, chamado Charles Miller. Para nós, brasileiros, o pai do futebol por estas terras. Para John, o começo de um relacionamento com o personagem que o acompanha por 45 anos.

O fascínio por Miller o levou a escrever a principal biografia sobre o homem que trouxe o futebol ao Brasil. As pesquisas renderam um primeiro livro chamado "Charles William Miller - 1894/1994", que contava a história dele, mas mesclada com a trajetória do São Paulo Athletic Club (SPAC), que reúne a colônia inglesa na capital paulista.

Após o primeiro livro, publicado em 1996, John Mills resolveu se aprofundar nas pesquisas até concluir "Charles Miller: o pai do futebol brasileiro", editado pela Panda Books e hoje esgotado.

John chegou ao Brasil em 1967, aos 29 anos. Veio com um contrato de quatro anos de trabalho. O país era atraente para estrangeiros por conta do chamado milagre econômico. Politicamente, a ditadura se preparava para os anos de chumbo, entre 1968 e 1974, com medidas que incluiriam o Ato Institucional nº 5, com suspensão de todos os direitos civis.

John nunca mais saiu do Brasil, a não ser em férias. Chegou solteiro, conheceu Mônica numa festa do SPAC, casou-se com ela em 1972 e teve três filhos: Lawrence, Robert e Charles. Hoje, são sete netos, cinco meninas e dois meninos.

John Mills é um sujeito predestinado a lutar contra o acaso. A história dele tem tantas coincidências que beiram o inesperado. Ou seria um daqueles apaixonados por futebol, que conectam os acontecimentos da vida às metáforas do esporte?

A conversa com John Mills aconteceu na ante-sala da biblioteca do SPAC, um ambiente com paredes de madeira e móveis de estilo clássico. A 10 metros dali, fica a sala de troféus, inclusive com fotos das primeiras equipes, no início do século 20, de rugby, críquete - hoje não mais praticado no clube - e futebol. O bigode de Charles Miller permite a rápida identificação dele nas imagens do time. O xodó é o troféu de tricampeão paulista, de 1902 a 1904.

Na entrevista abaixo, John Mills, que fala um português corretíssimo, mas com sotaque britânico, sempre volta na palavra coincidência, seja para falar da presença inglesa no Brasil, do futebol e das relações entre ele, o esporte e Charles Miller.

Como preliminar, duas das coincidências, pois outras surgirão ao longo da entrevista: 1) Charles Miller, quando morava na Inglaterra, enfrentou duas vezes o então temido Corinthian Casuals (sem s). John Mills é membro honorário do clube inglês; 2) No Brasil, foi Miller quem sugeriu o nome do alfaiate Miguel Bataglia como primeiro presidente do Corinthians, time de coração de John Mills.

Guaiaó: O senhor, biógrafo de Charles Miller, concorda com a tese de que ele e o futebol estão dentro de um processo maior de influência inglesa no Brasil?

John Mills: Sim, sim, sim. Todo esse caminho começou com a Revolução Industrial e Dom João VI, que chegou em 1808. Ele abriu os portos para os ingleses em troca do transporte da corte para o Brasil. Tinha que ter trade, tinha que ter comércio. Os ingleses não eram comerciantes. Comerciante é dono de loja. Os ingleses já eram negociantes, trades, com suas colônias. Era um país marítimo. Os ingleses queriam café, açúcar, milho, tudo o que a terra dava. Foi o caminho natural. Vieram, então, os bancos, os comerciantes, os corretores de café, em Santos.

Guaiaó: E os ingleses dominavam a tecnologia de transportes?

John Mills:
Precisava trazer a matéria-prima do interior do Brasil. E os ingleses já tinham experiência em ferrovias, no século 18, e depois nos Estados Unidos. Fizeram a ferrovia D.Leopoldina, no Rio de Janeiro, que D.Pedro II inaugurou e depois veio a de São Paulo, construída pelo Visconde de Mauá. Aí começaram a chegar os ingleses para trabalhar na ferrovia, e o pai de Charles Miller era um dos funcionários. E depois vem o casamento com Carlota Alexandrina Fox, ligada à família Rudge Ramos.

Guaiaó: Como era essa relação com a família Rudge Ramos?

John Mills:
O lado materno da família era Fox-Rudge. Os avós maternos eram Henry Fox e Harriett Mathilda Rudge Fox. Charles nasceu na chácara dos avós maternos.

Guaiaó: A influência inglesa se estende à energia elétrica.

John Mills:
Isso mesmo, a luz. A Light vem pelo Canadá, mas é também britânica. A companhia de gás, que veio fazer a iluminação de São Paulo. Tanto que o primeiro jogo, de 1895, organizado por Miller, envolveu a São Paulo Railway e a companhia de gás.

Guaiaó: A influência inglesa também se estendeu, claro, aos esportes. Surgiram muitos clubes. Qual é o contexto para o nascimento do São Paulo Athletic Club e, dez anos depois, do Santos Athletic Club (Clube dos Ingleses)?

John Mills:
Todos os ingleses que viajavam pelo mundo precisavam fazer seus esportes. Na escola, na Inglaterra, o esporte está no currículo. É obrigatório. A maioria das escolas tinha o rugby, o críquete ou futebol como esporte prioritário. Os ingleses, quando viajavam, levavam seus equipamentos de esportes. A criação de clubes foi natural. Aqui, antes da sede, o pessoal jogava críquete lá no Bom Retiro, perto da Estação da Luz, e numa chácara do tio do Miller, também no Bom Retiro, entre 1894 e 1899. Depois, com a sede, tínhamos campo de futebol, críquete e rugby. O primeiro jogo do primeiro campeonato paulista de futebol foi aqui, na sede.

John Mills, na sede do São Paulo Athletic Club,
primeiro campeão paulista de futebol

Guaiaó: No caso do Clube dos Ingleses, era o pessoal do café.

John Mills:
Sim. Depois, eu soube que Charles tinha três irmãos. Dois deles, Andrew e Willian, ficaram em Santos. Willian, inclusive, casou-se com uma descendente dos Andradas e Silva. Andrew foi um dos fundadores do clube. Um dos tios, Henry, também morava em Santos e foi sócio do Clube dos Ingleses. A primeira vez que estive lá foi em 1968. Todo sábado, tinha festa das nove da noite às três da manhã. Íamos e voltávamos de Fusca. Lembro-me dos jantares e das festas.

Guaiaó: Quais são os legados ingleses, em São Paulo e em Santos?

John Mills:
Hoje está meio perdido no tempo e no espaço. Mas sempre foram os compromissos, a disciplina, as tradições. Isso manteve os clubes até hoje. Mas como tudo na vida muda ... Antigamente, quando cheguei, 60% dos sócios do SPAC eram britânicos. Agora, não há mais novos sócios britânicos. Antes, tinham funcionários da GM americana, bancos e outras empresas inglesas. Tinha muito intercâmbio de representações comerciais. E os ingleses sempre vem pensando em jogar algum esporte. Hoje, ainda é um oásis para nós. Não há dinheiro que pague um domingo à tarde no clube.

Guaiaó: Fora esse legado comportamental, onde está a presença inglesa hoje, no espaço urbano?

John Mills:
Está na Estação da Luz (risos). Ainda temos o espaço do clube. Lota nos finais de semana. Há a escola inglesa, no Jardim Paulistano. Não há grande presença inglesa. O chá da cinco, no clube, pouco a pouco está morrendo. Até os pratos ingleses estão sumindo dos cardápios. Sobraram os pubs. A tradição britânica está se perdendo. É a vida. Em Santos, há o comércio do café e a empresa Metalock, que faz reparos em navios.

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John Mills mantém a pontualidade britânica em todos os compromissos. Veste-se como um lorde, mesmo que seja a casualidade de uma camiseta pólo e uma calça. Mas sua vida é marcada por três culturas diferentes. A família é origem londrina, mas o pai residiu na Espanha e no Peru. John nasceu em Vigo, no período da ditadura de Francisco Franco, que governou a Espanha de 1936 a 1975, quando faleceu.

A mãe, Dolores, era basca e de posição política contrária ao fascismo de Franco. A família fugiu de uma ditadura, e John acabou em outra, a brasileira, em 1967.

Guaiaó: Como nasceu essa relação de uma família inglesa com a Espanha?
John Mills: Meu avô paterno, Alfred Mills, saiu da Inglaterra para trabalhar com telégrafos em Bilbao, no país basco, no norte da Espanha. Havia estações de telégrafos em diversos lugares, Hong Kong, Santos, Buenos Aires, Valência, normalmente perto do mar, por causa dos cabos submarinos. Foi em 1896 para ficar a vida toda. Ele deve ter jogado futebol na Inglaterra porque, quando chegou em Bilbao, levou a semente e começou a jogar bola. Decidiram fundar um clube, o Atlético de Bilbao. Ele foi sócio e diretor. Meu pai, John, nasceu em Bilbao e também foi trabalhar em telégrafo. Meu pai era Juanito, para os amigos. Eu nunca fui Johnny. Sempre John.

Guaiaó: O que aconteceu? Como você foi viver no Peru, durante a Segunda Guerra Mundial?
John Mills: Em 1937, Franco invadiu o país basco. Não havia exército no país basco. Minha mãe Dolores era basca 3 mil por cento. Ela era anti-Franco e tudo mais. Não conseguiram parar Franco. Meu pai tinha passaporte inglês, os ingleses tiveram que deixar o escritório em Bilbao, e todos nós saímos num navio inglês para irmos à França. De lá, meu pai foi mandado de volta para Vigo, que era o único lugar onde o governo espanhol permitia o cabo submarino, para manter a comunicação com o mundo. Eu nasci em Vigo por acidente, em 1938. Dois anos depois, voltamos para Londres. Por causa dos bombardeios, em 1941, meu pai foi mandado para a Escócia, para pegar um navio para o Peru. Saímos em outubro de 1941 e chegamos no Peru em maio de 1942. 

John Mills, um homem de muitas bandeiras e culturas

Guaiaó: Sete meses?

John Mills:
Saímos de comboio, de Glasgow à Nova Iorque. O comboio também tinha petroleiros, que foram atacados pelos alemães. Tivemos que voltar e sair outra vez. Quando chegamos em Nova Iorque, pegamos outro navio para o Chile e aí chegamos no Peru. Estudei na escola britânica, em Lima, e depois me pai me mandou para o internato, em 1952.

Guaiaó: Como o senhor veio parar no Brasil?

John Mills:
Meu primeiro emprego foi na Goodyear. Depois, passei para a Atlantis, uma multinacional com filiais na América Latina. Estudei Administração em Lima. Mas não trabalhava em marketing ainda. Eu era vice-gerente de uma fábrica de produtos de limpeza, como o Poliflor. Aí, me ofereceram um estágio de quatro anos no Brasil porque o mercado era maior, mas similar.

Guaiaó: Como o senhor se sentiu quando chegou ao Brasil?

John Mills:
Não tive medo. Não conhecia ninguém. Como viajava desde os quatro anos de idade e meu pai já tinha falecido, vim sozinho. Minha mãe e minha irmã ficaram lá. Vim para ficar quatro anos, mas pensando em voltar. Só que, em 1969, eu já estava ambientado. Frequentava o SPAC, já jogava futebol, tinha amigos aqui, quando o presidente da empresa perguntou se eu queria ficar no Brasil. Como eu falava espanhol, foi fácil aprender o português. Era minha língua mater. E eu tinha estudado latim e francês na escola.

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Aos 77 anos, John Mills está aposentado das peladas de final de semana. Parou em 2002. Lateral direito modesto, ele se orgulha de ter atuado ao lado de Didi, ex-meia do Botafogo e bi-campeão mundial pelo Brasil, em 1958 e 1962. "Era só dar a bola para ele e não atrapalhar."

A paixão pelo futebol se desenvolveu quando viveu num internato no Peru. "Depois da guerra, voltei à Inglaterra. Em 1952, voltei ao Peru para estudar, num internato. Fiquei até 1956, quando meus pais foram me buscar porque tiravam férias a cada quatro anos."

Ele torce para três clubes: o Arsenal, pelas origens londrinas; o Atlético de Bilbao, por razões familiares; e o Corinthians, por adoção quando chegou ao Brasil. "Temos que ter um time em cada país." Quando conversamos, Mills estava animado com a última vitória do Bilbao, por 3 a 1. O Atlético, que só aceita jogadores bascos ou descendentes de pais que nasceram na região, é - ao lado de Real Madrid e Barcelona - um dos três clubes que nunca caíram para a segunda divisão do Campeonato Espanhol. O clube possui oito títulos nacionais, o último em 1984.

Guaiaó: Onde nasceu sua paixão pelo futebol?

John Mills:
Nasceu na Inglaterra. No Peru, no começo, eu até assistia aos jogos, torcia para o Deportivo Municipal (clube quatro vezes campeão peruano, a última em 1950), como se fosse a Portuguesa daqui. Meu pai sempre me falava do Atlético de Bilbao, que foi supercampeão na década de 30 (metade dos títulos nacionais foram conquistados neste período). Mas na Inglaterra, o futebol só acontecia na escola, entre o Natal e a Páscoa. O resto do ano eram rugby e cricket. Nunca joguei rugby realmente, gosto apenas de assistir. Não gosto das regras atuais, agora tem muitos choques. Quando eu fiquei em internato no Peru, só assisti a um jogo da Inglaterra. Gostava de um lateral-esquerdo galês, que jogava no Chelsea.

Guaiaó: Isso tem a ver com o fato de que o senhor jogava de lateral-direito?

John Mills:
Isso foi outra coincidência. Só que eu chutava com o pé direito. No Peru, eu jogava no Lima Club. Em 1964, o Didi tinha saído do Botafogo para treinar o Sporting Cristal (clube fundado em 1956, foi campeão peruano no mesmo ano. Possui 17 títulos, o último em 2014). Ele estava proibido pela Fifa de jogar futebol no Peru porque tinha contrato com o Botafogo. Ele tinha 36 anos. Então, foi para treinar. Numa semana, o capitão do nosso time disse que vinha um pessoal para jogar. E eu já tinha visto o Brasil na Copa do Mundo, no Chile, em 1962. Vi todos os jogos. E eu também tinha visto o Botafogo e o Santos de Pelé, que excursionavam no Peru todos os anos. Vinha também o River Plate, da Argentina. Esses times eram um colírio para os olhos.

Guaiaó: E como foi jogar com o Didi?

John Mills:
Eu era lateral e ele era meia. Era só tocar a bola para ele. Não tinha o que fazer. Ele era tranquilo, sossegado. Uma maravilha. Foi só uma vez na vida.

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John Mills se tornou conhecido além dos muros da comunidade inglesa como o biógrafo de Charles Miller. São 45 anos de relacionamento com o pai do futebol no Brasil. John, inclusive, rechaça as demais teorias sobre o começo do esporte no país, seja pelos padres jesuítas no século 19, seja por Thomas Donahue, em Bangu, no Rio de Janeiro.

Nascido no bairro do Brás, Charles Miller retornou à São Paulo, em novembro de 1894, aos 20 anos, depois de dez anos de estudos no Banister Court School, em Southampton, na Inglaterra. Lá, ele era considerado uma grande promessa do futebol. Marcou 45 gols em 34 partidas. Ao chegar no Brasil, Charles desceu no Porto de Santos e tomou o trem que subiria a Serra do Mar, na ferrovia que o pai dele, o perito industrial escocês John Miller, ajudou a construir.

São Paulo fervilhava com a imigração europeia. Era uma cidade de 300 mil habitantes em rápido crescimento. A cidade passava a conhecer uma série de esportes, de pelota basca ao ciclismo, cada vez mais difundidos numa imprensa esportiva que também se desenvolvia. A capital começava a ver o nascimento de diversos clubes, muitos deles ligados às colônias de imigrantes.

Quando voltou ao Brasil, Charles Miller trouxe uma bola e um livro de regras. O primeiro jogo aconteceu em 14 de abril de 1895, na Várzea do Carmo, e reuniu amigos de Charles, todos funcionários da São Paulo Railway e praticantes de críquete, contra The Gas Work Team. O jogo terminou 4 a 2, com dois gols de Charles. Nesse tempo, ele trabalhava na empresa ferroviária, seguindo o caminho do pai. 

Taça do tricampeonato paulista
(1902-1904)
Miller foi tricampeão paulista pelo SPAC. Foi artilheiro do primeiro campeonato, em 1902, com 10 gols. Em 1904, também foi artilheiro, ao marcar nove vezes. Nos anos seguintes, ele se revezou nas posições de atacante e goleiro, além de ser árbitro em diversas partidas. O último jogo aconteceu em 1910, pelo Campeonato Paulista. No mesmo ano, porém, enfrentou o Corinthian Casuals, com derrota por 8 a 2. Miller marcou os dois gols e pendurou as chuteiras aos 36 anos.

Depois, chegou à presidência do SPAC e atuou como dirigente em várias modalidades esportivas, como rugby e tênis. Ele morreu em São Paulo, aos 79 anos, em 1953.

Guaiaó: Como o senhor "conheceu" Charles Miller?

John Mills:
O calendário da Pirelli caiu na minha mesa. Eram sempre mulheres bonitas, mas - em 1969 - ficou mais intelectual. Era sobre a história do futebol brasileiro, por causa da Copa de 70. Quando abri o calendário, vi aquele homem de bigode e eu não sabia quem era. Depois, li São Paulo Athletic Club. Pô, esse é meu clube. Nunca mais parei. Em 1973, conheci Helena, a filha dele. Ele sempre era o pai do futebol brasileiro, mas não se tinha mais nada sobre ele. E só. Se você perguntar para um garoto quem é Charles Miller, ah, é uma praça (local onde fica o Estádio do Pacaembu, "casa" do Corinthians antes da construção do Itaquerão. Outra coincidência?). Só os antigos que sabiam.

Guaiaó: E depois?

John Mills:
Comecei a coletar, coletar material. Em 1975, eu já era capitão do time de futebol e comecei a pesquisar nosso histórico contra o Niterói, antigo adversário. Pesquisei na Federação Paulista de Futebol. Li um livro sobre o primeiro campeonato paulista. Aí, eu fiz um livrinho que se chamou "Aconteceu em 1894". E comecei a guardar tudo que saía sobre o Miller. Sabia que, em 1994, faria 100 anos da chegada dele ao Brasil. A questão é que, em 1990, eu escrevi para o Southampton pedindo informações. Só recebi uma folha de sulfite com todos os jogos dele pela escola e pela seleção de Hampshire, equivalente à seleção paulista. E um jogo pelo Corinthians inglês, foi um acidente porque faltava um jogador. Em 1994, fui visitar minha mãe por 15 dias nos Estados Unidos, e assisti a um jogo da Copa do Mundo. Espanha e Suíça. Quinze dias depois da Copa, recebi uma carta de um jornalista inglês, chamado David, dizendo que havia cometido um pecado jornalístico. Como presente, me enviou uma carta de Charles Miller, escrita em 1904, sobre como havia encontrado São Paulo na volta ao Brasil. Todos os documentos sobre Miller na Banister Court School estavam na biblioteca de Southampton desde 1977, quando a escola fechou. Lá, tinha todo o histórico dele na escola, inclusive todos os jogos. Ele me mandou tudo.

Guaiaó: E as teorias de que o futebol chegou antes de Charles Miller?
John Mills: O que eu digo é ninguém inventou a bola. Os chineses chutavam crânios como bolas três mil anos atrás. Na Inglaterra, começaram a organizar a bagunça, com regras a partir de 1863. Donahue organizou uma pelada com seis jogadores de cada lado numa fábrica em Bangu. Foi só uma vez. E o Bangu foi fundado em 1904. Os padres batiam bola nas escolas, contra a parede. Não confundam alhos com bugalhos. Miller institucionalizou o futebol. Ninguém falou que não tinha bola antes. Ele trouxe o livro com as 17 regras originais.

Obs.: Texto publicado, originalmente, na revista Guaiaó, n. 10.