segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Onde vivem os monstros


O monstro carbonizado (Foto: Carlos Abelha/G1-Santos)
Marcus Vinicius Batista

Acuado, o monstro nada pôde fazer contra o fogo. Ele estava preso ao chão que escolheu viver, pela mente acovardada dos homens, desde o século 16. O Ipupiara, endeusado em monumento, queimou onde se consolidou como lenda. A figura mitológica que apavorava os viajantes ficou inofensiva diante dos monstros deste século.

O Ipupiara é uma fotografia em fibra de vidro e histórias. É a alegoria de tempos em que os homens pilhavam, matavam, violentavam enquanto temiam a terra desconhecida, enquanto construíam seu próprio medo diante do que não poderiam controlar. Eles continuam assim, porém seus medos são de outra natureza, registráveis em fotos, localizáveis pelo teclado.

Hoje, o Ipupiara é o retrato do medo de nós mesmos. O pavor da violência gratuita, sem motivo consistente, apenas sustentada pelo prazer perverso de demolir aquilo que não conheço como símbolo, que não reconheço como parte de mim, que entendo somente como obstáculo ou como descarga de ódio inconsequente.

Por mais que as sucessivas administrações locais insistam em fingir interesse no passado, o Ipupiara materializa um dos poucos instantes em que se torna possível conversar com a São Vicente de outro dia. Compreender, pelas escamas do monstro, por que homens resolveram aportar aqui e reconstruir a vida, quais seus desejos, seus temores, os estragos que fizeram, a cultura que assimilaram e a cultura que modificaram. O Ipupiara, esquecido no cotidiano da praça 22 de janeiro, teima em nos dizer quem somos nas entranhas e, infelizmente, ainda nos indica o quanto bebemos na nossa maldade.

O Ipupiara vinha sendo torturado em silêncio. Primeiro, levaram suas mãos. Na quarta-feira de madrugada, as chamas o consumiram até a carcaça. O incêndio incinerou também parte do legado do escultor Daniel Gonzalez, um filósofo de olhar único, um artista criativo e múltiplo.

São Vicente é o sarcasmo e o espelho de como quem tem o poder se comporta para preservar a cultura. A primeira vila do Brasil – esqueça a papagaiada de primeira cidade, que é Salvador – fala de si mesma como pioneira, mas é anacrônica na conservação da própria imagem. O Porto da Naus, hoje mais um terreno baldio, é a verdade histórica não apenas do começo de São Vicente, mas da forma bizarra em que se olha pelo retrovisor.

O Ipupiara carbonizado dá um suspiro e nos aponta que os monstros estão entre nós há muito tempo. Não em forma de estátua em fibra de vidro, mas na incompetência de quem desconhece que a história segue como memória, identidade e pensamento, em beleza e monstruosidade.


Um comentário:

  1. A ignorância é o único artigo cultural democraticamente distribuído por toda a humanidade. Já ouvi dizerem que era a imagem de um demônio, já ergueram uma pilha de lixo em volta da vila de Martin Afonso, já pintaram a imagem de Santo Antônio (do sec. XVI). A história é tratada com desprezo...

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