segunda-feira, 27 de junho de 2016

A eleição em um poema




Marcus Vinicius Batista

Falta um mês e meio para a campanha eleitoral começar, oficialmente. Para quem acompanha política - e ainda acredito que todos deveriam fazê-lo, mesmo para se proteger -, é divertido testemunhar a dança de salão.

Neste momento, é a hora dos flertes, dos blefes, das juras de amor eterno enquanto dure ... até outubro ou ... até a divisão de cargos e salários. Fala-se ao pé de ouvido, espalham-se galanteios, mas pouco se pega na mão, nada se beija, e ninguém aparece na casa dos pais da pretendente para pedir a benção ao matrimônio.

A política, de vez em quando, me faz pensar em literatura. Pode ser daquela ruim, de papel barato e palavrório oco. Mas a política pode ser alta literatura policial, enquanto jogos de cenas, reviravoltas, pistas falsas, profundidade psicológica e vilões difíceis de detectar, até nas entrelinhas.

Peço desculpas pela liberdade em explorar um poema que me vem à lembrança outra vez. Repito o recurso anos depois porque a métrica é repetitiva. E que o poeta, mineiro de Itabira, não me crucifique por desvirtuar sua "Quadrilha".

Em Santos, cidade da piada pronta e das obras atrasadas, "Quadrilha" é apenas o nome do poema de Carlos Drummond de Andrade. Outros sentidos são de sua responsabilidade, caro leitor.

Pois bem, a versão oficial, composta no Paço Municipal, na Praça Mauá:

O PSDB, de Paulo Alexandre Barbosa, amava o PSB, de Fabião e Márcio França, que tentava se apaixonar pelo PSD, de Gilberto Kassab, que procurava amar o PTB, que fingia tolerar o PR, no comando da Prodesan, que dizia amar o PMDB, no vai e vem do namoro e que um dia amou o PPS.

O prefeito lidera as pesquisas e deve se reeleger. O PSB, o PSD, o PTB, o PMDB e o PR, hum..., todos eles sonham com o cargo de vice-prefeito, entre outras fatias do coração tucano (apelei para o clichê de música brega, mas que se encaixa numa campanha de refrão-chiclete).

Agora, o poema, na versão (supostamente) dor de cotovelo:

O PPS, de coração partido, lançou Marcelo Del Bosco, que foi secretário na gestão Paulo Alexandre, machucado de amor assim como o DEM, outra paixão do passado e de governo (será?), que inventou Moysés Fernandes e lidera um movimento de oposição. Em relacionamento aberto, o Democratas ama o PSL, que ama o PSDC, que tenta engatar um relacionamento com PDT e PRP, que - por enquanto - aguardam a flechada do cupido.

Todos ignoram os nanicos de sempre, da direita e da esquerda (se é que existem), com velhas e novas damas de honra, o mais perto que chegarão do altar, sem direito a levar as alianças.

E, juntos, DEM, PSL e PSDC sonham em namorar a Rede, de Evaldo Stanislau, que trabalha sozinho, sem alianças (essas políticas), com dote mínimo e que um dia amou o PT.

Ah, e o PT? Este se amou tanto diante do espelho que se esfacelou como Dorian Gray e só recebeu desprezo de todos os outros personagens desta história.

segunda-feira, 13 de junho de 2016

Rinha de galo




Marcus Vinicius Batista

Os colantes desfilam nas traseiras dos carros. O bate-perna e as conversas ao pé de ouvido se multiplicam no comércio. Comendas e títulos preenchem sorrisos no plenário. Apertos de mãos e abraços a cada encontro na rua, na feira, na universidade, no Centro de Santos.

A campanha eleitoral será curta. Oficialmente, 45 dias. Para os pré-candidatos a vereador, o inverno de junho é uma das etapas da colheita, que termina em outubro. Para os sujeitos com mandato, a semeadura começou há quatro anos.

A legislação eleitoral e suas contas fazem da eleição para vereador uma loteria. Nem os cachorros grandes têm certeza da vitória enquanto a última urna não for computada. No tempo da cédula, testemunhei vereador quebrar escritório de campanha porque dormiu eleito e acordou derrotado. Toda eleição tem aquele que teve votos suficientes, mas morreu na praia por causa da aliança com os amigos errados.

Santos tem a maior Câmara da região: 21 vereadores. Em 2012, foram mais de 450 candidatos, emprego mais concorrido do que vestibular de faculdade pública. Um salário de R$ 10 mil hoje, mais seis assessores, benefícios e, acima de tudo, a síndrome do pequeno poder seduzem neste emprego. Desculpe, emprego e trabalho são conceitos, muitas vezes, diferentes.

O grande número de variáveis torna quase imprevisível a eleição para o Poder Legislativo. Historicamente, a renovação dança entre um terço e 40% das cadeiras. De seis a oito vereadores não se reelegem. Muitos se encaixam na Prefeitura, o que não é de todo mal, claro, para eles.

Observo, com distância segura, a luta dos vereadores. Xadrez, mesmo!, com blefes, acordos, estratégias de marketing, ações de visibilidade, pequenas promessas, propostas que nada tem a ver com o papel de um vereador.

No momento, a briga maior é dentro do viveiro tucano. O PSDB começou a gestão Paulo Alexandre com seis parlamentares. Hoje, tem dez. É rinha de galo, na qual muitos sangrarão na arena. Será bem difícil emplacar dez vereadores; por sinal, muitos pré-candidatos saíram à francesa quando viram as garras do fogo amigo.

Outro problema são os aliados da máquina. Muitos partidos na barca, dificuldades de prever quem ficará no convés, quem terminará no porão. As alianças podem pulverizar as bancadas na Câmara. Ruim para as siglas de médio porte.

E o PT nesta ciranda? O Partido dos Trabalhadores está mais perto dos nanicos do que dos dias de glória. Parece que sobra um acordo de cavalheiros: Telma de Souza entrar na disputa.

Os dois lados ganham. Telma consegue um mandato no momento em que se aproxima da aposentadoria política. Já o PT pode sonhar com uma ou até duas cadeiras na Câmara. Telma ainda tem apoio de parte da militância e de seus eleitores fiéis. Não será a mulher de 20 mil votos, recorde em Santos, mas estaria eleita sem sofrimento.

Confesso que, a cada vez que escrevo sobre vereadores, me lembro da Suécia. Lá, vereador é cargo não remunerado. Se aqui fosse assim, utopia!, a eleição seria mais enxuta e com menos beijos, abraços e apertos de mãos.


quarta-feira, 8 de junho de 2016

De repente, vice

Paço Municipal de Santos/SP
Marcus Vinicius Batista

A campanha eleitoral em Santos está morna, quase em banho-maria. O fogo brando deriva da política nacional fervente, que esfriou os demais níveis, mas também pela disputa local gelada, na qual todos sabem que Paulo Alexandre Barbosa vai se reeleger, salvo um incêndio político (ou um milagre), dependendo de quem vê.

A briga silenciosa acontece nos bastidores. Eventualmente, alguém coloca a cabeça para fora do buraco e grita por atenção. O DEM, por exemplo, lançou Moysés Fernandes como pré-candidato a prefeito. O PPS apostou em Marcelo Del Bosco. Ambos os partidos eram governo até ontem, ou melhor, fingem não continuar hoje.

É difícil acreditar que as duas candidaturas vão durar até agosto, quando a campanha começa de verdade. Del Bosco talvez permaneça na luta, mas com a consciência de que fará, no máximo, o papel de "bom" coadjuvante. O DEM, historicamente, chora, esperneia, ganha um mimo e volta para os braços do pai. Não há qualquer sinal de que este filho saia de casa nesta eleição.

É neste cenário que a indicação para vice-prefeito se encaixa. Enquanto partidos menores se apressam para embarcar na coligação, de olho nos cargos mantidos ou a conquistar, quatro partidos sorriem para pedir, com educação, o cargo de vice-prefeito de Santos.

Um deles é o PSD, de Gilberto Kassab. O ministro já passou por aqui, o partido inchou ao reunir lideranças da cidade, e a propaganda na TV mais insinuou do que deixou claro suas intenções.

O PR abandonou a sutileza e disse com todas as letras, na voz do presidente da Prodesan, Odair Gonzalez, escudeiro de outros tempos na Câmara, agora convidado oferecido para ser vice-prefeito.

O PSB é o convidado dos almoços de domingo. Parece fazer parte da família como parente próximo e de outros carnavais. O PSB tem Márcio França como vice-governador de Geraldo Alckmin. Fabião Nunes, do mesmo partido, é há mais de dois anos o secretário de Cultura. É um nome na mesa há tempos, inclusive por conta do bom desempenho na eleição anterior. 22 mil votos não são para qualquer um.

O PMDB é o azarão, mais para cavalo paraguaio. O então presidente da Câmara, Marcus de Rosis, era o único que costurava com esse objetivo. O falecimento dele enfraqueceu o partido na cidade, já machucado demais com a saída do ex-prefeito Papa para o PSDB.

Sobra, claro, o próprio partido tucano, que hoje detém o cargo de vice. Mas, pela conjuntura política, ser vice-prefeito é importante demais para que as coisas fiquem dentro de casa. Por outro lado, o PSDB ficou adulto em Santos, efeito para quem chega ao poder. Será difícil reeleger os 10 atuais vereadores. Será difícil largar uma moeda de troca, com tantas propostas de alianças.

Quando não se acompanha pouco a política, espera-se pouco do vice. Normalmente, ele é visto como uma peça decorativa, o sujeito que assina a papelada já encaminhada quando o titular do Poder Executivo viaja.

Do jeito que a política brasileira é encarada como assunto para iniciados ou como bravata para a polarização rasteira, a história insiste em nos ensinar que o vice representa, de fato, um cargo tão relevante. Nos últimos 31 anos, três vice-presidentes se tornaram chefe do Poder Executivo no Brasil.

José Sarney, o imortal da Academia de Letras e do Poder, substituiu Tancredo Neves, morto antes de empossado. Já Itamar Franco e Michel Temer receberam seus novos cargos pela disputa política que resultou em impeachment (ou afastamento) dos titulares.

Em Santos, o vice-prefeito era visto, publicamente, como um enfeite na sala, um presente de consolação para um dos partidos que coligaram. Isso mudou a partir da segunda gestão Beto Mansur. Não sei pela visão do então prefeito - conhecido pelo senso de oportunidade - ou pela visão do então vice João Paulo Tavares Papa, aluno certinho da velha escola do PMDB.

Agora, muito mais gente compreende que o vice não é primeira-dama. O vice come pelas beiradas, transita pelas sombras, negocia com o Poder Legislativo, sempre o balcão de negócios, é o chefe de gabinete informal, que transpira poder sem mostrar a camisa suada.

O vice não é aquele que se senta na cadeira durante viagens a trabalho ou férias do trabalho. O vice-prefeito de Santos será, desde o primeiro dia do segundo mandato, o sujeito que tentará acertar uma sucessão tranquila e programada de Paulo Alexandre, que não poderá se reeleger e precisa colocar em prática os sonhos mais ambiciosos, sem o stress de ver a própria sala bagunçada pelas crianças que adotou.

sexta-feira, 3 de junho de 2016

O Clube das Mulheres. Por quê?


Protesto "Por Todas Elas" aconteceu em diversas cidades brasileiras.
Nesta imagem, manifestação em Natal/RN

Marcus Vinicius Batista

Elas eram 200. Poderiam ser mais. Deveriam se multiplicar e atrair os homens para a mesma gritaria. Tem que crescer como movimento, em progressão geométrica, e envolver qualquer pessoa com bom senso.

Elas estavam na Praça da Independência, em Santos, no meio da semana. A praça é o centro das comemorações de campeonatos, o ponto de encontro dos que querem o fim da corrupção e dos que escondem seus preconceitos na política. A praça costuma reunir quem tem algo a dizer.

Elas estavam lá porque não querem deixar de ser quem são. Mulheres. Gente. Pessoas com liberdade para vestir o que quiserem, para serem vistas como iguais, como mulheres, e não pedaços de carne cobertos de tecidos, prontas para o matadouro de um pinto qualquer.

As mulheres - e por que os homens não apareceram? - gritaram, levantaram faixas, caminharam, fizeram barulho em frente à delegacia, assim como milhares foram reclamar da Cultura do Estupro, na avenida Paulista, em São Paulo. O protesto também aconteceu no interior do Estado e nas regiões Sul e Nordeste. A Cultura do Estupro existe, viu, amigo? Não é da natureza humana, sabe se lá o que seja isso quando serve como desculpa para a bestialidade.

O ato se chamou "Por Todas Elas" e foi organizado, claro, a partir do caso ocorrido no Rio de Janeiro com uma garota de 16 anos. Mas elas sabem - e todos deveriam saber - que não é preciso ir muito longe. A Baixada Santista e o Vale do Ribeira respondem por si mesmos.

Nesta sexta, um homem foi preso em Iguape por ter estuprado uma menina de 12 anos dentro de uma igreja. Ela foi atacada antes da aula de catequese e ameaçada depois pelo agressor se abrisse a boca.

Na última terça, uma babá de 33 anos foi estuprada por um homem quando esperava por um ônibus, na Vista Linda, em Bertioga. Ele ainda roubou R$ 250 da vítima.

No final de semana passado, por exemplo, aconteceram dois casos. Uma menina de oito anos sofreu atos libidinosos - juridicamente é estupro desde 2009 - em Bertioga. O autor foi um vizinho, na faixa dos 70 anos. Em Guarujá, outra história. Uma moça de 18 anos foi perseguida e violentada por um sujeito, em um terreno baldio, na avenida Antenor Pimentel.

Nos primeiros quatro meses de 2016, foram 101 casos de estupro na Baixada Santista. A cidade campeã é Praia Grande, com 26 ocorrências. Santos registrou a metade disso, 13 casos. Só que, no mesmo período do ano anterior, foram quatro. O Vale do Ribeira contabilizou mais 57 estupros no mesmo período. É a maior média dos últimos três anos.

Em 2015, as duas regiões registraram mais de um caso por dia. Como sabemos, por pesquisa, que só 35% dos crimes acabam nas delegacias, não é preciso confiar nos números ou fazer tantas contas para entender a "naturalidade" da violência sexual.

Vivemos no país dos 50 mil casos de estupro ao ano. 20% deste total acontecem no Estado de São Paulo, supostamente o mais desenvolvido do Brasil. Vivemos no país onde o número de denúncias, 180, recebe 25 mil chamadas por dia. Mesmo que se desconte os trotes, a quantidade de ligações impressiona.

As mulheres têm que pressionar a classe política. Exigir políticas públicas de curto, médio e longo prazos. Cobrar ações do sistema de segurança política. Reclamar com o delegado responsável por quaisquer casos. E não deixar o assunto esfriar enquanto não houverem respostas adequadas.

Só me pergunto: por que muitos homens não querem falar sobre isso? Ignorância, conivência ou omissão?

domingo, 29 de maio de 2016

O diabo e o PT



Marcus Vinicius Batista

O pacto durou mais do que se esperava. Normalmente, o diabo segue o padrão burocrático dos contratos e vem buscar a alma depois de 10 anos. No caso do PT, foram 13 anos e quatro meses. Talvez uma brincadeirinha do tinhoso com a sigla do partido.

Agora no inferno, o PT tenta curar as próprias feridas. Ficou quase duas semanas em silêncio até que o presidente Rui Falcão deu sinal verde para as críticas ao governo Temer. Uma bravata do tipo "ruim conosco, pior com eles."

O problema é que parte do novo organismo é reciclagem do corpo morto. O PT não tem mais de recolher os cacos para as eleições municipais. O partido vai se apequenar em todo o país. Aí talvez esteja o aviso para o início do tratamento, a aplicação de injeções contra a bipolaridade.

O PT precisa voltar ao século 20. À estaca zero. Isso implica em várias dosagens de remédios diferentes. A primeira delas talvez seja a mais dolorosa: encostar as velhas lideranças. Publicamente, pode ser uma saída honrosa para a turma que achou que participar do jogo significava ser o dono do tabuleiro. Será que o PT aprendeu a lição depois de 13 anos?

Frequentar a mesa das velhas oligarquias, dos velhos coronéis nunca deu margem para ser um deles. O PT quis ser como eles, em nome do palavrão governabilidade e acreditou na bajulação de quem seduz como natureza da própria existência.

As lideranças atuais enterraram o partido. Classificar o PT como esquerda é olhar pelo espelho retrovisor. A condução da economia atendeu e estendeu o governo anterior. Houve avanços nas políticas sociais, mas a política ambiental foi mais pró-concreto do que com os antecessores.

O PT se vê diante da mesma encruzilhada onde assinou o pacto com o diabo. De um lado, fantasiar-se de oposição burra, com os mesmos atores, invejosa dos privilégios que o poder dá, corrompe e toma de volta. De outro, demolir a casa para voltar às origens de alternativa real para a política brasileira. Talvez os tumores sejam grandes demais para uma remoção cirúrgica. Cuidados paliativos para uma morte confortável?

Os pessimistas falam em extinção do partido. Os otimistas - que costumam ser sinônimos de mal informados - apostam na ressurreição, com respeito aos militantes históricos. Mas muitos deles foram espirrados a partir de 2005 quando o mensalão indicou os primeiros sinais de cheiro de enxofre.

O PT não parece, na ressaca Temer, estar disposto a sangrar a própria carne. Ainda sonha, sem falar sobre isso, com o fracasso do governo interino, que seria a prova viva de que Lula retornaria como o salvador da pátria, o messias que hipnotiza as plateias com meia dúzia de palavras de ordem. Mas Lula não é o maior símbolo de quem caiu em tentação?

De tudo isso, resta a ironia que dá prazer ao diabo. Ao assinar o pacto 13 anos atrás, o PT jamais imaginaria que cederia seu lugar para o próprio comprador de sua alma.

sábado, 28 de maio de 2016

Vítima, seu destino é ser culpada


Marcus Vinicius Batista

Sejam 30, 33, 36 ou apenas um agressor sexual, matemática e estatística confirmam o que qualquer pessoa, com o mínimo de decência, tem que saber:

a) estupro é epidemia social em todo o mundo. Esqueça dinheiro, desenvolvimento social ou religião;

b) o machismo não é apenas a única causa, vem acompanhado de impunidade e conivência, inclusive feminina. Há toneladas de pesquisas que indicam o fator impunidade como estímulo à prática do estupro;

c) o sistema de segurança pública, no Brasil (e só para falar daqui, porque o tal primeiro mundo também patina no tema), é falho e estimula seus profissionais a diminuir a importância de um crime que devasta física e sexualmente a vítima, independentemente de seu gênero. Os homens se calam e não vão às delegacias; as mulheres enfrentam mais um degrau na escada da humilhação, de hospitais a postos policiais.

O Rio de Janeiro simboliza o despreparo dos agentes policiais e políticos para combater a violência sexual. Já passou da hora de se perceber que cartazes em ônibus ou em padarias, que telefone para denúncias são esparadrapos para conter a sangria de um ferimento de fuzil.

É claro que um número para ligações tem que existir, mas de que adianta se delegacias especializadas para mulheres fecham em finais de semana em muitos lugares. Muitas cidades sequer possuem essas unidades.

Mais grave é o despreparo de policiais para lidar com o crime sexual. Insensibilidade, proteção ao agressor, redução da vítima à culpada são características de policiais em diversos países. E policiais não são exclusivos. Você se lembra da adolescente que passou 15 dias com duas dúzias de homens numa cela no Piauí? Então, a juíza responsável pela medida acabou promovida depois das denúncias.

Não entendi por que, até o momento, o caso da adolescente estuprada no Rio de Janeiro segue sob investigação da Delegacia de Repressão aos Crimes de Informática, e não da Delegacia da Criança e Adolescente Vítima. As evidências apontam para a desumanização dos policiais e para as humilhações em torno da vítima.

Se a Delegacia de Repressão aos Crimes de Informática precisava de réu confesso, já tem pelo menos um deles, que veiculou um dos vídeos na Internet. Por que, até o momento, celulares e outros equipamentos envolvendo os depoentes não foram apreendidos para averiguação? A função desta delegacia acaba aí.

Por que os políticos cariocas - leia-se Governo do Estado - tão presentes diante das câmeras para falar de combate ao tráfico, UPPs e de segurança nas Olimpíadas sumiram por encanto? Nenhum deles vai bater na mesa, tomar as rédeas e colocar o problema no topo da lista? Ou os engravatados preferem esperar que a história entre para a História com o devido esvaziamento de importância?

O estupro psicológico se agrava na forma que os policiais conduzem o processo. Três acusados foram ouvidos, obviamente negaram e foram liberados. Não apontaram outras pessoas? Não explicaram em detalhes o que fizeram naquele período de dois dias? Não houve contradição alguma entre os depoentes? Nada?

Impressiona também a velocidade com o delegado responsável pelo caso colocou em dúvida a versão da vítima. O que houve ali, então? O que as imagens mostraram, uma pegadinha do Malandro? Como acreditar assim tão rapidamente em uma das versões, todas masculinas, e descartar, por tabela, a história da vítima?

O depoimento da adolescente de 16 anos é outra aberração jurídica. Como um garota, vítima de estupro - e mesmo que não o fosse -, é ouvida numa sala com quatro policiais homens presentes. De que adianta uma psicóloga e uma delegada perante um constrangimento desta ordem?

O delegado Alessandro Thiers declarou à imprensa que a adolescente precisa passar pelo exame de corpo de delito. Agora, uma semana depois? O que ele pretende encontrar, que tipo de vestígios, fora as imagens e depoimentos?

O delegado e seus superiores se arrastam para fingir que cumprem a legislação. Em 2009, o Código Penal foi alterado, e atos libidinosos - além da conjunção carnal - passaram a ser considerados crimes de estupro. A lei é semelhante a dos Estados Unidos que, diferentemente, chama de relação sexual não consentida.

O caso do Rio de Janeiro engordou a lista de histórias que percorrem o mundo. E, em todas elas, prevalece o espírito masculino de dominação, manifestado no constrangimento criado pelas autoridades policiais, simpáticos com os agressores e desconfiados da vítima.

Afinal, ela pode ter inventado tudo. No Brasil, não existem dados sobre isso. Sabemos que apenas 35% dos casos são reportados às delegacias. Mas os Estados Unidos têm: somente 1,8% das acusações de crime sexual foram inventados pelas supostas vítimas, quase sempre para esconder traições.

Eu me pergunto: esconder traição com 30 homens? Só a falta de humanidade para crer nesta hipótese.

quarta-feira, 25 de maio de 2016

Notórios e notáveis


Marcus Vinicius Batista

Ainda não sei se prevalece a soberba ou a negligência, mas o fato é que o ministério de Michel Temer se tornou capaz de gerar más notícias todos os dias. São incêndios que poderiam ser evitados se o grupo de "notáveis" não se comportasse como um mero grupo de notórios, o que são de fato, conhecidos - em sua maioria - pela imagem carcomida na política.

O último episódio foi a visita de Alexandre Frota, mais a turma do Revoltados Online em pequena participação na cena midiática. Soou como piada pronta a presença de Frota e sua lista de propostas para a Educação brasileira. Um encontro que poderia ser evitado, ainda mais pelos motivos que o levaram a acontecer.

Toda ação política, já pregava Napoleão Bonaparte há 215 anos, precisa de uma avaliação das consequências sobre a chamada opinião pública, expressão essa mais moderna. A tentativa de agradá-la, seduzi-la e domesticá-la é parte da cartilha da propaganda política. Todo governo, pensando aqui de maneira maquiavélica, precisa parecer bom.

É óbvio que parte da imprensa olhará o governo sempre pelo prisma negativo, seja por má fé, seja porque ainda respira a velha máxima do jornalismo como fiscalização do poder. Neste caso, uma minoria, reconheçamos. Mas uma imprensa amiga não basta se o próprio governo, por meio de seus ministros, não colabora.

Houve fatos previsíveis, como as denúncias e a indústria de vazamentos contra membros do primeiro escalão. Não há como se surpreender com a exposição de políticos da velha guarda diante de notórias investigações contra eles. Romero Jucá que o diga! Aliás, a comunicação do Governo tentou encobrir, de maneira amadora, a saída do ministro ao usar a palavra "afastamento", em vez de "demissão". Jornalistas trouxas ou mal versados no idioma engoliram sem mastigar.

É o preço também da convivência com velhas raposas, como José Sarney, que nunca deixou os corredores do poder, lugar que frequenta desde 1955. Não seria agora se abandonaria o osso. Temer, político das sombras desde a década de 60, talvez não esteja acostumado com os holofotes que ficam ligados sobre a presidência como reality show 24 horas. É outro exercício de poder, caro ex-vice-presidente.

O problema se dá em outra ordem. Os ministros não seguem as orientações da presidência. Cada um faz o que quer no relacionamento com a mídia. Na prática, são deputados federais de baixo clero embriagados com a visibilidade repentina. Uma coisa é o blablablá de um parlamentar de pequena relevância. Outra coisa é a enxurrada que o palavrório de um ministro pode provocar.

Não se vê uma cartilha de posições conjuntas e coerentes. Ministros se atrapalham em entrevistas, tagarelam demais e obrigam a Presidência da República a uma operação abafa todos os dias. Quando começarão as sessões de midia training?

O Ministro da Saúde, Ricardo Barros, foi um exemplo de falta de treinamento para lidar com a imprensa. Além de dizer que o SUS precisava diminuir de tamanho, Barros estava mal informado sobre os limites da Constituição Federal a respeito do tema. O equívoco avolumou a atenção sobre ele, que defendeu ainda a fiscalização menos rigorosa sobre planos de saúde. O maior doador de campanha dele é presidente de uma empresa do setor. A imprensa só juntou lé com cré.

O Governo Temer não soube lidar também com a polêmica em torno do Ministério da Cultura. Diante de um argumento pífio, a redução de gastos cortando uma pasta que significa 0,38% das despesas, Temer reforçou o olhar feio de artistas para a quase ausente política pública para a área.

Acuado, o presidente nomeou um diplomata desconhecido fora do Rio de Janeiro e assinou embaixo o erro quando retomou o status de Ministério. Crise que poderia ter sido evitada. Sorte dele que os cientistas não têm a mesma habilidade para a comunicação.

Compreendo que seja difícil estabelecer uma estratégia eficiente de comunicação quando o governo provisório-definitivo é uma colcha de retalhos em nome do palavrão governabilidade. Na prática, qualquer presidente - e Temer não seria diferente porque é cria do modelo - precisa de coalizões para governar. Dilma, salvo a crise econômica, apanhou toda a vida de um Congresso com 28 partidos, clientelista e afundado em corrupção. Os cúmplices traíram o Governo.

Os ministérios de Temer foram distribuídos por critérios político-partidários, em acordos que se mostram cada vez mais transparentes, a cada gravação que cai no colo da imprensa. A negatividade do processo político é inerente às reações de um governo que entrou pela porta dos fundos, pelo menos a parte que embarcou de carona. A outra parte já estava por lá, no lamaçal.

O Governo Temer deveria prever que a fase é de transição. Que a escolha de figuras notórias, e não notáveis, geraria um impacto de difícil controle. Mas optou por assumir risco mediante os interesses em torno da tomada de poder.

O presidente interino foi à TV para pedir para paz no trabalho. Isso não acontecerá tão cedo. Ele não tem carisma tampouco legitimidade, pois está conectado - na visão de parte da opinião pública que queria a saída do PT, mas tolera a corrupção por afinidade ideológica - ao governo anterior. Temer virou alvo para adversários e para os hipócritas.

Parte da imprensa vai bater nele porque é de sua natureza. A turma da bajulação permanecerá por mais algum tempo alimentando a polarização mortadela-coxinha, impeachment-golpe, pouco vale o nome para a cortina de fumaça.

A questão não é essa. A situação seria um pouco melhor se o fogo amigo ficasse sem munição. Além das denúncias de corrupção já sabida, Temer ainda precisa pegar a mangueira para abaixar a chama da arrogância e da vaidade de membros da gangue, convidados por ele para se sentar à mesa. Esperava mais do poeta-presidente.