sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Quem se importa?


Por Vanessa Pimentel* 

Vocês os conhecem?

Ricardo Ferreira Gama, 30 anos. Auxiliar de limpeza na Unifesp, em Santos. Não. Não o conheço. Apenas ouvi e li a história do cara que foi assassinado em frente a sua casa na rua Silva Jardim.

Amarildo de Souza, 42 anos. Desaparecido há um mês e um dia, desde que policiais da UPP da Rocinha o levaram para averiguação. E não. Também não o conheço.

Fulano da Silva, Sicrano de Souza, Josés e Marias. Todos desconhecidos e me pergunto: até quando é necessário conhecer alguém para me importar com a situação dela?

Não está no manual do bom caráter, na voz do inconsciente ou até mesmo na Bíblia, amar ao próximo como a ti mesmo? Não, não que isso seja amor, santidade ou coisa parecida, mas se importar com as pessoas além lar faz parte da convivência em sociedade e de quem diz se preocupar com o futuro do mundo.

Não julgar. Pesquisar, apurar, divulgar e, com isso, ajudar, talvez seja esse um novo verbo para o Jornalismo.

Vejamos a crise da imprensa, as demissões, junções de revistas e conteúdos. Jornalistas insatisfeitos, não apenas com salários, mas com o conteúdo que produzem na obrigação do factual. As mesmas fontes, as mesmas notícias, as mesmas pessoas supostamente importantes.

Chegam as redes sociais. SOCIAIS. Dando voz ao povo. O que não daria furo nem reportagem na grande mídia ganha espaço e voz através de compartilhamentos de pessoas comuns que se identificam com a causa e não assistem mais aos jornais por não se verem representadas ali.

O fato sem importância cresce, ganha espaço, protestos, voz e, então, imprensa. A voz do povo vira fonte, a morte do cara desconhecido em situação estranha, página principal, e as autoridades responsáveis são obrigadas a se mexer.

As redes sociais vieram para lembrar aos jornalistas dos seus sonhos no banco da faculdade, da missão assumida com a tal da "imparcialidade", ainda que não exista, e isso serve para que a atenção dada ao magnata seja a mesma oferecida ao vendedor ambulante. Andam mostrando que o povo não é tão burro quanto parece e que se as grandes estruturas não ouvirem o que "vem de baixo", novas, pequenas e fortes estruturas vão se formar e juntas, criarão sim, uma nova maneira de informar.

Vejamos como exemplo a onda de protestos que começou em uma rede social. Será que a voz do povo é mesmo a voz de Deus e ela está começando a falar mais alto e incomodar quem gostava do silêncio? Se a montanha não vai a Maomé, Maomé vai até a montanha.

Será que os jornais vão acordar para essa nova realidade que se apresenta ou vão continuar demitindo, apenas para manter a mesma forma de produção? Será que vão lutar contra ou se juntar aos NINJAS? Será que esse exército cresce?

Um milhão de pessoas nas ruas do Brasil cantando o Hino Nacional para mostrar a vontade de mudar. E saíram, saímos daqui! A morte de Ricardo teria uma investigação decente se as redes sociais não tivessem "compartilhado" o caso dele? E Amarildo? Pedreiro e pescador nas horas vagas seria agora seu conhecido?

Vocês os conhecem?

*Vanessa Pimentel é estudante de Jornalismo da UNISANTA.

terça-feira, 13 de agosto de 2013

Obrigação e mérito

Ricardo Ferreira Gama, em imagem antiga

A morte de Ricardo Ferreira Gama, de 30 anos, engrossa o cardápio de exemplos sobre como o Estado e seus agentes públicos costumam se comportar em momentos de crise. A postura envolve uma série de características que se repetem na crença de que somos crianças abertas a ouvir o rosário de histórias da carochinha. 

Polícia Militar e Polícia Civil, depois de desdenhar testemunhas e se apressar para enterrar a história no rodapé de seus arquivos mortos, resolveram se mover. Por que a mudança? No circo do óbvio, as duas corporações saíram da hibernação diante do atestado de paralisia exposto não apenas pela imprensa, mas também por centenas de pessoas nas redes sociais.

Há cinco dias, a Polícia Militar falava em falta de provas. Engavetou um inquérito preliminar. A Polícia Civil, por meio de um de seus delegados, jurava não ter visto sinais de agressão no auxiliar de limpeza da Unifesp.

Para amenizar o impacto da negligência, as duas instituições partiram para a estratégia de sempre: transformar obrigação em mérito. A Polícia Civil enviou para Santos um delegado do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa, mais um grupo de investigadores. O crime aconteceu há 11 dias. A Polícia Militar também mudou de ideia. Agora, encaminhou o caso para a Corregedoria e para a Secretaria de Segurança.

A metamorfose também contaminou a própria Unifesp. Depois de quase duas semanas, a universidade largou o bastão dos omissos e divulgou nota oficial. A instituição resolveu, agora, repudiar o crime e oferecer ajuda à família do auxiliar de limpeza.

Para completar a redundância, a Unifesp pretende discutir a segurança do bairro com as autoridades. Após tantos assaltos, foi preciso aparecer um corpo para que a instituição se mexesse e entendesse a urgência de pensar a violência além da retórica.

Quando o mérito é insuficiente para mascarar obrigações, a ordem é avançar na ilusão da caridade. Neste sentido, é necessário falar em colaboração e deixar que isso soe como favor. Inverte-se a lógica da acusação. São curiosas, por exemplo, as declarações do advogado dos policiais.

Alex Ochsendorf, que foi policial militar enquanto estudava Direito, disse, em entrevista ao jornal A Tribuna, que os PMs “disponibilizaram os números de seus respectivos telefones e estão abrindo a intimidade deles para provar que não têm participação no crime ou nas supostas ameaças após a morte de Ricardo.”

É parte do espetáculo jurídico o blefe dos advogados. Mas é um insulto à inteligência crer que vamos engolir como favor as informações fornecidas pelos policiais. Eles estão sob investigação. Precisa dizer mais?

Além de nos conceder favores, transformar obrigação em mérito implica em cuidar das palavras. Trocá-las. Acariciá-las. Ajeitá-las para diminuir a gravidade dos fatos. Para o advogado dos PMs, as lesões no rosto do auxiliar de limpeza foram reflexos do “estado alterado” da vítima. O que isso significa? Que Ricardo se debateu a ponto da cabeça dele atingir as mãos dos PMs?

Enquanto todas as instituições tentam encenar seus papéis no teatro de sangue, os estudantes ficaram com o ônus da vida real. Muitos universitários estão fora da cidade ou morando em casas de amigos. Um deles, que presenciou a abordagem policial, fez – segundo reportagem de Bruno Lima, no jornal A Tribuna – um pedido de inclusão no Serviço de Proteção às Testemunhas, programa ligado ao Ministério da Justiça.

Para que mérito e obrigação não se diluam em impunidade, é fundamental que a história seja acompanhada não apenas pela imprensa, mas por todos nós. A questão não é julgar e condenar os policiais por antecipação. Eles precisam realmente provar que não mataram Ricardo. É direito deles á defesa. Mas, no mínimo, precisam retornar à academia porque dezenas de estudantes testemunharam uma lista de erros crassos de abordagem policial.

Só não espere das instituições a extinção da inércia. A cultura da paralisia está enroscada até nas tripas do poder. Ela pode se manifestar também pela transferência de responsabilidade. Coincidência ou não, um grupo de pessoas, composto por juristas e religiosos, além de representantes de entidades que trabalham com vítimas de violência, vai entregar essa semana uma carta ao governador Geraldo Alckmin.

O documento pede a criação emergencial de uma política de combate à tortura. A carta tem relação direta com o Sistema Nacional de Prevenção e Combate à Tortura, que deve ser implantado em todos os Estados. Sabe o que a Secretaria de Justiça de São Paulo disse ao jornal Folha de S.Paulo? O assunto é de responsabilidade da Assembleia Legislativa. Só nos resta esperar quem ficará com o mérito depois da obrigação cumprida.

Obs.: A Polícia Militar afastou, na última terça-feira, dia 13, os três policiais que abordaram Ricardo. Só para constar, é um procedimento obrigatório, pois o trio está sob investigação. 

Quem matou Ricardo?



O medo e a indignação uniram estudantes e professores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Muitos vestidos de preto, eles saíram em passeata na última sexta-feira, em protesto contra a morte de Ricardo Ferreira Gama, de 30 anos. 

Ricardo foi executado com oito tiros na madrugada de 2 de agosto, na porta de casa, na rua Silva Jardim, na Vila Mathias, em Santos. Os assassinos eram, segundo testemunhas, quatro homens, em duas motos. Ele trabalhava como auxiliar de limpeza na Unifesp, que fica na mesma rua.

Ricardo foi abordado por policiais militares quando estava em frente ao campus, dois dias antes da execução. Muitos alunos faziam imagens dos PMs. Segundo os estudantes que testemunharam a abordagem, um dos policiais xingou Ricardo, que devolveu a ofensa e, por conta disso, passou a ser agredido pelos PMs.

O problema é que os estudantes registraram a agressão com seus celulares. Como Ricardo acabou na viatura, muitos universitários resolveram segui-lo, inclusive por medo da repetição do caso Amarildo, pedreiro que foi detido por PMs no Rio de Janeiro e desapareceu, em 14 de julho.

Os universitários peregrinaram por dois distritos policiais até encontrarem os PMs na Santa Casa de Santos. Ricardo teria sido liberado por negar a agressão. Em 1º de agosto, Ricardo pediu que os estudantes saíssem da história porque havia sido ameaçado em casa.

O abuso de poder teria outros desdobramentos. Sem identificação, pessoas entraram na universidade para pedir as imagens do dia 31 de julho. E novas ameaças foram feitas contra universitários.

Depois da morte de Ricardo, muitos universitários estão apavorados. Um deles, cujo nome não pode ser revelado por razões óbvias, passou a dormir na casa de uma professora. Ele foi ameaçado de morte. Outros estudantes evitam se identificar em entrevistas ou nas redes sociais pelo mesmo motivo. Temem ser perseguidos quando estiverem sozinhos.

A Polícia Civil não viu ou ouviu nada. Em entrevista ao repórter Bruno Lima, de A Tribuna, o delegado-titular do 4º DP, Rubens Nunes Paes, disse que “desconhece as agressões físicas e as ameaças feitas pelos PMs”. A morte de Ricardo vai engrossar a estatística de casos não resolvidos? De cada dez assassinatos no Estado de São Paulo, nove não tem solução.

Já a Polícia Militar se apoia na velha tática de desqualificar a vítima. Para a PM, Ricardo estaria envolvido em tráfico de drogas. A resposta oficial toma como base o relato de policiais, que teriam atendido denúncia de tráfico na rua Silva Jardim, perto da casa da vítima. Como se não houvesse várias bocas de fumo no bairro, um dos mais pobres da cidade. Além disso, o comando da PM abriu investigação preliminar, já concluída por falta de provas contra os policiais que abordaram Ricardo.

Até quando a Polícia Militar vai resolver com velocidade espantosa as suspeitas que envolvem seus membros? A corporação vai aceitar as acusações de que existem, entre seus membros, bandidos de farda, sujeitos que mancham a roupa que vestem?

Ricardo possuía quatro passagens pela polícia, duas por tráfico e duas por receptação. Vizinhos e colegas da universidade dizem que o auxiliar de limpeza tinha mudado de comportamento. Isso teria incomodado, inclusive, policiais corruptos que recebiam presentes.

Pela lógica da execução, o passado assegurava o direito à aplicação de sentença de morte. Até quando a PM vai conviver, como se não fosse com ela, com as denúncias de atos de grupos de extermínio, que julgam, condenam e executam em seus tribunais da informalidade? Ou a ordem é aceitar, como lei do cão, que toda sociedade seja obrigada a ter seus Amarildos e Ricardos?

Obs.: Assista ao vídeo que mostra Ricardo dentro da viatura da PM. 

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

O estupro moral


Uma mulher é estuprada a cada 12 segundos no Brasil. No Estado de São Paulo, foram quase 13 mil estupros em 2012. Santos registra a média de 10 casos por mês. Sob qualquer ângulo, a violência sexual é uma epidemia. Poderia encher esta coluna de dados estatísticos que reforçariam a gravidade do problema, como fiz em dois textos no mês de maio. 

A violência sexual é uma doença democrática, que não discrimina classe social, lugar, idade ou religião. Isso mesmo, religião. A fé, misturada com política rasteira, é o que travou nos últimos meses os primeiros passos de uma política nacional contra a violência sexual.

A presidente Dilma Rousseff, depois de alguns escorregões na área da saúde, acertou ao sancionar integralmente a lei que regulamenta o atendimento do Sistema Único de Saúde (SUS) às vítimas de violência sexual.

A lei estabelece que o atendimento deve incluir: 1) diagnóstico e tratamento de lesões; 2) a realização de exames para detectar doenças sexualmente transmissíveis e gravidez; 3) fornecimento de informações sobre os direitos legais da vítima e sobre todos os serviços sanitários disponíveis; 4) apoio dos profissionais de saúde para o registro policial do crime; e 5) fornecimento de contraceptivos de emergência às vítimas de estupro.

A pílula do dia seguinte é que atiçou a intolerância da bancada da bíblia, desconectada para políticas sociais, coesa eventualmente para acariciar os próprios interesses morais e econômicos. O argumento é que a pílula seria um estímulo ao aborto e facilitaria a legalização da prática no Brasil.

O Governo Federal prometeu encaminhar ao Congresso um projeto que troca o termo “profilaxia da gravidez” por “medicação com eficiência precoce para a gravidez decorrente de estupro”. A decisão atende à reivindicação de entidades católicas e evangélicas. O próprio Ministério da Saúde reconhece que a mudança na lei evitará interpretações sobre o estímulo ao aborto.

O problema não é a troca de palavras. São detalhes até certo ponto abstratos diante das pressões de igrejas de religiões variadas, que mobilizam parlamentares para pressionar o Governo. Na prática, os deputados exercitam o moralismo de conveniência, virando as costas para um problema social profundo, enraizado numa cultura de base machista. Nenhum deles levantou a mão ou abriu a boca para falar em combate à violência sexual.

Não houve surpresas, por sinal. É redundante reclamar da necessidade de Poderes laicos. Soa utópico em um país que permeou sua história pelas relações – por vezes, promíscuas – entre religião e política de Estado.

O que incomoda é perceber que, diante de interesses políticos mesquinhos, pouco se avança no sentido de proteger e dar assistências às maiores interessadas: as mulheres estupradas. Mulheres que precisam mendigar atendimento em delegacias, até porque as unidades especializadas fecham nos finais de semana, dias de maior incidência de violência sexual.

As vítimas são, muitas vezes, obrigadas a retornar para casa e conviver com o agressor, em sua maioria, parentes, vizinhos ou moradores próximos. O sistema de abrigos é insuficiente e falho.

Além da ausência de estrutura, as mulheres precisam engolir a seco o comportamento cultural que se esconde no estupro e que se traduz na ideia de que elas provocaram os agressores. Logo, foram estupradas por merecimento. É assustador ouvir homens – e muitas mulheres – dizendo: “Ela estava de shorts. Pediu para ser estuprada!”

A canetada de Dilma Rousseff é um passo importante para que o país caminhe para reduzir os índices de violência ou, no mínimo, fornecer maior conforto para as vítimas de uma experiência tão traumática. Mas não tenho fé que os falsos profetas – com mandatos ou não – abandonem o moralismo e enxerguem a questão com humanidade.

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

O frio dos invisíveis


O frio colocou a população de rua novamente na pauta política. O tema, invisível no cotidiano social e ignorado em campanhas eleitorais, reapareceu com o anúncio do acordo entre a Prefeitura de Santos e a Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (FIPE), ligada à Universidade de São Paulo. 

Pelo contrato, a Fipe vai produzir – a partir de setembro – um censo sobre o número de moradores de rua na cidade. O serviço vai custar R$ 221 mil aos cofres públicos municipais. Não é a primeira vez que a administração municipal tateia um problema que finge acompanhar nos últimos 10 anos.

O censo é um passo, mas a política que o cerca provoca algumas dúvidas. A Prefeitura sabia, por exemplo, que a Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), sediada em Santos e com cursos nas áreas de Psicologia e Serviço Social, está produzindo uma pesquisa sobre a população de rua?

As informações estão no site da instituição, o assunto saiu na imprensa local, e servidores municipais se encontraram com professores e estudantes da universidade este ano. A promessa é que os resultados sejam divulgados em agosto, antes mesmo do início dos trabalhos da Fipe.

A Secretaria de Assistência Social estimava, há cerca de duas semanas, mil pessoas na rua. Basta andar pela cidade, dos bairros nobres da orla aos menos abastados, para constatar a grande quantidade de gente morando embaixo de marquises, perto de armazéns e nas calçadas.

Na primeira gestão de João Paulo Tavares Papa, a Prefeitura falava em 300 moradores de rua. O limite dos abrigos era de 150 vagas. Na segunda gestão, o número de gente desabrigada dobrou. O número nos abrigos permaneceu igual; aliás, o mesmo até agora.

O atual prefeito esperou sete meses para anunciar as medidas, exatamente no período mais frio do ano. Por que não se baseou na fábula da formiga e da cigarra e acelerou no verão? Se pensarmos que o censo começará em setembro, o trabalho será concluído somente no início de 2014. As dores do frio de hoje, de amanhã e da próxima semana vão aguardar?

A Fipe deverá descobrir o que assistentes sociais, psicólogos e operadores sociais comentam nos corredores da Prefeitura depois de ouvir no atendimento nas ruas. Parte desta população marginalizada tem origem em outras cidades da região, e muitos vieram de São Paulo.

Santos vai cobrar que as cidades vizinhas assumam responsabilidades? Haverá a implantação de políticas públicas metropolitanas? Até agora, a agência-cabide só gastou saliva, sorrisos e cafezinho. A Região Metropolitana ainda é um nome bonito para os jornais e a classe política.

De concreto, a Prefeitura inaugurou um centro de acolhimento para os moradores de rua, visando atendimento diurno. O imóvel pertence ao Albergue Noturno e fica na rua Conselheiro Saraiva, na Vila Nova. O aluguel custa R$ 3 mil por mês. Havia a necessidade urgente de um espaço com estes objetivos.

No entanto, o centro de acolhimento levanta outra dificuldade. E a mão-de-obra especializada para atender os moradores? Os espaços de assistência social operam no limite da capacidade. O orçamento da pasta não permite voos substanciais. Em abrigos noturnos, é comum apenas dois funcionários para cuidar de até 30 pessoas, muitas delas dependentes químicos.

A impressão é que o pacote reproduz o velho método de política de Governo, que – por conveniência – deixa no canto o passado e não projeta a longo prazo. Isso sem falar na necessidade de contexto, que inclui diálogo com demais áreas da Prefeitura, para que o morador deixe em definitivo sua condição de miserabilidade.

Se isso acontecer, teremos política pública, que ultrapassa a validade de quatro anos. Até porque, para quem utiliza uma marquise como teto do quarto sem portas e janelas, as noites têm sido longas demais.

sexta-feira, 26 de julho de 2013

A Escolinha do Passe Livre

O presidente da Câmara dos Deputados no Maracanã

O Movimento Passe Livre entrou para a história. O grupo foi responsável pelo gatilho que desencadeou uma série de mudanças políticas. Ou, pelo menos, fez com que muitos políticos se movessem para congelar ou reduzir tarifas de ônibus pelo país. 

Um mês e meio depois, ainda temos efeitos. São Vicente, até então inerte, anunciou na semana passada a redução nas tarifas das lotações. O preço caiu de R$ 2,70 para R$ 2,60. Paulínia, na região de Campinas, foi a quinta cidade brasileira a implantar o passe livre. Na cidade de 87 mil habitantes, a passagem custava R$ 1.

É claro que o movimento não esperava ter controle da situação. Colocou em prática uma pauta política cristalina, inclusive dialogando com outros setores. O problema é que ninguém poderia prever que outro grupo exploraria comercialmente a ideia do passe livre. Esta turma não teve qualquer sutileza para roubar um conceito. Eles falam até em patentear o custo zero, mas o verbo da frase anterior é o que mais se aproxima de uma verdade concreta.

Este novo movimento é ousado nas suas aspirações. Não discute sobre ônibus nem pensa em transportes terrestres ou de massa. O novo Passe Livre finge se renovar na roupagem para justificar sua existência. Até para não atrair a ira dos adeptos do Passe Livre original (bem mais decente, óbvio).

Os integrantes do Passe Livre Corporation não se vestem casualmente. Só terno e gravata. Sabem que a alma do negócio é se espalhar pelo país. A sede é Brasília, mas há filiais rentáveis no Rio de Janeiro e em São Paulo. Monitores e aprendizes se multiplicam por cidades menores, mas são vistos como amadores, que entendem os carros oficiais como o auge do passe livre.

Para os profissionais da Passe Livre Corporation, o céu é o limite, com o perdão do clichê. Transporte gratuito é sinônimo de aviões da Força Aérea Brasileira e helicópteros. Entre eles, família não são colegas de protesto. Prova de amor é carregar empregada, amigos, noiva, netos. Manifestação só em casamento, na arquibancada do Maracanã, na casa de praia.

A Passe Livre Corporation investe na formação contínua de seus integrantes. É fundamental manter as conquistas, sempre custeadas com o bolso alheio. O curso não aceita qualquer um. Só se entra por indicação, seja das urnas, seja dos cargos distribuídos pelas alianças da “governabilidade”.

No entanto, é preciso esclarecer que existem duas castas. Os alunos-sócios indicados pelas urnas possuem mais prestígio e ganham o direito de usufruir primeiro da gratuidade no transporte aéreo. Aviões e helicópteros sempre à disposição. Já os donos de cargos têm carteirinhas provisórias, uma espécie de meia entrada renovável a cada quatro anos.

Com acesso restrito, a Escola Passe Livre – braço educacional da Passe Livre Corporation – mantém a fama de rigorosa. Entre as disciplinas, Filosofia, cujas aulas focalizam a relação entre o público e o privado. Na corrente patrimonialista, não existe separação entre os dois termos. Tudo é de todos. Nada é de ninguém. Filosófico, não?

Os alunos-sócios aprendem também a arte da interpretação. Entre as aulas, 1) fingir surpresa para a imprensa; 2) alegar compromisso oficial; 3) falar em devolver dinheiro (ou reciclar verbas de terceiros, quartos e quintos); 4) argumentar que todos fazem isso; e 5) criar novos fatos que apagarão os anteriores.

As boas e as más línguas fofocam que o mestre mais querido se chama Renan Calheiros. Ele pratica o Passe Livre desde Alagoas, onde começou os estudos. Mas, para os calouros, divide a popularidade com o presidente da Câmara dos Deputados, Henrique Eduardo Alves, que oferece jantares para novos e velhos associados.

O último Passe Livre gastronômico custou R$ 28,4 mil e reuniu 80 pessoas, cerca de R$ 355 por cabeça. Para Henrique Eduardo Alves e seus convidados, passe livre. Para nós, a conta da merenda.

sexta-feira, 19 de julho de 2013

O ato contra Deus


Os médicos estão deslocados. Derrotados politicamente, eles assistiram à dez categorias da área da saúde vibrarem com o veto parcial da presidente Dilma Rousseff ao Ato Médico, depois de 11 anos de tramitação. Os médicos, com perdão da generalização, reforçaram a imagem de arrogantes, pela postura dos conselhos, que optaram por espernear a negociar. A promessa é brigar no Congresso Nacional pela medida. 

As reações são sintomáticas. A doença, identificada como corporativismo extremus, se manifesta também por conduzir os homens de branco ao isolamento. Ao mesmo tempo, os sinais apontam para cegueira social, interpretada pelos adversários como a cicatriz do Complexo de Deus.

Um exemplo foi quando a categoria resolveu ir às ruas para protestar, não pelo Ato Médico, claro, mas contra a proposta de importação de médicos de outros países como Cuba, Portugal e Espanha. Soou patético ver profissionais e estudantes carregando faixas e cartolinas, sem apoio mínimo da população e completamente alienados à pauta pública dos protestos pelo país.

A doença, repito, eleva a miopia sobre o que acontece a sua volta. Os médicos perderam a oportunidade política de atrair à opinião pública quando o Governo fez a proposta de importar colegas. A ideia integra a lista de invencionices mirabolantes da gestão Dilma que, assim como as anteriores, reage por reflexo, sem mexer nas vírgulas que confundem a leitura do país.

Os médicos jogaram no lixo séptico a chance de expor um governo que finge escutar as ruas, enquanto responde por propostas natimortas e inúteis. A categoria embarcou numa dose de remédios pontuais, que pouco ou nada abalam o debate real, urgente, que merece terapia intensiva.

Ninguém entendeu, para variar, os garranchos médicos, que alertavam para as deficiências estruturais do sistema de saúde. Eles se comportaram como crianças birrentas, que batem os pés contra a ausência de doce no almoço, em vez de duvidar da pedagogia da mãe. No caso, de nome Dilma.

Até o momento, o Governo venceu – com doses homeopáticas – o tratamento dos médicos dado às duas questões. A história mostra que quem luta em duas frentes de batalha simultaneamente morre de inanição.

A gritaria médica segue anêmica. Os médicos, em reação febril, misturam e, por conta disso, diluem argumentos, que reforçam o corporativismo como a doença que corrói a categoria. Todos os grupos tendem ao espírito de corpo, raro cortar a própria carne, mas não significa virar as costas para outros problemas nacionais. E muito menos se fechar ao diálogo com outras categorias da saúde, que fornecem suporte nos hospitais e clínicas.

Propor dois anos de dedicação ao SUS para recém-formados, trazer cubanos, espanhóis, portugueses ou alienígenas, fingir que não faltam médicos no país, desviar o termômetro que avaliaria a má formação dos universitários, tudo são velhos sintomas requentados para desinformar os pacientes.

Os pacientes são os que esperam na fila porque não tem dinheiro. Os pacientes somos nós que possuímos planos por conta de nossos empregos e esperamos menos meses por consultas. Os pacientes somos todos que não queremos mais cuidados paliativos de uma estrutura que parece saudável por fora, mas está repleta de tumores em seus órgãos.

Os pacientes sofrem de males reais, assim como os médicos, que infelizmente preferiram inocular em si o corporativismo tipo 3, variação da enfermidade que delega aos representantes a prática política nos corredores do poder, e não da vida dolorosa nos postos de saúde.