terça-feira, 30 de agosto de 2016

A morte do Horário Eleitoral



Marcus Vinicius Batista

O horário eleitoral gratuito estreou na última sexta-feira e apontou, logo de saída, o que representa no processo político. Quatro dos oito candidatos a prefeito de Santos tiveram problemas para entregar seus programas a tempo de exibição. O que mudou? Nada!

O que poderia ser um vexame de organização ou um retrato da falta de estrutura das campanhas nos permite questionar a finalidade da exibição no rádio e na TV. A própria redução do tempo, de meia hora para dez minutos, duas vezes ao dia, traz boas intenções, mas na prática expõe os velhos vícios da política e a mudança de comportamento do eleitor.

Em Santos, o prefeito Paulo Alexandre Barbosa (PSDB) tem 5 minutos e 45 segundos à disposição. O tempo é fruto da coligação de 16 partidos. Carina Vitral (PC do B) tem 1 minuto e 43 segundos. Os outros seis concorrentes, menos de um minuto cada. Hélio Hallite (PRTB) enfrenta o desafio de ser criativo em oito segundos.

O horário eleitoral perdeu parte de sua função (se é que teve um dia!): apresentar ao público as propostas dos candidatos. Os conteúdos regurgitam velhas fórmulas de marketing político, quando não descambam para o humor involuntário de candidatos que julgam a política como circo.

A disparidade de tempo entre os concorrentes também denota o poder das alianças. E esconde, claro, a distribuição do bolo de cargos e secretarias após as eleições.

O horário eleitoral enfrenta um adversário maior. A TV e o rádio perdem audiência, de maneira irreversível, com o barateamento e o crescente acesso às tecnologias móveis. Mais gente na Internet, mais gente acompanhando conteúdos audiovisuais em YouTube, Netflix e outras plataformas.

O público médio de TV aberta se aproxima dos 50 anos. A audiência entre os jovens com menos 25 anos cai, com tendência a zero. Quem vai assistir a um programa desinteressante, quando não desagradável como o desfile de políticos, muitos com promessas megalomaníacas?

O horário eleitoral gratuito contrasta com a campanha eleitoral pesada nas redes sociais. Só esse sintoma serviria para pensar se este dinossauro não corre sérios riscos de extinção, por invisibilidade. Que as preces se concretizem!

Obs.: Texto publicado no Diário do Litoral, em 28 de agosto de 2016.

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Morrendo abraçados



Marcus Vinicius Batista

As duas primeiras pesquisas - Ibope/TV Tribuna e Enfoque/Jornal Boqnews - apresentaram várias semelhanças na corrida para a Prefeitura de Santos. Além de comprovar a eficiência histórica do acompanhamento deste jornal em eleições, a primeira leitura após o início da campanha mostra o cenário estável, o que é um problema, no caso da sete candidaturas de oposição.

A primeira semelhança aponta para uma vitória no primeiro turno do prefeito Paulo Alexandre Barbosa (PSDB). Em ambas as pesquisas, o prefeito venceria com margem elevada de votos. Como agravante, todos os demais candidatos, juntos, não somam a metade das intenções de voto para o atual prefeito.

O início do horário eleitoral gratuito, na última sexta-feira, não reverterá o quadro. A aliança de 16 partidos em torno do prefeito deu a ele quase 60% do tempo de exposição no rádio e na TV. São 5 minutos e 45 segundos a cada dez minutos.

Dos sete adversários, apenas Carina Vitral (PC do B) tem mais de um minuto. Para ser preciso, um minuto e 43 segundos. Os demais terão segundos para se constituir como alternativa. Hélio Hallite (PRTB), por exemplo, terá que operar o milagre Enéas, com direito à oito segundos no ar.

O horário eleitoral perdeu parte de sua importância ao longo deste século, inclusive por culpa dos próprios candidatos, que oscilam entre a repetição monótona de estratégias e os programas de humor. O horário eleitoral simboliza que a eleição, em Santos, se constitui na disputa entre um elefante no meio da sala, cercado de formigas, que se recusam a trabalhar em conjunto para cutucá-lo.

Todas padecem do Complexo de Clark Kent, praguejando que serão capazes de promover uma reviravolta, sem a visão cristalina de onde se encontram no roteiro. Ou, como muita gente desconfia, correndo em círculos para atrapalhar os colegas da mesma espécie.

A eleição será em 35 dias, o que significa que o prazo cada vez mais apertado reduzirá as chances de uma novidade provocar tremores no prefeito por causa de um segundo turno. Seis dos oito candidatos não passam de 3% das intenções de voto. Somente Marcelo Del Bosco (PPS) toma uma certa dianteira, variando entre 5% e 8%, insuficiente para aparecer no retrovisor do candidato favorito.

O último mês talvez deixe mais claro que situações extremas exigem medidas desesperadas. Por que certas candidaturas permanecem na dança de salão se nasceram com as pernas quebradas? Por que certas candidaturas não se unem se há pouca estrutura de propaganda e dinheiro?

Uma eleição também atrai candidatos que desejam ficar na vitrine. Sem chances, lançam seus nomes de olho em 2018 ou no sonho da próxima eleição para prefeito, em 2020. O problema é que há muita gente para uma vitrine apertada, e todos vestindo roupas com pouca luminosidade para ganhar os olhos do público.

A ironia desta eleição é a incapacidade da oposição de promover uma ressaca. Num mar de marolinhas, o risco é testemunharmos a oposição morrer abraçada, bem antes de alcançar a beira da praia.

sábado, 27 de agosto de 2016

Entre táxis e Ubers, quem ganha é a imagem



Marcus Vinicius Batista

Nada como uma eleição para colocar a lei em prática. Nada como uma eleição para se colocar os políticos contra a parede. Nada como uma eleição para se pensar em eleitores, e não em consumidores ou cidadãos.

A disputa entre taxistas e o Uber, em Santos, saiu da guerra fria e foi para as vias de fato. Desde sábado, quando houve um incidente na Rodoviária, os taxistas resolveram mover as peças no tabuleiro da política e fazer valer a pressão pelo voto, daqui a 40 dias.

Até então, a lei que proíbe o uso do aplicativo na cidade seguia em banho maria, mantendo a imagem positiva dos vereadores junto à categoria.

Em outubro do ano passado, os taxistas gritaram, o vereador Ademir Pestana atendeu ao chamado e entrou com o projeto de lei. Os colegas, em fila de pires na mão, aprovaram em plenário e o prefeito Paulo Alexandre Barbosa assinou embaixo, em cima e do lado.

Com o crescimento do número de motoristas de Uber, a aceitação dos consumidores e a entrada oficial da empresa em Santos, os taxistas perceberam o engodo político-eleitoral. Era hora de atravessar a miragem e alcançar a tenda com frutas e água fresca. Ontem, cerca de 100 motoristas fizeram uma carreata com buzinaço e foram cobrar a conta no Paço Municipal.

A Prefeitura, por meio da CET, resolveu manter a imagem positiva. A fiscalização começou nesta terça-feira, de fato e de direito, depois de nove meses, tempo ideal de gestação eleitoral. Multa de R$ 1500 e apreensão do veículo. A imagem da lei que resolveu pegar às vésperas do voto de uma categoria que reúne cerca de 1200 taxistas, mais os terceirizados e seus familiares.

Os taxistas ainda não compreenderam que a polêmica envolve, indiretamente, uma questão de imagem. Não é apenas o marketing político e suas medidas reativas diante da ameaça da urna. É a compreensão de que o próprio serviço, mais a concorrência do Uber, passa pela percepção do consumidor. E essa percepção não é boa quando os taxistas se refletem no espelho.

Argumentos concretos como legislação trabalhista, impostos e manutenção do veículo não colam diante do consumidor, imediatista e também cliente da imagem. As maiores queixas - basta conversar com os próprios passageiros, de ambos os serviços - não esbarram no preço como primeiro item da lista.

Os taxistas têm a imagem - e aí a generalização abraça a todos sem restrições - de mal educados, reclamões diante do tempo de corrida, de dirigir carros por vezes com cheiro de cigarro ou mau conservados, de falar palavrões no trânsito e lentidão para atender aos clientes, fator este conectado com a burocracia do sistema de rádio.

Os motoristas de Uber, por sua vez, oferecem - além de um serviço mais barato, com cobrança por cartão de crédito (logo, a ser paga em um mês) - rápido atendimento, doces, revistas, água e, principalmente, simpatia no trato com o consumidor. Outro ponto: trabalham para complementar a renda ou para superar o desemprego, em um cenário de crise econômica.

É um pacote que resulta numa imagem positiva para o cliente. E mais: como o freguês julga ter sempre razão, ele quer ver vantagem. Aí que a diferença de preço pesa na balança, já pendente para o lado dele.

A relação é de consumo, não de cidadania, na visão geral, sem entrar no mérito do contexto. Se é consumo, todos os argumentos de ordem jurídica deságuam em conversa para ouvidos surdos. Os consumidores fazem os taxistas provarem de seu remédio, o imediatismo no relacionamento.

Não precisa ser vidente para perceber alguns pontos no horizonte. Consumidores não deixarão de usar o Uber por causa da fiscalização da CET; aliás, uma instituição com péssima imagem, distante da orientação no trânsito, próxima da indústria de multas. É capaz que clientes se tornem cúmplices de motoristas de Uber para enganar os amarelinhos.

Se os taxistas quiserem ganhar a batalha a longo prazo, é essencial rever os princípios do próprio trabalho e alterar a imagem pública. Chorar na porta da Prefeitura e esbravejar diante dos políticos só levarão a medidas paliativas, de fundo eleitoreiro.

Alguém acredita - com exemplos históricos de fiscalização negligente, como a lei seca - que a CET vai perseguir o Uber para sempre, ainda mais depois da eleição, em outubro? Ou apostaria que os políticos não mudarão de lado se os ventos ficarem favoráveis para um número cada vez maior de consumidores-eleitores, como aconteceu em São Paulo?

O teatro eleitoral é definitivo: antes do terceiro ato, sempre há uma reviravolta na história.

Obs.: Texto publicado no Juicy Santos, em 24 de agosto de 2016.

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Os aposentados, os pobres e os sujos

Barra Olimpic Park, no Rio de Janeiro

Marcus Vinicius Batista

Quando uma festa acaba e somos os anfitriões, só nos resta criar coragem e limpar a casa. Se estivermos exaustos demais, a saída é adiar, esperar até a manhã seguinte para o mesmo destino. Pior é fugir do problema, mesmo que se escondam os pratos quebrados, o lixo embaixo do sofá, as contas da farra que virão na próxima fatura do cartão de crédito.

Com o furor olímpico em ponto de hibernação, voltamos à pergunta: o que vai sobreviver da Olimpíada, no Rio de Janeiro? Não tenho ilusões sobre os elefantes brancos que vão empacar ao lado de seus colegas estádios da Copa do Mundo.

O que me preocupa são as pessoas, os atletas que não podem pagar contas com suas medalhas - exceção dos jogadores de futebol, R$ 500 mil mais ricos cada um. E os atletas que não foram premiados, praticantes daquelas modalidades que mal se sabe pronunciar os nomes?

Torço para que nossa amnésia histórica não contamine a admiração por quem se aposenta, como o líbero Serginho, retornado do retiro pós-Londres e liderança maior do vôlei. Gratidão para Marilson dos Santos, tricampeão da São Silvestre e bicampeão da Maratona de Nova Iorque, uma figura discreta na despedida no Rio de Janeiro.

O patriotismo olímpico se manterá aceso contra os golpes baixos depois que a luz e a tocha se apagaram? Ficaremos calados diante da ausência de uma política esportiva mais igualitária? Nas pistas do Palácio do Planalto, o presidente reserva corre para cortar verbas dos atletas fora do paraíso do futebol da Série A. Gente que conta as moedas para estar numa competição internacional, que organiza rifas, que pede ajuda nos semáforos, que vende bolo e salgados para poder pagar inscrições e viagens.

O ufanismo cego e raivoso nas vaias vai se estender à CBF, que faz da política um esporte com substâncias proibidas? A mesma turma suja capaz de pagar meio milhão para atletas milionários, enquanto estuda cortar a verba das mulheres, que tantos adularam até a semana passada.

Provamos ser capazes de fazer festa, de abertura e de encerramento. Agora, teremos a decência de arrumar a casa no dia seguinte? Ou vamos manter o pregador no nariz, enquanto as baratas comem as sobras da farra?

Obs.: Texto publicado no Diário do Litoral, em 24 de agosto de 2016.

terça-feira, 23 de agosto de 2016

A praça dos Pokemons



Marcus Vinicius Batista


Por mais que fuja do aplicativo, não dá para ignorar um fenômeno social como a fissura pelo Pokemon Go. Meus filhos falam no assunto, meus alunos caçam as criaturas pela faculdade, testemunho gente a capturá-los pelos corredores do shopping. E tomei a decisão de refletir mais a respeito quando passei pela Praça das Bandeiras, no Gonzaga.

O cenário ganhou outra dinâmica. Tive, de início, a impressão de que as pessoas estavam isoladas e juntas ao mesmo tempo. Sei que é assim, como uma das características do comportamento contemporâneo, mas nunca havia visto tanta gente unida com o mesmo objetivo virtual. Mais de 200 pessoas disputando as mesmas presas. Em meio a elas, o bonde como símbolo de outra definição de coletividade, de ontem e de hoje.

O Pokemon Go aguçou minha curiosidade depois da repetição de manifestações no Facebook. Quis entender o que era, ainda mais que meus filhos e amigos deles passaram boa parte das férias envolvidos com as criaturas japonesas, mas na versão card game.

Nunca comprei certas versões apressadas que classificam os jogadores como retardados. Ou que é uma bobagem de jovens. Até porque não vejo diferença de certas postagens de comida em rede social ou os selfies durante shows, jogos de futebol e afins. São variações do mesmo tema, da mesma forma de viver, essa sim passível de reflexão.

A Praça das Bandeiras me soa como a versão pós-moderna da Grécia Antiga. Lá atrás, nasceu o conceito de praça pública, endereço onde eram decididas questões coletivas, via debates, via filosofia.

A praça da atualidade é, no cotidiano, somente local de passagem, salvo exceções como as comemorações na Praça da Independência, em Santos. Comemorações quase sempre limitadas ao futebol e, eventualmente, celebrações políticas como os protestos contra o PT.

O uso da Praça das Bandeiras pelos jogadores-caçadores me faz pensar sobre um ponto que tangencia o papel da praça. Os jogadores representam, acima de tudo, a nova noção de público e privado.

Os jogadores de Pokemon Go são mais um exemplo - aí nada de novo! - de como nos comportamos com os aparelhos que seriam extensões de nossos corpos, assim profetizou Marshall Mc Luhan, na década de 60.

Os limites se alteraram, se estenderam. Se o jogo é privado, individualizado, o local das ações é público. A interatividade oscila entre o físico e o virtual. As comunicações vagueiam entre o olho no olho e a tecnologia dos aparelhos móveis.

O aplicativo Pokemon Go, na orla da praia, expõe - de maneira involuntária - a transição que vivemos, os paradoxos que por vezes nos recusamos a admitir como prática.

O que acontece na Praça das Bandeiras só é a notícia do dia, repetida como ação humana e destinada a morrer em breve. Nada inédito digno de horror ou expressão de surpresa. As redes sociais mostram, há alguns anos, como ainda temos dificuldades para lidar com a exposição pública, que inclui a leitura até certo ponto ingênua das ferramentas tecnológicas.

Fingimos anonimato enquanto desejamos os dividendos do reconhecimento público, para não dizer a fama instantânea. Queremos olhar pelo buraco da fechadura alheia enquanto fechamos portas e janelas e pedimos silêncio depois de entupir a sala de jantar de gente estranha. Julgamos e apontamos o dedo enquanto recebemos conivência e compaixão ao virarmos réus, com ou sem justiça, em sessão transmitida ao vivo.

A vida editada do mundo virtual apenas ganhou um novo jeito de ser contada. É preciso pertencer, seja lá como os grupos se formam ou se desfazem. É essencial ser visto e o mundo dos aplicativos nos colocam no palco, nos tornam assuntos, nos integram à agenda criada por todos e por ninguém.

A Praça das Bandeiras é, para mim, um terreno fértil de observação. Não tenho paciência com jogos. Tenho curiosidade sobre as pessoas. Até porque, se a coerência pública-privada for mantida, o Pokemon Go vai se juntar, em breve, ao clube dos fenômenos mortos, com sepultura ao lado do avô Tamagochi, do primo Orkut, entre outros seres tecnológicos em ciclos de vida que mal consigo acompanhar.

A praça, pelo menos, é vida que pulsa. Se é real ou virtual, depende de qual aparelho você vê ou carrega nas mãos.

Obs.: Texto publicado no site Juicy Santos, em 19 de agosto de 2016.

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

A marca humana

O bombeiro Henrique Lopes Carvalho de Silva 

Marcus Vinicius Batista

A burrice dos homens e das instituições só pode ser amenizada ou corrigida pelo bom senso. Mas, muitas vezes, o preconceito precisa da força da lei para virar peso morto.

O Superior Tribunal Federal encerrou essa semana uma história de oito anos. Uma saga que atrapalhou a vida profissional de Henrique Lopes Carvalho da Silva. O STF determinou que nenhum concurso público pode adotar tatuagens como critério de eliminação, exceto em casos de ataques diretos à instituição organizadora da prova, defesa de terrorismo ou de grupos violentos.

Henrique foi eliminado no exame médico, no concurso para bombeiro, em São Paulo, por causa de uma tatuagem na panturrilha direita. O edital falava em lugares expostos e atentar contra a "moral e os bons costumes". Seria resquício da Tradição, Família e Propriedade?

Ele entrou na Justiça, venceu em primeira instância e assumiu o cargo. O Estado recorreu, ganhou e o bombeiro acabou exonerado. O fim da linha foi o STF, por sete votos a um.

Considerar tatuagem um desvio de comportamento é retroceder a meados do século passado. Seria crer que desenhos na pele significam exclusividade de presidiários, de bandidos.

As tatuagens, hoje, fazem parte do cotidiano de todas as classes sociais e faixas etárias. Tatuadores ganharam respeito como artistas. Os desenhos foram além da rebeldia juvenil ou de grupos específicos, como marinheiros e surfistas, estigmatizados como marginais.

Tatuagens adquiriram valor estético e status na sociedade de consumo. Ter uma tatuagem é a perenidade de uma fase da vida, de uma conquista, de uma experiência marcada por traços de afetividade. Podemos, aliás, redesenhar uma lembrança quando ela se torna amarga e dolorosa.

As tatuagens indicam quem somos ou os valores que carregamos. Mesmo que simbolizem apenas projeção ou desejo, elas carregam nas linhas e nas tintas um pedaço epidérmico de cultura, com ou sem profundidade de conteúdo. Rejeitar alguém por causa delas é se arrastar rumo à velhice de pensamento.

Tenho três tatuagens. E outras virão! Não me tornei melhor ou pior por elas. Se avancei ou não na vida, a "culpa" pertence ao corpo que as abriga e à mente que as concebeu como ideia.

Obs.: Texto publicado no Diário do Litoral, em 21 de agosto de 2016.

Santos: uma cidade em ponto morto


Marcus Vinicius Batista

A campanha eleitoral começou, mas parece que ainda não saiu do lugar. Depois de quase uma semana, as candidaturas não invadiram as ruas, exceto por tímidos adesivos de carros, com a repetição de cores, slogans e rostos sorridentes.

É claro que as novas regras limitaram a euforia dos candidatos e suas cargas de poluição visual. Sonho com uma Santos com menos lixo em forma de santinhos e outras tranqueiras de papel. Se a cidade já recicla pouco (menos de 2%), imagina o destino cruel dos bueiros a engolirem o que não merecem.

Por outro lado, muitos candidatos pensam que inventaram a roda no mundo virtual. Páginas de Facebook se multiplicaram, pedidos de amizade nos iludem com falsa popularidade, mas permanecem os slogans infantilizados na maioria dos casos. Termos como coragem, ousadia, família e Deus reforçam o teatro em busca do emprego dos céus.

O resultado já se reflete na pesquisa da Enfoque/Jornal Boqnews. A 40 dias da eleições, 55,3% dos entrevistados estão indecisos sobre o prefeito a escolher, segundo a pesquisa espontânea. Na estimulada, quando os nomes dos candidatos são expostos aos entrevistados, os indecisos caem para 36,7%. Em outras palavras, há um desinteresse de parte significativa do eleitorado pela campanha.

O prefeito Paulo Alexandre Barbosa é o maior beneficiado com uma campanha eleitoral em ponto morto. Quando menos atenção for dada aos adversários, maiores serão as chances dos eleitores votarem no piloto automático.

Na pesquisa espontânea, Paulo Alexandre (PSDB) lidera com 22,7%. Marcelo Del Bosco (PPS) tem 2,3%. Carina Vitral (PC do B), 1,1%. Os demais não alcançam 1%. Na pesquisa estimulada, o prefeito está na frente com 36,7%, seguido por Del Bosco, com 5,3%. Depois, Carina Vitral, com 2,3%; Paulo Schiff (PDT), com 2%.

Os dados indicam que, embora seja cedo para previsões consistentes, é possível pensar a campanha a curto prazo. O prefeito não está com a bola toda, se pensarmos que venceu há quatro anos no primeiro turno, com folga maior. Em compensação, os adversários padecem de desconhecimento do público ou de desconfiança. E o tempo talvez seja pequeno para reverter o cenário.

Paulo Alexandre apresenta, conforme a pesquisa, 53,3% de aprovação. mas 29% o reprovam como administrador. Metade dos entrevistados o consideram um prefeito de nota 5 a nota 7. Numa universidade, ele ficaria de exame, não passaria direto. Os números se assemelham à pesquisa anterior, de junho, o que denota relativa estabilidade.

O prefeito atual apresenta o maior índice de rejeição do eleitorado: 10,7%. Mas cuidado: 1) ele é bem mais conhecido do que os demais candidatos; 2) é vidraça por razões óbvias e 3) é um índice baixo para quem lidera a corrida. Um sintoma disso é que 47% dos entrevistados acreditam que Paulo Alexandre vai se reeleger em outubro.

Outra questão interessante é a preocupação do eleitor. 38,1% acreditam que o próximo prefeito deve priorizar a Saúde. Nada mais simbólico, diante de um hospital como os Estivadores, que custou uma fortuna, mas não foi aberto justamente por falta de dinheiro para equipamentos e pessoal, aspectos que deveriam ser previstos e planejados desde que o projeto foi anunciado, no início da atual gestão.

A primeira pesquisa pós-início de campanha eleitoral confirma algumas sensações. A eleição acontece numa cidade acomodada, não exatamente satisfeita. Parte do eleitorado não vê, até o momento, um adversário capaz de derrubar o atual prefeito e se apresentar como uma alternativa real.

Leve-se em conta que há pouco interesse em se informar com profundidade sobre nomes e programas de governo. O passado de promessas ao vento também pesa na desconfiança generalizada.

O próximo passo é a exibição do horário eleitoral gratuito. Difícil crer numa alteração significativa por causa do rádio e da TV, diante do tempo maior do candidato favorito. Até que ponto os demais concorrentes serão criativos com pouco dinheiro e tempo reduzido?

Lamento que a campanha eleitoral não esquente em temperatura mais perto da fervura. O banho maria só empurra os reais problemas para debaixo do tapete e não força um debate contundente sobre o que realmente interessa para Santos. Por enquanto, sorrisos, slogans e tapinhas nas costas não resolvem a equação da urna eletrônica.

Obs.: Leia aqui a pesquisa completa