quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Tércio, o gerente



Marcus Vinicius Batista

A morte do ex-prefeito de São Vicente, Tércio Garcia, colocou um ponto e vírgula – não um ponto final – em um perfil de administradores públicos que dominaram o cenário desde a década passada. De João Paulo Tavares Papa a Dilma Rousseff. De Fernando Haddad a João Dória.

Com o esvaziamento relativo das ideologias do século 20, a política concedeu espaço para profissionais com perfil de gerência, administradores com carreira no serviço público, mas sem experiência na cadeira principal do Poder Executivo. Esse era o dom desejado pelo eleitor médio, visto pelos marqueteiros como consumidor, mas que enxerga a política com descrença e espera uma leitura mais econômica das relações entre o Estado e a população. O que não significa abandonar alguns coronéis.

O problema é que, entre o dom e a maldição, a fronteira é quase inexistente. O setor público é, diferentemente do que acreditam os ingênuos, outro mundo, com ligeiras – somente ligeiras – semelhanças com o setor privado. É fundamental traquejo político, característica que poucos gerentes possuem. Papa virou político. Dilma caiu pela ausência de molejo com o PMDB.

Tércio Garcia me lembrava David Capistrano. Nada de comparar gestões, em cidades com contextos sociais distintos. Ambos não eram políticos. Ambos foram empurrados para o fogo eleitoral por medalhões da política. Ambos tinham dificuldades no trato com a imprensa. Ambos não suportavam lidar com a fome do Poder Legislativo por cargos, fora acessos de provincianismo. Ambos adoravam a vida discreta dos gabinetes e do atendimento à gente comum.

Tércio Garcia pagou parte dos pecados, os quais assinou de forma voluntária, do “dono” de São Vicente nos últimos 20 anos. Alçado de presidente da Codesavi à prefeito, o mundo de Tércio ganhou problemas de todas as naturezas, principalmente provocados por quem adora sangrar São Vicente sem permitir suturas políticas.

Tércio gerenciou São Vicente por oito anos e pagou o preço por ter que se reportar ao mentor político. O humanista deixou uma última impressão negativa como administrador. Sucumbiu à máxima de que a segunda gestão (quase) sempre compromete a primeira. De São Vicente, foi para Limeira, onde retornou à vida pública como técnico.

Tércio Garcia foi um gerente. Oito anos, para ele, foram um intervalo no qual São Vicente respondeu de maneira negativa, sem saber do futuro mais escuro. Como disse, vago como um ponto e vírgula.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Eles só pensam naquilo




Marcus Vinicius Batista

A eleição de Donald Trump, além da incerteza do pânico, representa uma nova lição que muitos teimam em não refletir. Precisamos aprender que não existem fórmulas para classificar o eleitor, seja da minha cidade, seja dos Estados Unidos.

Em primeiro lugar, costumamos classificar pela negação de nós mesmos. Classificamos pelo estigma. O eleitor seria inferior à nossa capacidade de avaliação política, como se não fôssemos cúmplices das escolhas e da preguiça pós-voto. Trata-se do pressuposto de que o eleitor seria incapaz porque não pensa pela coletividade.

Depois, o que seria eleitor médio? Médio de inteligência? Classe média? Volúvel e manipulável pelo marketing eleitoral? O Simpson, do William Bonner. Pode ser tudo ou nada disso. O eleitor médio não existe, além da retórica.

Respeitando o pano de fundo cultural, são variáveis políticas que podem nos dar um perfil socioeconômico de quem vota, distante das alegações individuais, dispensadas pelos discursos tão intelectualizados, por vezes desconectados do mundo lá fora.

O eleitor escolhe por fatores múltiplos, que também incluem pesquisas, noticiário e, principalmente, olhando para o próprio umbigo. O umbigo transita das ideologias dos extremos à conta bancária, da estrutura da rua onde mora ao palavrório de familiares, amigos e parentes, da fé a uma visão preconceituosa de mundo, de um canto a outro do espectro político.

O eleitor médio – é apenas conceito – não se agarra em manuais acadêmicos, com conceitos filosóficos ou correntes teóricas que terminam com “ismo”. O voto é uma decisão prática. E cíclica. Uma decisão aplicada ao cotidiano de um mundo capitalista, mais complexo do que o Fla-Flu esquerda e direita. O eleitor vota pela garantia de seu próprio mundo. A escola do filho. O emprego próprio ou do parceiro. O quilo de carne na mesa.

É bobagem qualificar o governo Trump – ou da minha cidade – antes que ele aconteça. Há caminhos para o pensamento. Há temores e riscos. Trazer política para nossas vidas é um exercício necessário. Só que na política não há espaço para videntes. A complexidade política nasce e morre na urna, independentemente do endereço.

O eleitor – como termo no singular – é tão palpável como uma entidade espiritual. Prático como qualquer um de nós, inclusive quando tentamos justificar por ideologia. O resto é chute!

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

De costas para a Cultura

Câmara de Santos: um castelo isolado?

Marcus Vinicius Batista

Os vereadores, salvo exceções, são coerentes. Poucos sabem sobre o que importa na cidade de Santos e preferem seguir de olhos vendados. Eles são honestos com o que se pensa deles, quando decidem votar projetos irrelevantes ou de acordo com os interesses da Administração Municipal. E práticos ao fatiar a Mesa Diretora, sem debate, posando para fotos cheios de sorrisos. Riem de quem? Para quem?

A Câmara Municipal de Santos, nesta semana, selou o divórcio com a Cultura. Nunca foi, de fato, um casamento, era pose para parecer preocupada, aquele sujeito que fabrica uma namorada para vender a imagem de sério e comprometido.

Os vereadores se “esqueceram” de uma audiência pública, que trataria do ato da Polícia Militar contra a peça Blitz, que resultou na prisão do ator Caio Martinez. O encontro havia sido agendado no último dia 7 de novembro, o primeiro capítulo do desinteresse pelos artistas, pelo teatro, pela Cultura. A audiência também não foi remarcada.

A postura dos parlamentares ficou clara no mesmo dia 7, quando o ator Caio Martinez pediu a palavra na Tribuna Cidadã. O presidente da Câmara, Manoel Constantino, talvez inspirado pelo humor da peça proibida, disse que só autorizaria o pronunciamento do ator se ele comprovasse CNPJ.

Talvez inspirado pelos colegas de Brasília, o presidente da Câmara teve amnésia temporária, pois se esqueceu de que os próprios vereadores adoram chamar a Câmara de “casa do povo”. Ele se comportou como se o cargo lhe desse a propriedade do imóvel. Depois, argumentou que era contra a peça. Uma opinião irrelevante perante a natureza da regra e o nome do espaço: Tribuna Cidadã. Constantino só voltou a si quando pressionado por colegas.

Os vereadores o acompanharam na indelicadeza. Enquanto Caio falava, a maioria dos parlamentares engatava conversas paralelas ou brincava ao celular. Coerente com o que se vê nos parlamentos pelo Brasil.

Agora, os vereadores foram mais explícitos. Não tomaram conhecimento do assunto. Ignoraram a importância da audiência pública. Depois, fingem choramingar quando a existência das audiências é questionada.

Qualquer estudante sabe que a Cultura é o termômetro de uma sociedade. Ignorá-la também funciona como medidor, mas da frieza e indiferença de quem deveria – e ganha bem – para legislar pelo e para o Município. É melhor e mais saudável ocupar a praça, essa sim do povo.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Chapecoense: a morte e o apoio psicológico



Marcus Vinicius Batista

Não estamos preparados para a morte. A dificuldade em lidar com ela, no mundo moderno, nos faz saltar do silêncio ao espetáculo. Transformamos a morte em tabu quase paralisante, de modo que reduzimos todos os espaços possíveis para o luto. Evitamos, sempre que possível, olhar para ela, conversar sobre ela, fato que se acentua, por exemplo, entre os idosos.

Quando a finitude vem de forma abrupta, como a tragédia com jogadores da Chapecoense, jornalistas, dirigentes e tripulação, ficamos atordoados diante da complexidade de sentimentos e emoções que nos acometem, muitos deles além do acidente aéreo, mas derivados da cultura que os acompanha.

A comoção é a primeira resposta natural. Queremos saber os detalhes, compreender a história - com causas e consequências - de maneira instantânea, como prega a cartilha do contemporâneo. Queremos saber os detalhes, mas voltamos ao estado de coisas ao notarmos as dificuldades em expressar nossas reações internas. Por quê?

Optamos pela concretude dos acontecimentos. Nomes, local do acidente, causas da queda da aeronave, como ficará o campeonato, a burocracia da organização do torneio, as repercussões entre especialistas e oportunistas, tudo serve como escapatória para lidarmos conosco, a partir da morte do outro, que mal conhecemos. Por que nos comovemos? A preservação da vida como valor explica tudo?

Por trás disso, há a cultura do futebol, ainda presente - felizmente -, mesmo com a transformação do esporte em termômetro de ganância. O futebol é um dos mais eficientes mecanismos de aferição do comportamento humano. Vemos ali a selvageria humana, o tribalismo, o reflexo econômico, o uso político, a desigualdade social, a intolerância e o preconceito. Mas enxergamos também o amor, a esperança, a paixão, a generosidade, a solidariedade.

Um acidente aéreo nos provoca a compensação perante uma visão negativista e exclusiva do futebol. A tragédia nos reacende como humanos, nos revolta contra a hipocrisia, contra a fome financeira ou as palavras emitidas sem limites, sem o olhar para a dor do outro. Nem tudo pode ser piada em todas as circunstâncias. O futebol ressurge como prática coletiva, próxima do universal, acima da competitividade.

É da pior forma possível, mas o acidente aéreo nos coloca como limitados, como falíveis, como finitos. Uma hora ou outra, o futebol como associado da morte - não na violência gratuita e estúpida dos estádios, também banalizada pelo show, mas no acaso inevitável e devastador - serve como gatilho para refletirmos sobre como encaramos o esporte, a digestão dele como extensão da vida.

O luto será coletivo, midiático e elaborado de um espectro a outro da condição humana. Este luto tende a ser mais acelerado, conectado ao noticiário, com intervalos cada vez maiores conforme a distância entre o fato velho e o acontecimento mais recente. Haverá a catarse no estádio, as homenagens globalizadas, de acordo com o que é essencial para lembrarmos de que a morte, embora inevitável, machuca demais se imprevisível.

Entretanto, não se pode relativizar ou amenizar o luto individual, familiar, das pessoas que jamais esperariam perder um ente próximo num período de realizações profissionais férteis, no melhor momento da carreira de muitos jogadores, no auge de um clube visto como coadjuvante no futebol nacional. Famílias de jovens, que jamais cogitaram o término de biografias quando as histórias alcançavam o clímax.

Essas famílias necessitam de apoio, inclusive da perspectiva psicológica, medida que inclui os sobreviventes, os que não viajaram, todos que tentarão reerguer a instituição, o clube, enquanto procuram remédios para feridas profundas internas e nada palpáveis.

Campeã ou não, a Chapecoense - traduzida pelas pessoas que a mantém viva - tem que fechar para balanço, chorar o que for de direito, recolher-se para reflexão, para o luto, para a elaboração do pior episódio de sua trajetória. Só assim teremos a metamorfose de sentimentos, que transitarão pela raiva, negação, tristeza profunda até alcançar a saudade. Essa sim ficará por muito tempo e será o motor que empurrará a Chapecoense, jogadores, equipe técnica, jornalistas para um lugar bem mais confortável na memória afetiva.

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Beto, o homem que fala ...



Marcus Vinicius Batista

O deputado federal Beto Mansur, como todo político, gosta de falar. Articulações, costuras, diálogos, concessões, conflitos, tudo faz parte do cotidiano da política, ainda mais para um profissional de mandato.

Nesta semana, Beto foi aos microfones da imprensa explicar o que se tornou difícil de justificar. Beto usou como argumento um número mínimo de deputados para que a votação fosse nominal. A explicação é conveniente, aquela brecha no regimento – os parlamentares são mestres em cavar – que transforma uma questão moral em futilidade.

Se você não tem acompanhado a política nacional, Beto Mansur tentou defender porque os deputados federais não votariam nominalmente (ou seja, se identificando) a anistia para caixa 2. O deputado perdeu nova oportunidade de legislar em prol de seus eleitores, de quem ainda espera um país com o mínimo de seriedade de seus representantes.

Arrumar quatro deputados que assinassem um papel para valer a votação nominal é mais fácil do que gritar Jesus, família e curral eleitoral em plenário no processo de impeachment. Fora isso, trata-se de uma encruzilhada moral, que envolve um tema inerente às discussões sobre corrupção no país. Como assim, anistiar quem se utiliza de caixa 2?

A anistia quebra o eixo de um contexto no qual a corrupção é central, mas os parlamentares – que sempre dão o exemplo de como não se comportar – preferem olhar para o próprio umbigo e proteger o próprio rabo. Nenhum deles tocou no assunto, o que nos leva a crer que muitos deles desejam, no fundo, perdoar a si mesmos e manter os bolsos como bois gordos no pasto.

O deputado federal Beto Mansur está no auge da carreira parlamentar. Alçado pelo hoje órfão de amigo Eduardo Cunha, Mansur saiu do baixo clero para se tornar um cardeal na Câmara. E o poder em demasia sempre coloca o príncipe em exposição, já pregava Nicolau Maquiavel.

O ex-prefeito de Santos é hábil em jogar com as regras. Elegeu-se pela matemática eleitoral; primeiro, com Paulo Maluf; segundo, com Celso Russomano. Agora, repete a tática.

Em termos políticos, é essencial que o deputado consiga construir uma boa imagem além da Baixada Santista. Isso inclui o interior do Estado, com colégio eleitoral maior. Uma imagem capaz de minimizar – jamais apagar – a mancha das acusações de trabalho escravo ou do selfie inapropriado com o prefeito de Santos durante o incêndio na Alemoa.

Mansur é um sujeito experiente e sabe que seu destino é o Congresso Nacional. Salvo um milagre, ele não tem mais chances de retornar à Prefeitura de Santos. Imagino que, diante de tanta visibilidade, o deputado não pense mais em retornar para casa, exceto às quintas-feiras, todas as semanas.

Beto Mansur só tem que se precaver dos riscos do poder. Denúncias, burocracia do Poder Judiciário, fotinhas de rede social, tudo isso é troco da pizza. O problema é que, assim como os peixes, os deputados morrem pela boca. Vide o tubarão – que não é peixe, mas serve como - Eduardo Cunha.

terça-feira, 22 de novembro de 2016

A lei e as cervejas



Marcus Vinicius Batista

A Câmara Municipal de Santos, de vez em quando, olha pela janela da torre de marfim, lá no alto do Castelinho. Isso costuma acontecer nos intervalos entre entregas de títulos e fotos sorridentes de acordos políticos. Uma exceção é a lei que regulamenta e estimula o desenvolvimento de cervejarias microartesanais na cidade.

A lei é do vereador Sandoval Soares (PSDB), futuro vice-prefeito de Santos, e tramita no Poder Legislativo. A legislação se tornou necessária não apenas pelo crescimento do setor na cidade; por sinal, organizado e consciente do cenário local. A lei é o espelho de um hábito cultural presente em Santos, no mínimo, desde o final da década passada.

O barateamento da tecnologia, o intercâmbio de informações e conhecimentos, somado à disciplina e paixão dos produtores, fizeram com as cervejas deixassem de ser mero elemento de consumo de massa em prateleiras de supermercados. E muito mais do que o superficial estereótipo que associa cerveja à embriaguez.

A cerveja artesanal é a demonstração de amor à bebida, a transformação dela em algo sagrado, esculpida por horas, com a união milimétrica de ingredientes. Os produtores de cerveja a entendem como o instrumento que conecta pessoas, que constrói relacionamentos duradouros, nascidos em volta de uma mesa, como a comunhão pela bebida que mudou de cor e textura.

Regulamentar a atividade significa, antes de mais nada, tirar as cervejas artesanais da clandestinidade. Aliás, uma clandestinidade falsa, permitida porque os legisladores, quase sempre, levam tempo para notar a dinâmica da cidade onde trabalham.

A lei prevê, por exemplo, a conexão entre as cervejas e o turismo, fundamental num município que se limita à cultura veranista. Recentemente, houve um pequeno encontro - se compararmos com a Oktoberfest de Blumenau -, capaz de servir como termômetro para o potencial das cervejas artesanais. Muitos endereços as vendem de maneira informal. De vendas na Internet a encontros na praça dos Andradas, passando por pizzarias e empórios.

Os produtores mexem com coisa séria e responderam de maneira positiva ao projeto de lei, que estabelece - por exemplo - ações educativas contra o alcoolismo, além de posturas ambientais. Cervejeiros artesanais não bebem aos galões. Suas obras de arte precisam de apreciação, de degustação. Alguns deles se tornaram sommeliers e ministram cursos. Nada de ser primo pobre do vinho.

Os microcervejeiros, pela lei, não poderão produzir mais de 3 mil litros mensais e trabalhar com maquinário industrial que armazene mais do que o dobro disso. Os produtores estão, em sua maioria, organizados em torno Confraria Santista da Cerveja (Conscerva). Alguns se tornaram representantes de marcas maiores, fruto de estudo e percepção de negócios.

O Brasil possui cerca de mil microcervejarias, mas apenas cerca de 300 estão regularizadas. Cidades como Campos de Jordão trabalham as cervejas como atração turística permanente, com lojas e eventos.

Em Santos, os produtores só querem transformar amor e prazer em trabalho, ao menos de forma oficial. Depende da Câmara Municipal olhar a cidade com sobriedade.

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

A consciência humana?


Arte: Vinil Colante e Fixxa - Jardim Botânico de Santos

Marcus Vinicius Batista

Prometo todo ano que não vou escrever sobre racismo no Dia Nacional da Consciência Negra. Não consigo cumprir a promessa, diante da criatividade de muitos indivíduos que insistem em negar a discriminação no Brasil. É a velha turma que se esconde atrás de máscaras como “racismo velado” e outras baboseiras para perpetuar as desigualdades.

As palavras dizem muito sobre quem somos, inclusive quando tentamos usá-las para camuflar reais intenções. A bola da vez é a propagação do termo “consciência humana”. É a modinha politicamente correta, que sonha em sepultar a luta pela igualdade racial via negação.

Falar em consciência humana é reproduzir, em entrelinhas cosméticas, a mentalidade do branco, privilegiado ao longo dos processos histórico-sociais brasileiros. É, além de desqualificar a data, amenizar um problema que – brancos como eu – podem ajudar com debates, estudos e reflexões sobre o assunto, conscientes (perdoe-me pelo trocadilho) de que jamais, jamais sofreremos uma ínfima parcela da violência que acontece todos os dias, em todos os cantos.

A turma da “consciência humana” não peca somente pela má fé, mas também pela desinformação. É um desconhecimento atroz não apenas da História do Brasil, como também da trajetória de movimentos sociais ligados aos negros, a partir do século passado, e ainda das discussões internacionais em torno da violência calcada por discriminação étnico-racial.

A consciência humana passa um verniz mau cheiroso sobre a relação conflituosa entre a Casa Grande e a Senzala, que transformou – sem querer – Gilberto Freyre num profeta. O poder se torna permanente pela ausência de questionamento sobre si mesmo. O estado de coisas se mantém quando não se percebe que ele existe, como se adapta às pequenas queixas cotidianas, incapazes de sacudir a essência do contato entre controladores e controlados.

Consciência humana é aquela que elimina o candidato por não se encaixar na boa aparência. É aquela que não permite conhecer médicos, fisioterapeutas, dentistas, juízes, professores universitários, entre outras profissões, com pele mais escura. É aquela que estigmatiza a cor dos suspeitos na batida da polícia, a mesma que para o motorista de carrão pensando que é chofer ou ladrão. E a lista vai embora...

Turma da consciência humana, enquanto negarem o Dia da Consciência Negra, vocês estão negando parte considerável do país onde vivem. Pior: sonhando com uma terra tão fantasiosa como o “país do futuro”.

Obs.: Texto publicado no Diário do Litoral, em 20 de novembro de 2016.