quarta-feira, 31 de outubro de 2018

Carta ao eleitor (quase) silencioso


Marcus Vinicius Batista

Caro eleitor punitivo,

Com a vida voltando ao normal e o novo presidente agindo dentro de sua normalidade, você acreditou que poderia se despir da fantasia social de domingo. Não precisaria mais ser eleitor, cumpriu sua obrigação, e era hora “de deixar o homem trabalhar”.

Você conseguiu o que desejava e é seu direito. É importante dizer, não a você, mas aos truculentos, que é direito. Só que há uma distância entre colaborar com a derrota do adversário – rejeitado por você, não por Deus! – e evitar as discussões cotidianas sobre política.

Numa eleição sem precedentes, caro amigo, política ainda será rastilho de pólvora por algum tempo. Ainda bem. Você não pregou que era fundamental acompanhamento contínuo de quem exercita o poder com mandato. Democracia é assim. Assim talvez o seja para ti.

Sei que você se enxerga como uma pessoa moderada, típica da classe média, pagadora de impostos, trabalhadora em excesso, horrorizada com tanta corrupção. Não questiono este discurso, e creio que seja uma postura, de fato. Você é meu espelho, você mora em meu microcosmo.

A diferença entre nós é o fardo que colocou no seu lombo. Agora que a raiva começa a se diluir no dia-a-dia, você me dá sinais de que o voto emocional, o voto de indignação, o fez simbolicamente violento. Estender o próprio limite, antes desconhecido, pode machucar. Isso talvez o deixe constrangido, comportamento que transparece nas entrelinhas das rodas de conversas, das discussões do intervalo de trabalho, nos elevadores e até no banheiro.

Diante desta tarefa rara, você busca escapar das conversas sobre política. Elas tocam geralmente nos atos do presidente a ser empossado, na sua equipe, no seu palavrório de campanha, nas especulações de nomes de caráter e gosto duvidosos. Você não se manifesta, abaixa a cabeça, sorri de canto de boca. Mea culpa seria necessário? Não sei, emoção e razão caminham juntas dentro de nós.

Como se considera um sujeito ponderado, avesso à desqualificação do outro, equilibrado nas opiniões e nos atos, você evita o argumento falho, mas real, que justifica seu voto. Por que falar do perdedor? Um mérito no pós-jogo. Ele é passado no Executivo federal; por sinal, há dois anos, embora suas heranças povoassem seus pensamentos por semanas até a decisão de clicar outro número na urna eletrônica.

Quem sabe o silêncio calculado mascare a dificuldade em encontrar argumentos consistentes no novo? Você pensou nisso antes? Defender sua escolha, sem cair na tentação de atacar o outro?

Lembre-se: a escolha foi seu direito. Mas assinou um papel pelas razões erradas? Não jogue nas costas do tempo, não o utilize como solução do destino. O tempo é volúvel por natureza, perceptível de forma particular por cada um de nós.

Sua incerteza é o preço do voto útil, do voto que guilhotina o réu nosso de cada eleição. Assim, seu silêncio é justificável. Na dúvida entre a sanidade e a confissão de obsessão, melhor ficar em pose monástica, com sorriso de Dalai Lama.

Você votou também pela dúvida. E se apoia nela quando se encoraja em participar da conversa. O benefício da dúvida para o novo presidente. Você se mostra um sujeito otimista, mas que legisla em causa própria, quase um Poliana.

“Vamos esperar”, você diz.

“Vamos torcer”, você reforça.

“Ele não vai fazer tudo o que falou”, você teme.

“Deus vai nos ajudar”, você apela, sem reconhecer que transfere responsabilidade.

Certamente, o Altíssimo tenha ocupações demais para nos informar, outra vez, que não nasceu no Brasil. Qualquer argumento morre de inanição depois de cinco séculos de violência.

Você caiu em si. Você é diferente daqueles que acompanharam Bolsonaro desde o início da campanha. Estes eleitores não são da mesma crença que você. Eles têm fé no homem. Compartilham de seus valores, muitos até se expõem, inclusive de forma violenta, em nome Dele. São convertidos, parte do processo.

Você votou por descrença e agora, nos olhares, na fala um tom abaixo do normal, na saída à francesa da sala, indica que a racionalidade faz com que seu medo mude de endereço. Você tem medo do que fez? O liquidificador de sentimentos é tão previsível nesta altura quanto foi seu voto. Só que a raiva, ensina a cultura popular, é o veneno que tomamos enquanto desejamos a “desgraça” do outro.

Como Deus virou água na boca dos políticos, só te resta reconhecer os pecados, caso os julgue deste modo. Nunca vou apontar o dedo para ti. O “te avisei” será seu, se houver a dor única do arrependimento.

Compreendo seu sofrimento, que se parece com o meu, ao ver a política se vestir de guerra, com suas propagandas, derrubando soldados feito pássaros pelas mãos de um menino inconsequente e ressentido, armado com uma espingarda de chumbinho.

A má notícia é que ele não governará para você. Ele deveria governar para todos, mas os primeiros passos indicam que o caminho da seletividade está definido. Não silencie. Dialogue. Ouça, acima de tudo. Proponha. Acompanhe de perto.

Estes são os primeiros degraus para quem fechou os olhos com raiva e agora percebeu que talvez tenha falado demais. Ou apertado um botão vermelho, o da emergência, não o do partido-gatilho de obsessões eleitorais.


Já começou!


Marcus Vinicius Batista

O funcionário do supermercado fechou o caixa e virou a placa que informava a suspensão do atendimento. Um consumidor, na faixa de 45 a 50 anos, ignorou o aviso e começou a colocar suas compras no balcão.

O funcionário, de maneira educada, pediu:

— Senhor, por favor, coloque as mercadorias no caixa ao lado. Aqui está fechado e, se o senhor colocar as compras, outros clientes vão achar que o caixa está aberto e vão formar fila.

— Vou colocar minhas compras sim e você vai me atender!, o cliente retrucou aos gritos

— Sinto muito, mas eu tenho direito a um intervalo para ir ao banheiro. Aquela moça vai me substituir e, daqui a pouco, haverá atendimento.

O rapaz, negro e homossexual, virou o corpo para deixar o caixa, quando ouviu o senhor dizer, no mesmo tom alto, pelas costas:

— Ah, a moça vai fazer xixi sentada? Olha, gente, a moça vai fazer xixi sentada.

— Vou sim, senhor, e o senhor não tem nada a ver com isso.

Todos os clientes que estavam nas filas aos lados do caixa ouviram a conversa. Apenas uma mulher respirou fundo e sussurrou: “Já começou!” Todos os homens da fila permaneceram em silêncio.

**********

Enquanto o próximo presidente da República oscila entre as bravatas de campanha e os anúncios iniciais sobre ministérios, seus súditos voluntários começam a colocar as mangas e a irracionalidade de fora. Há vários registros de casos de violência, entre ameaças, atos caricaturais na Internet e registros em delegacias.

A ressaca eleitoral ainda não se dissipou e, mesmo quando acontecer, será difícil conter os comportamentos agora explícitos de quem se sente autorizado, legitimado pelo líder político em suas palavras de ordem contra quem não se encaixa em seu estereótipo de menino valentão.

Os agressores, em todos os episódios que testemunhei, se intitulam cidadãos de bem (voltarei neste conceito em outro texto). Consideram-se, na sua estupidez de baixa cidadania e certezas dogmáticas, legítimos representantes acima de lei e da ordem. Querem, na verdade, privilégios dados aos escolhidos (ou mantê-los), seja pelo discurso irresponsável dos políticos, seja por Deus – quem seria? – que tem seu nome surrado em vão por gente que dá a impressão de cultuar os princípios daquele que foi expulso do paraíso.

A eleição serviu, entre outras coisas, para nos esfregar na cara o quanto somos uma população que chafurda em violência cotidiana, em preconceitos, em intolerância, em mesquinharias, na capacidade de enxergar o outro como diferente, como ser humano. Gente que defende a morte de gente apenas por ser gente...diferente. E olha que, muitas vezes, a diferença se dá somente na vida pública, na máscara do personagem.

O novo presidente tem a obrigação moral de reduzir sua valentia atrás das telas e apaziguar aqueles que pregam truculência em seu nome. Se já é um irresponsável quando faz apologias violentas, será cúmplice quando se sentar na cadeira em janeiro. O problema é esperar uma postura distinta, além dos limites éticos e intelectuais que talvez Bolsonaro não possa nos entregar.

Em vários ambientes, vejo discursos de união, de redução de danos, de expectativas positivas para o novo Governo. Soam mais como justificativas para o cheque branco assinado em vez leituras concretas. Até porque Bolsonaro se elegeu sem pouco propor. Estamos acompanhando seus interesses mais explícitos na economia e na política palaciana nos últimos dois dias, muito pouco para atender 55 milhões de pessoas, no mínimo.

O discurso apaziguador vem, na maioria, daqueles que votaram em outros candidatos e fizeram a escolha por Bolsonaro para punir o Partido dos Trabalhadores. Mas esta fala está se misturando com fatos previsíveis.

O preconceito e a selvageria, em nome de Deus, da família ou quaisquer outras razões cínicas e hipócritas de muitos que não as praticam (conheço tantos assim!), saíram da sala de jantar e das mesas de boteco. Começam a se transformar em ações, que expõem a frágil fronteira entre a civilidade e a barbárie de quem cansou de interpretar o papel de tolerância, de ser humano.

O ciclo de estupidez só ficará completo quando estes sujeitos, muitos de classe média ou baixa e ausentes de crítica política, feito crianças numa democracia cheia de falhas, perceberem que o Estado truculento e seus súditos são míopes também para os “cidadãos de bem”. Que ser eleito significa muito mais do que esbravejar, de forma covarde, na fila do supermercado, como se pagar as compras o tornasse uma criatura acima das demais. Um feitor do “olha com quem está falando” que sonha em viver os tempos áureos das chicotadas nos moradores da senzala.

O feitor, mal sabe ele, só distribui lambadas porque o senhor dos escravos não gosta de sujar as mãos. Um dia, ele se cansa e troca a mão que faz sangrar. E envia, sem escalas, o feitor de volta à senzala.

O senhor, neste momento, está mais preocupado em fazer campanha, enquanto joga a conta nas costas de Deus e flerta com seus falsos profetas.

domingo, 28 de outubro de 2018

Rezar, temer, fiscalizar?


Marcus Vinicius Batista

Eu não rezo. Respeito quem o faz e crê nas respostas. Tenho minha fé, nunca a impus a sujeito algum, mas desconfio que meu Deus talvez seja diferente do de muitas pessoas. Meu Deus não se mete em política eleitoral. Meu Deus não agride adversários. Meu Deus não acende velas para maus defuntos, não importa a camiseta que vista, o líder religioso que fala em nome Alheio, edite textos sagrados ao bel prazer (e dinheiro) e abrace o candidato do versículo da vez.

A decisão das urnas neste domingo não é uma questão de oração. Vejo como uma posição a ser vista com o melhor dos olhares racionais. É preciso pensar, refletir sobre o cenário, mesmo que não alcancemos uma conclusão definitiva, melhor assim, aprender que política é bem mais do que gritar em rede social ou tirar sarro do outro como se eleição fosse clássico de domingo.

Aos eleitores de Bolsonaro, me permitam uma sugestão: tentem amenizar ou se libertar da obsessão pelo PT. A derrota foi punição suficiente para o partido. Caso contrário, só se confirmará a impressão da campanha eleitoral: retirar o PT do poder – algo já feito há quase dois anos – e colocar qualquer sujeito no lugar. Mais do que assinar um cheque em branco, seria também fornecer a senha bancária. Por favor, comemorem a vitória em vez de celebrar exclusivamente a derrota do adversário.

Aos eleitores do Haddad, outra singela dica: unam-se como adeptos de políticas sociais decentes; briguem por tolerância nas práticas cotidianas, não somente na retórica; e deixem o PT cuidar das suas próprias feridas. O Partido mereceu a lambada e tem a obrigação de limpar a casa. Ultrapassar o limite da promessa e provar que é capaz de se reinventar. Ser oposição é a chave do recomeço.

O novo presidente pode ser tudo, menos burro. Ele encabeçou uma estratégia de marketing brilhante para vencer, marcada pela alimentação da fantasia em torno de si próprio. Mas ele sabe que possui uma maioria apertada e boa parte está desconfiada da decisão que tomou. Basta ouvir as falas mais serenas de “vamos ver”, “o futuro dirá” etc. São frases condicionantes e vagas diante da desinformação do rumo a ser tomado. Medo de que ele transfira a senha do banco para terceiros?

Não podemos ser ingênuos de acreditar que o governo Bolsonaro será fiscalizado na unha. Muitos que prometem isso são os mesmos que ignoraram as trapalhadas do atual presidente depois do Fora Dilma se concretizar. Normal vindo de olhares pouco comprometidos e infantilizados sobre o que é fazer política. Não é preciso cobrar de ninguém que seja cidadão exemplar. Muitos se contentam com o título hipócrita de “cidadão de bem”. Sejamos nós exemplares.

Espero que os ativistas se mantenham unidos, ativos de verdade, além da contaminação dos discursos eleitoreiros que vez em quando renascem. Acabou a eleição. É hora de defender quem foi massacrado pela verborragia do novo presidente. Temer? O remédio é se organizar, dialogar, estabelecer estratégias, fortalecer e cobrar das instituições que ainda fazem o Brasil um país teoricamente democrático.

Somos humanos. Erramos. Escolhemos. Aprendemos. Refazemos. Tentamos. Observamos. Corrigimos. Refletimos. Sentimos. Acima de tudo, respeitamos. E erramos novamente. E corrigimos outra vez. Humanos.

Perdoem-me: Deus não tem a nada ver com isso. A decisão foi tomada por homens e mulheres, fiéis às suas consciências. Sem determinismos transcendentais, assumam suas ações, abracem suas responsabilidades como cidadãos e fiscalizem o novo Governo. Afinal, o voto foi seu! E não era pra valer?

Carta ao Fernando (a não ser lida – Parte I)


Marcus Vinicius Batista

Caro Fernando,

Quando passar a ressaca da festa, uma virada histórica sem precedentes, tenho certeza de que você vai colocar a mão na cabeça e pensar: venci de que maneira? E o que fazer agora? Como conquistar a outra metade que me rejeitou com veemência?

Você, certamente, não terá uma longa lua-de-mel com a vitória. A fiscalização será acirrada, ao menos nas primeiras semanas do seu governo. A curto prazo, haverá truculência, possíveis protestos, violência, nada incoerente do trajeto percorrido por esta campanha eleitoral, suja, sem debates, com raras propostas, inclusive da sua parte, convenhamos.

Muitos vão te acusar de ser um fantoche. O adversário, você sabe, o intitulava “poste”. É um ponto a ser contestado no poder. Assim como foi feito na Prefeitura de São Paulo, cidade territorialmente favorável ao quase nanico PSDB.

Espero que você reaja, como muita gente escreveu, conversou, bradou, pregou. Ao se sentar na cadeira do Palácio do Planalto, desejo que a criatura se volte contra o criador. Ou, pelo menos, ande com as próprias pernas. Você não estaria onde se encontra sem o apoio ou a chancela de Lula.

No entanto, até para ser decente com a figura de pai que tanto Lula gosta de cultivar, é preciso inseri-lo no lugar adequado da História. Lula é um líder, independentemente de seus atos, mas é a hora de pegar o boné. Não quero mártir sonhando com a capa de super-herói. Desejo um líder que saiba a hora de sair de cena e resolver seus próprios fantasmas.

Fernando, você tem a oportunidade única – com o poder em mãos – de reabilitar seu partido. Terceira chance, o que poucas pessoas recebem na vida. Limpe a casa. Estimule a punição de quem pecou além dos limites. Isso reforçaria a tais instituições, tão defendidas por você e por outros para manter a democracia de pé.

O PT te levou ao segundo turno. O PT quase provocou sua derrota. Você sabe o quanto o voto punitivo (anti-autoritário) colaborou com sua vitória. Dois candidatos com mais de 40% de rejeição. Foi uma eleição sui generis.

Não permita que os demais caciques rifem o partido outra vez. O PT precisa voltar a fazer jus ao nome que compõe essa sigla tão manchada pelos seus “companheiros”. É, creio eu, a última oportunidade de dedetizar um partido que passou por tantos buracos em quase quatro décadas. Que quase fechou as portas por causa do fedor exalado por uma minoria.

Fernando, você tem a obrigação de ser um presidente acima de todos. Todos quem? De saída, as lideranças que tentam sobreviver jogando e ditando cartas nas prisões. O PT não é apenas eles. O PT é aquele militante que vota com esperança. O PT é aquele que mudou de voto porque se decepcionou e ouviu tantos “eu te disse” depois de testemunhar a arrogância política de quem vislumbrou projetos de poder, e não de governo.

Tenho ciência de que você é um sujeito preparado para o cargo. Sei que, no máximo, saiu chamuscado do incêndio que corroeu aqueles que ajudaram a te construir. Mas é fundamental provar, inclusive para quem defende limpeza étnica, social e um monte de outros aspectos que justificam violência verbal, psicológica e física, que a democracia apanhou e segue de pé.

Não haverá outra oportunidade, caro presidente. Como professor, aprenda com os erros seus e de seus colegas, dialogue em vez de ser professoral, a arrogância dos didáticos, ensine seus adversários. Governe para todos e resista aos peixes podres que nadam sorridentes pelos corredores do Congresso Nacional. Vá além dos muros do Partido dos Trabalhadores.

Boa gestão! Um abraço!

Carta ao Jair (a não ser lida – Parte II)


Marcus Vinicius Batista

Caro Jair,

Não acho que o senhor seja o melhor nome para a Presidência do país onde nasci e resido. O senhor considera uma informação irrelevante, porém é preciso localizar meu lugar de fala. Não creio que o senhor esteja preparado para exercer o cargo ao qual se candidatou, mas tenho consciência de que o presidente, como figura política, é capaz de montar uma equipe que reduza danos ou possibilite avanços.

Imagino que, na festa da vitória, aconteceram muitos tapinhas nas costas, muitos parabéns, muitas promessas, muitos sorrisos, muitas outras coisas mais. Presidente, sinto dizer: a lua-de-mel será também curta para o senhor, como seria para seu adversário, caso ele tivesse vencido.

A lua-de-mel será restrita por razões diferentes. Sabemos que, entre as mentiras contadas por tantos candidatos, uma delas foi a distância da corrupção de sua candidatura. Não o acuso de coisa alguma, mas seus aliados – ligados em vários níveis a Deus, o Diabo e outros grupos que pulam entre as duas entidades – vão cobrar a conta da festa. E cobram sem pudor, sem misericórdia, rezando até. Assim o fizeram com o partido do seu adversário.

Sabemos também, caro presidente, que sua estratégia de campanha se transformou num caso a ser estudado, discutido – e jamais repetido – na História político-eleitoral. Seus eleitores não te conhecem. Votaram numa fantasia, num personagem construído e alimentado, inclusive pelo senhor, que reforçava o voto punitivo ao PT, a limpeza generalizada, os preconceitos, as pequenas violências cotidianas, o pensamento e as práticas da violência institucional.

O senhor tem total consciência de quanto a facada se tornou o divisor de águas nesta campanha. Jamais defenderia tal ato, mas também repudio o uso indiscriminado do vitimismo que o senhor tanto rechaça. A facada te fez fugir de um debate público, organizado, sobre propostas. Por quê? O que temia? Murchar a candidatura?

Meu maior medo é não ter a menor ideia do que o senhor pretende fazer como presidente. Um programa reduzido e vago – ainda que saibamos que programas são peças ficcionais, mas que insinuam a visão de um político e seu grupo de interesse -, e aparições por telas, tão artificiais e limitantes quanto os discursos que carregam, impostos, sem a chance de contestação, do contraditório, da continuidade da reflexão.

O senhor apostou num eleitor insatisfeito, punitivo em ambos os lados da moeda. Um eleitor que não te quer, quer a ausência do seu adversário, não o homem, e sim o partido, do poder. Um eleitor que acredita – em sua ingenuidade – que retirar um presidente é como expulsar um síndico incompetente na reunião do condomínio, na sexta-feira à noite.

Este eleitor, caro presidente, não te escolheu por ser quem é. Ele te escolheu pelo que o senhor representa. Jair Bolsonaro (falar em terceira pessoa significa um sintoma) é uma mentalidade, uma forma de viver para certas parcelas da sociedade. Se todo político sonha em entrar para a História, aí está a sua boa nova. Mas a que preço?

Nunca se esqueça, caro presidente. O senhor está onde está porque a democracia, ironicamente, permite que se fale contra dela dentro de si mesma. O autoritarismo, também vivido pelo senhor, não. Entre os autoritários, só abrem a boca as patotas, ainda assim cerceadas por sólidos protocolos e hierarquias rígidas. O senhor é um homem de posições rígidas, mesmo que sua biografia indique diversas flexibilidades pessoais. A coerência seria uma qualidade, não?

Presidente, seus novos amiguinhos vão mudar o tom da conversa em breve. Seus eleitores, tenho sérias dúvidas, talvez te cobrem um pouco. Seja pelo voto punitivo, seja pela mesma forma de ver o mundo, seus eleitores só queriam a mudança. Talvez a mudança de país, certamente a mudança de grupo de poder. Será que apostou certo? Será que as sombras não são as mesmas?

Jair, me perdoe, tenho quilos de dúvidas sobre o senhor como presidente. Certeza, quem sabe uma só e ela não precisa ser dita: o teor desta singela e curta carta explica.

Boa gestão! Um abraço!

sábado, 27 de outubro de 2018

Por que perdemos essa eleição? (ou A derrota acima de todos!)



Marcus Vinicius Batista


Conscientes ou em coma induzido, abrimos a Caixa de Pandora nesta eleição. Colocamos para fora – não nasceu hoje nem ontem – nossos piores sentimentos e perspectivas de mundo. Trocamos a chance de aprender com esta campanha pela prisão voluntária de nossas pequenas mesquinharias.

Perdemos a vergonha. O politicamente correto ou a lei mesmo mantinha muita gente com seus preconceitos guardados no fundo da gaveta do armário mais obscuro da casa. Aquele que armazena as tralhas.

Testemunho pessoas pedindo limpeza de outras pessoas, clamando pelo silêncio amordaçado de quem não pensa como elas, defendendo o extermínio absoluto do outro, tão impossível de conviver porque pode representar aquilo que mais se abomina em si próprio.

Perdemos a solidariedade, aquele sentimento que costumamos cultivar quando queremos parecer bons. Adotamos a máscara do cidadão de bem, termo que forma patotas e exclui os diferentes, num maniqueísmo raso (perdoe a redundância, é só para reforçar) que divide o mundo entre bons e maus e dispensa duas das características humanas: a contradição e a imperfeição.

Perdemos pessoas. Desfazemos amizades, ignoramos colegas, ofendemos parentes, esbravejamos em textos, áudios, imagens, histerias pontuais e estruturais. Perdemos pessoas por causa de políticos, que tanto desprezamos. Isso! Perdemos pessoas por sujeitos que viram as costas, convictos da falta de fiscalização, assim que as urnas se apagam. Repito: perdemos pessoas por causa de políticos, muitos deles capazes de nos agredir verbalmente a cada aparição pública.

Perdemos o outro como humano. Deliramos sobre outros sujeitos como se fossem coisas, por causa de suas escolhas, por causa de seus comportamentos individuais. Podemos jogá-los na vala comum, sem identificação, sem passado, sem história, mesmo que a História nos tenha mostrado tanta crueldade e bestialidade em nossos ancestrais.

Fingimos desconhecer o mal que nos habita, com a desculpa esfarrapada de “apenas cumprimos ordens”. Ou porque alguém falou. Ou porque é culpa do sistema. Ou porque só “trabalho” aqui.

Perdemos a capacidade de dialogar. Na nossa arrogância, julgamos sermos politizados só porque falamos de política. Falamos, gritamos, impomos, pouco debatemos, raramente aprendemos. Preferimos ganhar a conversa a qualquer preço, ainda que sacrifiquemos as pessoas ao nosso lado – aquelas que costumam importar.

Talvez façamos isso como ato reflexo dos candidatos que adoramos desde a semana passada. Típico de quem crê que a culpa sempre está no outro corpo. Por que não nos calamos de vez em quando?

Perdemos, como conseqüência, a capacidade de ouvir. Não estamos apenas cegos de ódio, mas surdos diante de qualquer voz que não seja a nossa, que também cacareja, que também digita muito e pouco escreve. O próximo presidente, rezo para que nos escute, deveria implantar um programa gratuito, em caráter nacional, que envolva cursos de Escutatória, conforme pregava Rubem Alves.

Perdemos o valor da verdade. Na hipocrisia e no cinismo de todos nós, adoramos cultuar quem matamos dia após dia. A primeira vítima de uma guerra, como explica o clichê. Não falo das pequenas mentiras cotidianas, mas daquelas que contamos para nós mesmos. Daquelas que minimizamos quando levamos adiante informações caluniosas, argumentos levianos, quando compactuamos com a mentira escancarada, mas dita pelo anônimo, que vai machucar quem não pensa como nós. Estúpidos somos quando nos esquecemos que uma campanha eleitoral se movimenta como bumerangue.

Perdemos a liberdade. Confundimos a ideia de que liberdade de expressão significa o poder de dizer qualquer coisa, sem limites. Rasgamos a liberdade para defender o privilégio de agredir quem não está comigo, como Bush ou Trump em seus olhares belicistas.

A liberdade como prática individualista se chama egoísmo, primo da vaidade. A liberdade sempre será sinônimo de convivência, de ato coletivo. Só seremos livres quando todos o forem. E não enxergamos que defendemos o fim da liberdade justamente porque ... somos teoricamente livres. Teoricamente!

Por contradição, tenho dúvidas: será que perdemos tudo isso mesmo? Então, quando teria sido este escoamento moral pelo ralo da violência? Ou será que apenas rompemos os filtros e agora precisamos descobrir e assumir que somos deste jeito, uma espécie truculenta, selvagem? Francamente, não vejo tanta gente assim fazendo mea culpa.

Desconfio que, como animais, somos menos humanos do que imaginávamos ou editávamos no feliz mundo das redes sociais e das conversas cotidianas.

Se todos perdemos, quem ganhou o jogo sem vencedor?

PT, co-criador de Bolsonaro


Marcus Vinicius Batista

A esquerda brasileira paga o preço pela própria arrogância. Pelo narcisismo político. Pelo egocentrismo de seus líderes. A esquerda, neste caso, é simbolizada pelo seu maior representante nos últimos 35 anos: o Partido dos Trabalhadores. Associar esquerda e PT significa, aliás, dois pontos: 1) esquerda como antítese da direita numa eleição de extremos; 2) esquerda atual está longe de representar a definição ideológica clássica ou a forma de governar. O PT esteve muito mais próximo do centro do que se imagina.

O PT, na figura de seus caciques, desdenhou Bolsonaro. Ignorou o crescimento do fenômeno político e não visualizou nem como miragem o fato de que a extrema direita aprendeu a fazer política eleitoral com a própria esquerda. As críticas de Mano Brown, rechaçada por muitos petistas, são pertinentes e sintetizam o pensamento de vários ideólogos da própria esquerda.

Em janeiro, por exemplo, Bolsonaro oscilava em torno de 8% das intenções de voto. Muitos representantes da esquerda o descreviam como um bufão, como um cavalo paraguaio, que não sobreviveria à corrida eleitoral. Apostavam na repetição da polaridade com o PSDB, que também se apequenou tamanha a quantidade de erros estratégicos de campanha.

O PT foi rifado, em termos institucionais, por suas lideranças. O partido patinou por mais de quatro meses até oficializar Fernando Haddad como candidato, em 11 de setembro. Ele teve pouco mais de três semanas para firmar uma linha mestra de campanha. E pior: ainda luta para se desvencilhar da sombra de quem se coloca como pai novamente.

Usando o futebol como metáfora, compatível com o personagem, Lula jogou com o nome durante boa parte do campeonato. Perdeu o momento de tirar o time de campo, enquanto desejava ser mártir e se colocar acima da história do partido. Em outras palavras, o PT foi o dom que carregou Haddad ao segundo turno, mas poderá ser a maldição que selará uma derrota.

As lideranças, obcecadas por um projeto de poder, e distantes de um projeto de governo, se afastaram da militância, minimizaram sua relevância, passaram a falar somente a língua dos corredores palacianos e acreditaram, após quatro vitórias nas urnas, que não havia necessidade de se reinventar, de renovar nomes. Como Narciso, olharam para o espelho d´água e não perceberam que a mentalidade Bolsonaro – não o homem apenas, mas a forma de pensar, a estrutura moral distorcida – passou por trás delas e aos berros.

O PT perdeu duas vezes a chance de limpar a casa. De se proteger como instituição, de sacrificar parte da sua própria carne. Manteve os órgãos em putrefação, excluiu militantes históricos que questionaram seus líderes e atacou para se defender e ocultar seus esqueletos. Postura adotada no mensalão, repetida na Lava-Jato, insinuada nesta campanha eleitoral.

A esquerda, se pensarmos nos demais partidos, tentou se divorciar do pai falível, mas também não entendeu o século 21. Não compreendeu que precisava se adaptar às novas tecnologias, às novas formas de se comunicar, ao olhar fluído da política e aos novos caminhos de construção e difusão de informações. Cultivou o egocentrismo das reuniões intermináveis, das estratégias utópicas, mas – principalmente – o muro que se ergueu entre as instituições partidárias, seus políticos e a população em geral. Não se sabia mais com quem se conversava. Só com a corte.

A direita representada por Jair Bolsonaro fez política de base adaptada, guardando as devidas proporções. Política de base virtual, por vezes suja e selvagem, mas dentro de um mundo real. Real, mas fora da bolha que envolveu o adversário.

Neste sentido, o baile de marketing político incluiu a cristalização de rótulos infantis como a associação entre PT e comunismo, aproveitando-se de que as redes sociais funcionam como terreno fértil para a fragmentação e a superficialidade de informações. A direita nadou de braçada, armada de intolerância e preconceitos, num modelo anteriormente dominado por ícones e instituições simpáticas à esquerda. A desinformação só fez crescer o bolo belicista.

O PT dá a impressão que descobriu o erro e transmite neste final de corrida eleitoral, nas palavras de Haddad, que pretende comprar material de limpeza e de dedetização. Nenhuma prova concreta até agora. Cedo para dizer.

O problema é que a criatura nunca esteve tão forte como fantasia e mentalidade e, por isso, talvez o PT tenha acordado da soberba tarde demais.