sexta-feira, 6 de junho de 2014

A estação-símbolo


A quem pertence a Estação da Cidadania?
A Estação da Cidadania, encravada na esquina das avenidas Ana Costa e Francisco Glicério, é um símbolo de Santos. Como qualquer endereço histórico, a Estação testemunhou as escolhas feitas pela cidade e assistirá como o município pretende se comportar nos próximos anos.

A antiga Estação da Sorocabana foi um ícone da minha infância. Madruguei no sábado para embarcar no trem que partia às 7 horas em ponto rumo ao Litoral Sul e Vale do Ribeira. Era o início de uma viagem de cinco horas até Juquiá, com dezenas de paradas, muitas delas aos pés da Mata Atlântica.

Com o sucateamento do sistema ferroviário e a opção cristalizada por rodovias e milhares de caminhões, a Estação se reinventou e se tornou um exemplo de cidadania e de combate político, com senso crítico e pluralidade de opiniões. Estive lá inúmeras vezes, de espectador em lançamento de livro sobre o Porto de Santos a palestrante em debate sobre racismo.

O Fórum da Cidadania é morador ilustre da Estação há 12 anos. Mas pode ser despejado, vítima da retórica política. Na semana de aniversário, Pão de Açúcar – responsável pelo espaço -, Polícia Militar e Prefeitura de Santos começaram a empurrar um para o outro a responsabilidade sobre o futuro do Fórum e a nova função da Estação.

Na prática, o Fórum recebeu a notícia de que não poderia mais permanecer lá, assim como a Orquestra Pão de Açúcar, um exemplo de união entre cultura e formação de jovens. A Estação passaria a ser um cobertor de pobre, numa ciranda de ausência de tato político. A Estação passaria a abrigar um posto da PM, que seria desalojada do imóvel na avenida Francisco Glicério, no Campo Grande. O imóvel será demolido por causa das obras – símbolo de falta de planejamento – do VLT. 

O prédio atual foi construído em 1936
A saída do Fórum da Cidadania reforça o caminho que a cidade escolheu nos últimos anos. Santos carrega feridas psicossomáticas de uma cidade que sempre espera um futuro glamouroso. Do turismo de negócios ao maior porto da América Latina. Dos espigões-ostentação aos projetos mirabolantes, o município e seus gestores creem que as demandas sociais somem como mágica. O ilusionismo está gravado nos índices educacionais medianos, nos pronto-socorros lotados e carentes de médicos mal pagos, nos mil moradores de rua que viraram estatísticas.

Despejar o Fórum da Cidadania talvez engrosse a lista de sinais da cidade do futuro. Santos se vende como um lugar pronto para a farra da Copa do Mundo, com museus inacabados e estimativas especulativas de turistas, enquanto vira as costas para um espaço – ainda que tímido – que deveria se espalhar, e não encolher, como centro nervoso de reflexão sobre a vida urbana cada vez mais apertada e cara.

Na última semana, representantes de vários setores da sociedade civil protestaram contra o despejo do Fórum da Cidadania. Gritos e abraços pouco mudam, mas simbolizam a raiva e a frustração de um jogo que não pode parecer perdido, mesmo que os adversários sejam os donos da bola.

Ao contrário de teleféricos e túneis virtuais, a Estação da Cidadania – que um dia simbolizou o sistema de transporte público – é a testemunha real das escolhas que os políticos fazem. Mesmo que o Fórum da Cidadania engrosse a fileira dos sem-teto, a Estação é mais do que um ponto de embarque para o Samaritá, Itanhaém ou Juquiá, mais do que um posto de segurança patrimonial do Estado.

A Estação – Sorocabana ou da Cidadania – está cicatrizada em nós, como um termômetro da cidade que desejamos ser.

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