quarta-feira, 6 de julho de 2011

O grito dos professores

Os professores gritam por socorro. As reclamações saltaram os muros e as grades das escolas e se transformaram em placas, cartazes e sola de sapato gasta nas ruas. Com as marchas em moda, o professorado resolveu, em várias partes do país, expor a própria condição, num ato de desespero, que deseja a mobilização da sociedade.

No Rio de Janeiro, os professores fizeram greve na rede estadual. Em Santa Catarina, protestos contra o Governo, que se recusa a conversar sobre novas condições de trabalho.

É redundante, mas necessário lembrar que os salários dos professores são vergonhosos. A desvalorização da profissão remete ao regime militar há quase 50 anos. Nunca se falou tanto de educação como motor de desenvolvimento, ao mesmo tempo que a contradição do discurso está personificada em profissionais mal pagos e com formação deficiente. Justamente quem deveria colocar o motor para funcionar na potência máxima.

Na Baixada Santista, a condição do professorado também se mostra absolutamente discutível. Santos, a principal cidade da região, enfrenta uma crise de mão-de-obra na rede municipal. O déficit é, no mínimo, de 230 vagas, a ponto de a secretaria dar a partida em um processo de convocação de emergência.

A falta de professores em Santos se deve, entre outras razões, à fragilidade dos salários. Um docente recebe, por hora-aula, de R$ 9 a R$ 10. Muitos profissionais migraram para Cubatão e Guarujá. Encaram viagem maior ao local de trabalho porque a remuneração por lá é melhor. Praia Grande, por sua vez, concederá reajuste de 32% em 15 de julho.  

O Ministério da Educação acena com um déficit de 200 mil profissionais no país. A situação é mais grave justamente nos endereços em que os indicadores são mais baixos. Nas regiões Norte e Nordeste, professores entraram na lista de espécies em extinção. Nos grandes centros, a escassez é cristalina nos bairros periféricos, não importa a rede.

Em Santos, por exemplo, é rotineira a ausência de docentes no Caruara, na Área Continental.  Até no Gonzaga, bairro nobre, vagas estavam abertas – para mais de uma disciplina – com o ano letivo em andamento.

O protesto dos professores nas ruas (ou via imprensa) é legítimo não apenas pelo aspecto democrático, como forma de contestação ao poder vigente, mas para indicar à sociedade civil como a categoria não tem condições de carregar nas costas o fardo de empurrar, de maneira solitária e idealizada, a educação ladeira acima.  

Ser professor não tem relação alguma com sacerdócio ou atividade voluntária. É uma atividade profissional como qualquer outra, que merece um suporte cultural decente e remuneração compatível com os riscos e responsabilidades do ofício. Caso contrário, tende a ser multiplicar o semblante desapontado de alunos universitários que preenchem as cadeiras dos cursos de licenciaturas, numa demonstração de que muitos deles pensam em desistir da profissão antes da ultrapassar os muros da escola. 

Infelizmente, o grito está restrito aos professores da rede pública. Os colegas de profissão das escolas privadas, a maioria de pequeno porte, continuam amordaçados. Sob o risco de desemprego, choram em silêncio, no canto da sala de aula, como se pensassem naquilo que poderiam fazer para engrossar o coro dos desvalidos.

Observação: A secretária de Educação de Santos, Suely Maia, concedeu, no final de junho, entrevista ao jornal Boqnews. As declarações dela ajudam a entender o problema.  

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Perdas e ganhos

— Professor, suas aulas mudaram o almoço de domingo na minha casa! Meus filhos, genros, noras e netos se assustaram com minhas opiniões, mas passaram a me ouvir com mais freqüência.

Uma vez por semana, me aproximo do que considero o modelo ideal de educação, com pouca burocracia e livre de pormenores que glorificam e sacramentam o pequeno poder. Dou aulas, desde o ano passado, na Universidade Aberta da Terceira Idade (UATI), projeto que se renova há duas décadas na Universidade Católica de Santos.

Uma tarde por semana, aprendo com mais de 40 alunos, 90% mulheres, que dividem comigo suas experiências, histórias, exemplos, erros, dúvidas e angústias. Até as certezas e verdades absolutas, por vezes colocadas em xeque pelo colega ao lado, servem de ensinamento.

As aulas flertam com a pureza e com o idealismo da educação. Não há provas. Não existem notas. Todos estão livres do estigma da reprovação. Faltas também não reprovam. O conteúdo é flexível, conforme os interesses dos alunos a partir de um diálogo com o professor. Conhecimento é reflexão, jamais escravo do utilitarismo ou da mecânica robotizada de apertar botões.

As reações dos alunos, com média de idade acima dos 65 anos, é imediata. Se não concordam com algum exemplo ou conceito, expõem suas opiniões sem impor argumentos como dogma. Não temem a patrulha alheia, comum ao sistema educacional, que esmaga a palavra dissonante e cristaliza a falsa autoridade absoluta do professor. Se eles gostam do que ouviram, são acolhedores e agradecem pela aula recebida. Muitos alunos, inclusive, prolongam o diálogo pelos corredores da universidade.

Ali, consigo perceber uma luta involuntária, mas eficiente, contra dois dos maiores males que assolam o meio acadêmico: a vaidade e a soberba. Ambas resultam na contínua confirmação de teses e opiniões, postura que consiste na surdez diante da voz do outro. O interesse maior é se deliciar com o som das próprias palavras.

São estudantes que resolveram se sentar diante de professores - alguns poderiam ser filhos - para compartilhar e usufruir de novas visões que os levem a compreender e se proteger do mundo que, acelerado, teima em querer atropelá-los. São pessoas profundamente interessadas na vida, que por vezes é arrancada deles como se o corpo enfraquecido paralisasse a mente, impossibilitada de seguir adiante.

As terças-feiras, infelizmente, também se transformaram em dias de melancolia, como as contradições que permeiam o caminho de todos nós, seres tão pretensiosos quanto frágeis. No último mês, duas alunas deixaram o curso. Ambas faleceram, uma delas no Dia das Mães.

Eram mulheres de posições fortes, dispostas a abraçar a reflexão e o debate. À moda delas, sabiam reconhecer um ponto de vista discordante, ainda que relutassem em aceitar o argumento alheio. Mas jamais faziam da crítica um exercício cruel da intolerância.

Dar aulas às terças-feiras à tarde me tornou diferente. Se melhor professor, não sei. Não houve premeditação dos envolvidos, mas a cumplicidade se constrói a cada semana a partir do interesse pelo outro e, principalmente, pelo interesse conjunto pela vida humana. É a minha forma de desejar a educação, para todas as circunstâncias, endereços e culturas.

sexta-feira, 25 de março de 2011

Filme debate condição feminina


Por Cidinha Santos

O filme Domésticas, dirigido por Fernando Meireles, será exibido neste sábado, às 16 horas, na Estação da Cidadania, em Santos. O evento é uma iniciativa do Curso de Cultura Afrobrasileira em homenagem ao mês em que se comemora o Dia Internacional de Luta da Mulher. A apresentação é gratuita.

O cine debate tem como objetivo abordar o universo das empregadas domésticas pela ótica do trabalho e a situação da mulher negra nesse mercado, que sempre foi e tem sido ocupado por ela. Segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), em 2009, no Brasil, a quantidade de trabalhadoras domésticas com registro em carteira profissional era mais de 7 milhões. Isso porque houve um crescimento de nove por cento, em relação ao ano anterior. No entanto, as mulheres ainda são maioria entre as/os trabalhadoras/os domésticas/os sem carteira assinada.

Para Augusta França de Oliveira, militante do movimento de mulheres negras e coordenadora do Núcleo Pai Felipe, da Rede de Pré-vestibulares comunitários e Educação de Afrodescendentes e Carentes (Educafro) na história de desigualdade, discriminação e direitos relacionados ao trabalho da mulher. “É preciso fazer o corte racial nesta discussão com o olhar voltado para o período colonial, de modo a resgatar a história do trabalho da mulher negra escravizada.” 

Após a apresentação haverá debate sobre o tema, com a participação das professoras e dos professores do Núcleo de Estudos “Quilombos Urbanos”.

Núcleo de Estudos Quilombos Urbanos – Foi criado em 2009 e é constituído por um grupo de pessoas que vem acumulando conhecimento, estudos e materiais de pesquisas sobre a temática da população negra, sua história e raiz.

Tem como objetivo a discussão de questões relevantes sobre o negro no universo cultural brasileiro, enfatizando a historiografia em torno de temáticas como história do povo negro; africanidades; o papel da escola como local de transmissão de conhecimento, de preservação da condição de vida e também como o de ação transformadora e reflexiva da condição humana; a Lei 10.639/03 (que trata do ensino de história da África e dos afrodescendentes e indígenas nas escolas); a condição da mulher negra e as relações de poder e de cidadania.

A Estação da Cidadania fica na avenida Ana Costa, 340, no Campo Grande, em Santos.

segunda-feira, 21 de março de 2011

Entre os muros, vítimas e carrascos


Sentado atrás da mesa, o professor segue o ritual de final de ano: perguntar aos alunos sobre o que aprenderam no período. As perguntas são mecânicas, à caça de reações previsíveis. No máximo, a falsa reação de surpresa. As respostas parecem variadas, de Ciências a Matemática, mas gravitam em torno de temas específicos, de interesse particular do aluno, que o professor não se interessa em detalhar.
Os questionamentos terminam ao toque do sinal. O professor François Marin se dá por satisfeito, termina a aula e – por convenção – deseja boas férias. A última a sair da sala é uma garota negra, descendente de imigrantes africanos, calada, invisível, a aluna perfeita. Seria a estudante perfeita pela disciplina, mas jamais será lembrada, pois cumpre o destino de irrelevância traçado pela escola.

O professor se esquece de perguntar o que ela havia aprendido. A aluna o aborda e diz, de maneira direta:
— Eu não aprendi nada.
O professor, surpreso, insiste no argumento de que a garota deve ter aprendido algo. E recebe o diagnóstico – com ares de definitivo, incontestável:
— Eu não entendo o que estamos fazendo aqui.
O diálogo é, para mim, a síntese da relação entre professores e alunos de uma escola pública francesa, retratada no filme “Entre os muros da escola”, direção de Laurent Cantet.
O filme apresenta, de saída, um grande mérito: não repetir o olhar norte-americano das produções sobre escola. O olhar no qual um professor representa o herói capaz de modificar o cotidiano de todos os alunos, como se fosse um processo natural e irreversível, sem choques. Neste filmes, alunos e professor não tem particularidades, somente desejos coletivos em conjunção com o sonho americano. E ainda não o alcançaram pela origem estrangeira ou por pertencerem à outra etnia, mas serão preparados pelo professor para o “American Way of Life”.

“Entre os muros”, nome original francês, indica como a escola – em muitos endereços – é a reprodução dos preconceitos, das segregações, das disputas mesquinhas de poder e da repressão social do mundo além da sala de aula. Professores e alunos, via de regra, são espécies diferentes e se encaram como tal. Possuem características próprias, valores diferentes e espírito de corpo que não inclui a solidariedade perante a outra espécie.
Unem-se somente por interesses políticos, quando ambos são prejudicados pelo sistema escolar ou quando precisam da aliança para solucionar uma questão específica. Uma relação de cinismo, de ética de interesses como exemplos comuns ao cotidiano.
Se o filme fosse dublado em português, talvez enganasse o espectador menos avisado. A escola brasileira não é apenas cercada por muros como ação de segurança pública. Os muros ressaltam os papéis: alunos, internos; professores, carcereiros; e gestores, a direção da cadeia.
Todos os atores envolvidos se comunicam somente quando necessário, a partir do script previsto pela hierarquia. Na rotina de uma unidade escolar, uns se queixam dos outros, e todos mantém o pacto de espinafrar o sistema. Prevalece o comodismo, já que o sistema é distante, impessoal, a entidade abstrata.
Indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro, “Entre os muros da escola” é uma obra que não permite a torcida. Não há bons e maus. Impossível adotar a visão maniqueísta das relações entre os personagens, com o risco de enfiarmos a cabeça no buraco da ilusão. O espectador que tem ligações diretas com a educação escolar pode ficar confuso. Professores, principalmente. Se isso acontecer, a provocação do diretor Cantet se materializou além da tela.
Professores foram alunos. E muitos se esquecem desta história. O filme faz questão de nos lembrar quase todo o tempo, exceto nas discussões entre os docentes na sala dos professores. Não é permitida a identificação rápida e indolor. O filme nos joga de um lado para outro, como se mandasse o recado: não se posicione! Você é ambos. Os erros também pertencem a você. Se os cometeu, prepare-se para sofrer as tentações das saídas inócuas e posteriormente dolorosas. A garantia de sobrevida ao modelo.  
“Entre os muros da escola” esfrega no rosto do homem europeu o conflito contemporâneo da imigração. Na classe de François Marin, os alunos são filhos de imigrantes. Muitos são franceses de nascimento, e estrangeiros pela cultura. Neste ponto, Marin não os compreende. O professor – cujo sobrenome é traduzido por marinheiro – ressuscita o símbolo do colonizador europeu, incapaz de perceber que o outro é o rosto da diferença cultural, jamais a inferioridade por causa da origem.

O professor ensina francês, a língua da Metrópole, o que aumenta o distanciamento dos alunos. Ele tenta o diálogo, ora por aproximação, ora para reforçar o próprio poder, por meio da arrogância de quem vomita superioridade. François seria melhor por ser nativo e pelo papel que interpreta na escola.
Um exemplo é a aluna Esmeralda, que o questiona com freqüência. Quando ela diz que leu “A República”, de Platão, o professor não acredita, e também ironiza. Como uma aluna considera chatos os livros escolhidos e ainda por cima lê uma obra que não poderia, em tese, entender?
Nas escolas de periferia de São Paulo, será que não existem professores que desprezam – por exemplo – a cultura dos migrantes nordestinos? Políticas públicas de educação são comprometidas com a cultura popular ou propagam o poder da erudição? A escola sempre abre as portas para movimentos culturais, como o hip-hop?
O filme, embora escolha o ambiente mantido pelo Estado, permite olhar para as escolas privadas brasileiras, com adaptações. As escolas particulares não são exatamente ilhas de excelência. Menos diversa do que a pública, a escola privada também é caixa de ressonância de preconceitos. É evidente que ali se sobrepõe o olhar sócio-econômico, no qual vale a conta bancária dos pais do “cliente-aluno”, nesta ordem de importância. Professores são personal-teachers, que podem ser trocados no final de ano, como um boneco da moda.
O filme, premiado no Festival de Cannes, é baseado em livro de mesmo nome. O autor, François Bégaudeau, interpreta o professor. Os alunos não são atores profissionais. Muitos dos diálogos são improvisações, que elevam o grau de naturalidade e permitem o flerte com a escola “real”.

“Entre os muros da escola” é o nosso espelho, que indica os defeitos e as cicatrizes de todos os envolvidos. Indica a intolerância coletiva e a ditadura dos padrões de comportamentos. Analisa como o processo educacional repele os diferentes, cerceia a liberdade e valoriza os iguais. Iguais por serem submissos. Iguais por aceitarem o enquadramento, mesmo que sua subjetividade seja um detalhe.
Neste caminho, há o aluno Carl, descendente de antilhanos, que se vê como caribenho, apesar de nascido na França. Carl, visto como problema em outras unidades, não se importa mais com as decisões da escola. Passa o tempo dentro dela, com fantasias além dos muros.
A escola de François pode permitir o cinismo do espectador, distante pela língua, distante por um oceano cultural. Mas o espaço cai a zero quando olhamos para os conflitos dos personagens, para a desilusão dos professores, para o deslocamento dos alunos, para a ausência de conexão entre as partes. Escolher um lado é esconder-se atrás do muro. É mantê-lo em pé, sólido como as paredes que transformam as escolas em prisões ou castelos.
Observar por ambos os papéis (professor e aluno) traz a luz a culpa e a resignação. Os muros não escondem as vítimas. Os muros geram sombras, mas não protegem os carrascos e suas foices. Vítimas e carrascos estão nos dois lados dos muros. Não é preciso olhar de cima, pois eles não se deram conta do que estão fazendo ali!

sábado, 12 de março de 2011

Capítulos de uma aula decadente

Ao entrar na biblioteca da universidade, encontrei um ex-aluno. Recém-formado, ele é o típico sujeito pronto para exercer sua profissão sem grandes problemas. Boa formação, ético, antenado em questões sociais, preocupado em se atualizar por meio dos estudos. 

Estava contente ao saber que, por ter diploma de ensino superior, não precisaria prestar vestibular. Bastava esperar pela sobra de vagas. O rapaz pretendia fazer o curso de Direito, pois havia abandonado a sala de aula após seis meses como professor de escola pública.

A pergunta óbvia: - Por que largou?

A resposta imediata: - Desisti!!! Não dá para trabalhar à noite sob ameaças dos alunos.

Dois dias depois, uma aluna de Jornalismo veio me procurar para tirar dúvidas. Ela pretende fazer uma reportagem sobre Hiperatividade, doença da “moda” nos sistemas de ensino. Palavra da moda por duas razões.

1)  o termo foi banalizado. Muitos falam sobre a doença sem ter a menor ideia dos sintomas e do tratamento. Qualquer criança mais agitada, bagunceira ou que deseja um pouco mais de atenção pode ser classificada como hiperativa. O carimbo na testa que a tornará marginal na escola.

2) as escolas, além de não terem pessoas com formação – em muitos casos – para diagnosticar crianças com problemas de aprendizagem, não as encaminha para um profissional competente. Quando não ocorre o exercício da negação, por acordo velado entre instituição e pais para preservar da imagem da escola.

A aluna estava com dificuldades de conversar com escolas privadas sobre o tema. As equipes pedagógicas relutavam em reconhecer que poderiam ter crianças com o problema em suas classes. Quando admitiam, transferiam a culpa para os pais. No beco sem saída, tocar no assunto significa automaticamente o estigma. Desconfio que o parecer talvez fosse exercício de auto-imagem.

Escolas públicas e privadas são irmãs gêmeas diante de um espelho. Podemos localizar diferenças nos acessórios, nas roupas e, principalmente, na maquiagem, mas ambas sofrem de males semelhantes, diagnosticados por médicos diferentes e com poses idênticas de vítimas.

-  Tire esse bicho daí que o problema não é meu!

-  O diagnóstico está errado. Vou procurar uma segunda opinião.

A escola se manifesta pela rejeição ao diferente. Expulsa o sujeito que tenta lutar contra o estado de coisas. Repele quando esconde embaixo de suas carteiras, em seus armários, disfunções que poderiam servir de motor para uma reformulação estrutural.

Em ambos os casos, a escola é violenta. Enxota o professor e outros funcionários por se calar diante da violência verbal e física, interna e externa. Peca ao se calar diante de um problema de ordem médica para se fingir de instituição saudável. Omitir-se é um ato tão ou mais violento quanto assinar embaixo. Ou tomar posição com consciência do erro crasso.

O irônico da cegueira é a teimosia em fingir que enxerga. São muitos pecadores, mas poucos dispostos a se confessar ou se flagelar para “purificar” a escola. O sarcasmo, a acidez na provocação vem, por exemplo, do próprio Ministério da Educação, quando escancara na TV um filme institucional sobre o papel do professor. O tom alegre era previsível, assim como o falso simbolismo globalizante dos depoimentos em vários idiomas.

Descontando-se a falta de contexto ao se comparar lugares tão diferentes, o filme repete a velha ironia do professor como um herói, como alguém que se doa por altruísmo, por vocação em ajudar o próximo. No fundo, uma estratégia tímida para atrair pessoas dispostas a ensinar pela via escolar.

Ingênuos não são os que acreditaram no filme. Esses se encontram em estado vegetativo. Ingênuos são os que se surpreenderam quando o Ministério da Educação informou – em tom de cinismo – que faltam professores no país. O déficit de docentes tende a crescer.

Em outras palavras, professor não fica desempregado. Mas que não se meta a discutir condições de trabalho, seja com o gestor público ou com o patrão da escolinha do bairro. Até porque recebe todo mês para DAR aula!

quinta-feira, 10 de março de 2011

O uniforme fashion

A adolescência, que mescla origens biológicas e culturais, é uma fase difícil. O corpo é instável; o comportamento, inseguro; a necessidade de reconhecimento de grupo, vital. Trata-se de um período de alterações, de contestações de quem tenta se libertar de amarras e buscar a própria trajetória, diferenciando-se dos demais.

A busca pelo reconhecimento envolve também a aparência, numa sociedade de consumo que sonha com a padronização. Neste sentido, o uniforme escolar é um dos grilhões mais cruéis para o cotidiano de um adolescente. Por mais que se vistam de maneira parecida, eles jamais aceitam que essa imposição venha de terceiros, ainda mais da escola.

É preciso quebrar as regras e desafiar o senso de autoridade, desde modificações no corpo como piercings até outros acessórios da moda como bonés, casacos, calças rasgadas e mudanças no próprio uniforme.

As escolas com alunos mais ricos sempre trabalham ao gosto de freguês. Os indivíduos matriculados seriam clientes e teriam sempre razão. Faz parte do processo ilusório de fornecer uma pseudo-interatividade ao comprador.

O uniforme existe desde a Idade Antiga. De origem militar, servia para reforçar a identidade dos soldados, estabelecer a hierarquia entre os homens e seus posicionamentos no campo de batalha. Controle!

Atualmente, o uniforme atende aos mesmos propósitos, porém em um número maior de áreas. É o atendente sem nome de um restaurante fast-food, identificado apenas pelas cores. É o funcionário terceirizado de uma universidade, que se diferencia de professores e demais “colaboradores”.

A escola adotou – mesmo que de maneira simbólica - o uniforme no século XX pelas mesmas razões militares da Idade Antiga. Controlar alunos com mãos-de-ferro é o sonho de pseudo-educadores.

As instituições de ensino, muitas delas alicerçadas nas relações de consumo, perceberam que as algemas podem ser ornamentadas com flores, sem que o preso se dê conta do cárcere. É a máxima weberiana: o mecanismo de dominação ocorre quando o dominado não nota o processo de controle e auxilia na própria relação de submissão.

As escolas, localizadas em grandes capitais, notaram que o uniforme influencia no cotidiano de seus alunos adolescentes. Como a moda é preocupação recorrente de seu público, bastou terceirizar o serviço e lançar uma espécie de “coleção outono-inverno escolar”. Ou seja: o uniforme ganhou uma linha de camisetas e acessórios. O público expeliu mais uma vez a faceta consumista, com a coleção de uniformes, de várias cores.

Nesta relação de consumo, a escola lucrou novamente. Os jovens foram iludidos pela diferenciação, mas caíram de quatro na arapuca dos padrões de comportamento. As cores e os modelos das camisas são para todos, sem margem para criações autorais.

Assim, a sociedade de consumo – impregnada em um tipo de instituição que deveria primar pela cidadania – persiste em perseguir a própria utopia: o consumidor único, com pensamento único, servil aos produtos idênticos e sem as resistências tribais. A felicidade exterior e a falsa liberdade numa camiseta.

quarta-feira, 9 de março de 2011

O endereço errado


Depois de alguns anos de afastamento, provocado pelos compromissos da vida, a amizade entre nós foi retomada. Para cumprir uma promessa, fui conhecer o ambiente de trabalho dela, recém-conquistado por quem estava cheia de planos para alterar o entorno de seu universo.
           
Ao chegar no local combinado, o primeiro estranhamento. Os muros eram altos, com três metros de altura, pintados de cinza, sem vida. Talvez fosse uma nova corrente artística! A pintura era uniforme, sem identificações do lugar, sem quaisquer particularidades que dessem pistas do anônimo autor das pinceladas.
            
O recepcionista do portão de entrada estava armado de cassetete e vestia um típico uniforme de guarda. O próprio portão assustava pela imponência e por estar trancado àquela hora do dia com vários cadeados, dos mais variados formatos.
            
A justificativa do guarda para tanta preocupação eram as constantes fugas. Muitos dos internos escapavam com a luz do sol. Houve um que até sorriu para os guardas enquanto pulava o muro. Simplesmente desapareciam, às vezes com a ajuda de familiares e amigos.
            
Após a devida identificação, fui encaminhado para a recepção da unidade. Outro portão, este menor e com apenas uma tranca. Um funcionário me atendeu mecanicamente. Não foi necessária revista, pois minha amiga avisara a respeito do visitante.
            
O funcionário não foi grosseiro, mas manteve a pose. Tive que informar o que carregava na bolsa. A explicação dele foi imediata: como o lugar enfrenta diversos casos de violência, tornou-se necessário se precaver. E desconfiar de todos. Muitos dos internos têm históricos de agressão. Até armas de fogo passaram pelos mecanismos de segurança, embora os conflitos mais freqüentes envolvam socos e pontapés. Se é que isso refresca o clima.
            
Nos corredores, vários funcionários, muitos deles uniformizados. A roupa padronizada indicava um grau mais baixo na hierarquia. O trabalho consistia numa simples tarefa: monitorar os garotos o tempo todo, independentemente do que fizessem de forma oficial (limpeza, cozinha etc.). 
            
Os monitores foram treinados para compreender que – sempre, sempre - o objetivo dos homens engaiolados é sempre escapar. Qualquer aproximação, qualquer relacionamento gera desconfiança de ambas as partes. Posicionam-se como adversários no mesmo campo de batalha. Acordos informais mantém a paz temporária.
            
O tempo ali passa mais devagar, com o ar pesado, monótono, em permanente estado de tensão. Um monitor mais antigo lamentava que um dia pensou-se em recuperar ou desenvolver o indivíduo. Hoje, significava somente passar um período de suas vidas (neste caso, para todos os envolvidos).
            
O uniforme tinha outra serventia, embora a desculpa oficial consistia em sustentar o argumento de que a unidade era exemplar. O uniforme assassinava nomes. Viravam números. E ai de quem quebrasse a regra da boa aparência. Imagem é tudo, dizia a cartilha.        
            
Os indivíduos de bom comportamento – ou de bom relacionamento com a direção, que pode significar a mesma coisa – ganhavam regalias como recompensa. Conheci um deles durante a visita. Parecia um garoto de futuro. Vinha de família desestruturada, porém a mãe fazia questão de que ele se recuperasse a tempo de viver bem no mundo externo. Ela comparecia regularmente à unidade e cobrava providências da equipe diretora. Era vista como petulante e intrometida por muitos dos profissionais que trabalhavam ali. Quem era ela – na concepção deles – para criticar e dizer o que deveria ser feito, mesmo que tivesse razão?
            
O garoto fazia parte de um programa que incluía uma série de atividades extras, visando – na retórica da política pública – elevar a formação dele e assegurar que pudesse realmente sair dali com uma chance no mercado de trabalho. Ao conversar com minha amiga, no entanto, ficou claro que o programa não abria margem para a criação humana.
            
Criatividade era um empecilho. O que valia era cumprir adequadamente as regras, manter a aparência, apresentar bom comportamento e – se possível – não pensar sobre o funcionamento do sistema. E jamais questioná-lo.
            
Segundo uma das monitoras, aqueles indivíduos não tinham nada na cabeça. E repetia: cabeça vazia, oficina do diabo. Estavam ali para sair após prazo definido e – quem sabe? – mudar de instituição. Não seriam livres e – como bem frisou uma das integrantes da equipe diretiva – críticos, palavra excomungada do dicionário.
            
A filosofia que me foi apresentada se confirmava na agenda do dia. Tudo seguia a rigorosos horários: refeição, atividades físicas, visita ao pátio, encontro com familiares. Todas as tarefas – este era o nome usado de forma corriqueira – eram supervisionadas à risca.
            
Falhas eram inadmissíveis. Punições, constantes. Contagens aconteciam várias vezes ao dia, durante as filas e entradas e saídas dos pavilhões. Em muitos casos, o diálogo se mostrava peça de ficção. A conversa caminhava na base de gritos, claro que oriundos de quem tinha mais poder. 
            
Após um par de horas, minha amiga me acompanhou até a saída. Notou meu semblante decepcionado e assegurou que acreditava numa mudança. Que o local seria menos violento! Que os profissionais seriam melhor preparados para lidar com os jovens que ali estavam!
            
Que era possível pressionar os políticos para implantar mudanças estruturais de longo prazo!  E que faria o que fosse para alterar ao menos aquele micro-cosmo, aquela unidade que aprisionava pessoas!
            
Acreditei nas palavras dela, mas saí de lá com a estranha sensação de ter ido ao endereço errado. Com a devida licença poética, ela trabalha numa escola.