quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Di Renzo: o animal político

Fotos: Marcos Piffer
Marcus Vinicius Batista

* Este é o quarto (e último) dos perfis que foram publicados na revista Guaiaó, n.12, em novembro de 2016. A capa: "Aqueles que nos inspiram."


O diretor teatral Renato Di Renzo entrou em processo de desintoxicação. O tratamento exige disciplina, consultas periódicas - cinco, seis vezes na semana - e dosagens cavalares de um medicamento que ele toma desde 1989. O uso contínuo tinha sido suspenso por 45 dias. Os sintomas não o surpreenderam, mas - pelo sim, pelo não - Di Renzo correu para as origens, para onde se sente seguro há 27 anos.

A cura pelo teatro político foi o caminho que ele encontrou para se "limpar" da política eleitoral. Ainda que toda a obra dele seja marcada pela reunião umbilical entre teatro e política, Renato - aos 62 anos - nunca havia vivido a experiência de uma campanha eleitoral, não na linha de frente.

Renato não se candidatou - mantém a promessa de que nunca o fará -, mas organizou e trabalhou na campanha de sua parceira de quase três décadas de trabalho, desde a Casa de Saúde Anchieta, em 1989. Cláudia Alonso experimentou o gosto amargo de uma corrida eleitoral pela primeira vez. Entre os 21 vereadores eleitos, ela terminou em 29º lugar, com 1713 votos. O resultado foi considerado muito bom, por ser primeira tentativa e por concorrer entre 381 pessoas, índice comparável à vestibular da USP.

O diretor teatral aprendeu e ensinou em 45 dias de campanha. Embora o prazo seja curto demais para vender o "produto", a política-partidária o permitiu entender que arte e política vivem misturadas. "Existe um elemento artístico na política, na cena, na troca com o eleitor."

Para ele, a campanha apresenta muitas semelhanças com a montagem de um espetáculo. Contudo, há um lado perverso, no qual prevalece a exibição dentro de temas da moda, o ato de oferecer desejos, em vez de necessidades. "As pessoas não querem ouvir ideias. Com ideias, a gente perde a eleição. Na política, vale o grito maior, a indecência maior."

Arte e política correm no sangue. O casamento começou no final da década de 80, quando Renato - pedagogo de formação - foi contratado para trabalhar na Casa de Saúde Anchieta, hoje um cortiço atrás do Hospital Beneficência Portuguesa, mas vivo na mentalidade histórica da cidade como um dos símbolos do horror humano nas instituições psiquiátricas brasileiras.

Em uma das salas do Anchieta, Renato começou um dos projetos mais duradouros da área de arte e educação. O TamTam sobreviveu não apenas ao descaso político e ao preconceito em 27 anos de vida, mas também à intervenção no hospital, no início da década de 90. O fechamento do Anchieta é um ícone na história da luta contra os manicômios no país.

Foi lá no hospital que Renato conheceu a então bailarina, recém-formada em Psicologia, Cláudia Alonso. Daqueles corredores de paredes descascadas e trânsito de pessoas com dores na alma, os dois montaram a ONG Projeto TamTam, que permanece na trincheira até hoje, com meses melhores e outros piores da perspectiva financeira. 



A ONG tem como sede o terceiro andar, lado oeste, no Teatro Municipal de Santos. O espaço abriga o Café Teatro Rolidei e é visto como "a casa de todas as gentes." Se o teatro tem a política como braço direito, o outro braço é a inclusão social. Todos os meses, Renato Di Renzo viaja pelo país para falar sobre o assunto. Em 2016, ele esteve, por exemplo, nas Paralimpíadas, no Rio de Janeiro. "O mundo hoje é inclusivo e espero que esteja por completo até 2025."

Além de um banheiro unissex, que abriga uma cadeira de barbeiro vermelha, daquelas tradicionais do século passado, a casa de Renato e toda a turma do TamTam possui um café e um palco com arquibancadas de madeira. Ali, as paredes são decoradas como bagunça organizada, que aponta a importância da diversidade cultural, como também a multiplicidade que pulsa dentro da condição do homem.

De flâmulas de times a fotos históricas, de bonecas quebradas a pedaços de tecido, de brinquedos a esculturas tradicionais, o ambiente é múltiplo em suas atividades. Do início na Casa de Saúde Anchieta e depois no programa de rádio que tornou o TamTam conhecido no Brasil, ficou a missão de reunir pessoas com todos os tipos de comportamentos, gente que escapa da utopia do padrão único, na estética e na Ética.

A leitura de mundo de Renato se materializa no uso cotidiano do Café Teatro Rolidei para a prática e o pensar artísticos. Encontros literários semanais, organizados por Regina Alonso e Maria Teresa Teixeira Pinto, aulas de dança, debates sobre arte, formação de atores, saraus e festas culturais.

Em 3 de outubro, um dia após a eleição, Renato Di Renzo retomou a criação teatral como o medicamento para curar surpresas e frustrações, além de cristalizar o aprendizado da campanha. Ele, Cláudia e seus atores e atrizes iniciaram os ensaios - que, de fato, é um processo coletivo - para montar a nova peça do TamTam.

Segundo o diretor, a indignação é o ponto de partida. O catalisador se traduz na residência, no tempo de permanência - todos juntos - no palco, nas mesas, no ambiente de ensaio. O espetáculo vai debater a ditadura da estética, por meio da boneca Barbie, o brinquedo mais vendido da história e paradigma de beleza no mundo globalizado.

Para isso, Renato partiu de referências que soam, em princípio, caóticas, como "Orlando", romance de Virginia Woolf; "Casa de Bonecas", peça de Henrik Ibsen; e "Tudo sobre minha mãe", filme de Pedro Almodóvar. Os primeiros laboratórios aconteceram no banheiro unissex da ONG. O banheiro, explica Renato, é o local máximo de solidão e intimidade.

O teatro como política, na visão do diretor e de seu grupo, é mais do que desintoxicação, é o tratamento que o mantém saudável. É o único remédio para dizer o que precisa ser dito. "O público está sempre lendo. Pode até ser 'Gostei pra caralho, mas não entendi nada'. Se é isso, o espetáculo já é alguma coisa."

Um comentário:

  1. A arte quando for percebida socialmente como via de empoderamento do sujeito permitirá a mudança e a transformação social de cada um e de todos nós. Parabéns família TamTam, Renato e sua pedagogia DiRenziana, parabéns Cláudia! Vida longa e sucesso!

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