domingo, 18 de setembro de 2016

Voto nulo: uma saída possível



Marcus Vinicius Batista

Cubro eleições desde 1992, quando David Capistrano derrotou Vicente Cascione no segundo turno, para a Prefeitura de Santos. Confesso que, no século passado, defendia a ideia de que o voto nulo era maléfico ao processo eleitoral. Talvez teimosia de um jornalista jovem.

Entendia, naquela época, que anular o voto significava lavar as mãos para o processo eleitoral. O pecado pela omissão, que não me daria o direito de cobrar ou questionar as decisões tomadas pelos candidatos eleitos.

Hoje, diante da experiência, penso diferente. O voto nulo não é um mal necessário, mas uma alternativa sólida quando o cardápio só nos oferece pratos indigestos. Recusar-se a escolher alguém é, óbvio, uma escolha, ainda mais com muita informação que a sustente.

Como professor, costumo ouvir a mesma pergunta sobre o voto nulo a cada dois anos. O voto nulo vai para o vencedor da eleição? Como contagem absoluta de votos, não. Os nulos e brancos giram em torno de 15 a 20% dos votos.

O problema é a matemática. Quanto mais nulos e brancos, menor será o número de votos válidos. Isso interfere na porcentagem dos votos nos candidatos ao Poder Executivo, por exemplo, o que pode resultar na diferença entre uma vitória no primeiro turno e a chance de realização do segundo turno entre os dois primeiros colocados.

Na eleição para vereador, a chamada proporcional, os nulos podem provocar acréscimo ou redução da quantidade de votos para se fazer uma cadeira na Câmara. A tendência é que, de fato, favoreça as candidaturas mais fortes, em alianças que giram em torno do nome favorito ao Poder Executivo.

Em Santos, muitos olham para os votos nulos com expectativa. A descrença na política poderia levar a um estouro de votos de protesto, não em candidatos. No entanto, o que costuma acontecer, em termos históricos, é o aumento de abstenções. Ou seja: muitos eleitores preferem fugir ou não se esforçar para exercitar o voto.

Como cidadão, já escolhi um candidato a vereador. Voto em Santos, o que me dá oito opções para prefeito. Descartei seis. Tenho, logo, três alternativas; entre elas, o voto nulo.

Obs.: Texto publicado no Diário do Litoral, em 11 de setembro de 2016.

sábado, 17 de setembro de 2016

O eleitor e seus desejos contraditórios



Marcus Vinicius Batista

A última pesquisa do Diário do Litoral, divulgada essa semana, confirma o favoritismo do prefeito Paulo Alexandre Barbosa (PSDB) e a divisão de votos nas candidaturas de oposição. No entanto, chama a atenção o comportamento do eleitor diante do futuro gestor da cidade.

São duas perguntas que, juntas, aguçam minha curiosidade e permitem uma interpretação relativa, diante de posições subjetivas e passíveis de mudança do eleitorado. O eleitor, quando inseguro, é volúvel e não costuma se arriscar em territórios mais radicais.

A primeira pergunta é: nessa eleição para prefeito de Santos você pretende votar pela continuidade da atual administração ou por sua mudança? 41% dos entrevistados querem mudança, enquanto 33% preferem a continuidade. 22% não sabem. Na pesquisa de maio, 52% defendiam mudança na administração. Ponto para o prefeito.

Aí vem a segunda questão: nessa eleição para prefeito de Santos você pretende votar em um candidato de situação ou de oposição? 38% dizem que votarão em um candidato de situação, enquanto 25% votarão em um candidato de oposição. 32% não sabem.

A contradição mais evidente envolve a candidatura do prefeito Paulo Alexandre Barbosa. Embora líder disparado em todas as pesquisas, o prefeito enfrenta a desconfiança de parte do eleitorado. Apenas um terço dos eleitores o escolheria, em 2 de outubro, por convicção.

Daí nascem as dúvidas. Os eleitores nos fornecem dois sinais. O primeiro deles é a possibilidade de escolher o prefeito por não ver outras opções.

Os candidatos de oposição, seis deles em primeira campanha, lutam para serem vistos pelo eleitor e para se diferenciar uns dos outros. Muitos discursos são parecidos, o que cria ruído na comunicação com quem desgosta do governo atual e procura uma saída sem acompanhar o cenário político.

Há candidatos demais, o que facilita a vida do prefeito. A última evidência foi o debate essa semana, na Universidade Católica de Santos. Todos contra Paulo Alexandre Barbosa, mas com muito fogo amigo.

O risco da dúvida – e o número de indecisos ainda está alto – é que o eleitor, diante da frágil crença na política, decida pelo voto útil e, assim, siga a manada em torno da candidatura favorita.

Obs.: Texto publicado no Diário do Litoral, em 4 de setembro de 2016.

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Cantando o hino nacional



Marcus Vinicius Batista

Quando era criança, eu já desconfiava, sem entender o que se escondia por trás da fila no pátio e dos gritos da professora. No início da década de 80, o hino nacional entrava no pacote que incluía disciplinas como Educação Moral e Cívica e Organização Social e Política Brasileira (OSPB), ícones educacionais do regime militar.

Depois, adulto, ficou mais claro como se agredia o hino nacional quando a seleção brasileira de futebol entoava os versos para mascarar o eterno uso político do esporte, o balcão de negócio sem pudor ou portas fechadas. Os jogos da seleção representam o momento no qual mais gente se reúne para exercitar o patriotismo de gaveta.

Neste ano, o hino nacional foi assassinado duas vezes, se é possível matar um símbolo de formas repetidas. A primeira foi quando deputados federais festejaram em cima da letra de Joaquim Osório Duque Estrada, depois de promover um espetáculo de grosserias e limitada inteligência na votação pelo afastamento da presidenta Dilma Rousseff. Quem não acompanha política se surpreendeu com o nível de subsolo dos parlamentares, loucos para aparecer na TV.

Na semana passada, a malhação pública do hino nacional se repetiu na outra casa legislativa federal, em Brasília. Os senadores, ao afastar Dilma, mas mantê-la elegível, cantaram o hino e fizeram papel picado da Constituição Federal.

O hino nacional pouco me causa impacto, para ser educado. Não o canto. Mantenho-me silencioso em eventos públicos, em respeito ao que representou na História, não pelo sua exploração atual.

A música e a letra são de um país que não existe hoje. Talvez nunca tenha existido, quando aproximamos a lupa histórica. São símbolos do país do futuro, do gigante que nunca acorda, daquela nação que poderia ter sido.

O hino nacional mais se parece com uma poesia, bela por si mesma, do que um espelho de vidro limpo e brilhante. É necessário esforço para enxergar suas palavras em meio às manchas e ao limo que encobrem a superfície.

Em 7 de setembro, cantar para quê? Na política, o hino nacional está no mesmo time de Deus e da família. Muitos o usam para gastar saliva, mas poucos sabem o que significam. E não falo apenas da óbvia política com mandato, terno, gravata e processos na Justiça.

Obs.: Texto publicado no Diário do Litoral, em 7 de setembro de 2016.

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

O eleitor, um bicho fascinante



Marcus Vinicius Batista

O eleitor jamais pode pagar pelo crime de ser otário. Quando escolhe se abster do processo eleitoral, tomou uma decisão política. Quando opta pela desinformação, ele sinaliza para os candidatos: a preferência por suas limitações.

Perdoe-me pela redundância, mas o eleitor é - numa campanha - quem mais se aproxima do ser humano e suas contradições. Ele merece que se desmonte, por justiça, dois mitos em torno de sua imagem.

O eleitor nunca é uma vítima do processo eleitoral. Muitas pessoas podem se colocar nesta posição confortável, que permite escapar da responsabilidade do voto. O eleitor é, ainda que negue, cúmplice. Ao escolher um palhaço sob protesto, ele o faz ciente de que enxerga a política como circo.

Ao votar em um corrupto de carteirinha, ele o absolve pelo que julga serem pequenas penalidades e aplica - por exemplo - bordões como "rouba, mas faz". A condescendência é o olhar, em última instância, de si próprio no espelho, como defensor e praticante de deslizes cotidianos.

Outro mito diz respeito ao voto por consciência coletiva. O eleitor médio pensa em seus interesses. Escolhe por motivos particulares, e não por causas nobres, amplas e sociais. Há, muitas vezes, o autoengano, mas é retórica para elevar a autoimagem diante da mesquinhez política ou do senso comum.

Suas informações são limitadas, que podem nascer dos círculos de amigos; por razões óbvias, pessoas com quem o eleitor assina embaixo. É ingênuo crer que, em face da descrença política, o eleitor será um ávido consumidor de dados e análises para traçar um panorama que o leve a uma decisão racional em estado puro, o mais próximo possível da neutralidade. O eleitor tem posição definida e que pode ser apenas sustentada por preconceitos, estigmas e moralismos.

Estudos de Ciência Política se repetem na percepção de que o eleitor militante e o eleitor alienado em absoluto são minoria no processo eleitoral. O primeiro é devoto de uma causa, partido e/ou candidato. Não muda de opinião como também defende sua escolha, que pode ultrapassar a fronteira da intolerância.

O segundo cria mecanismos próprios de ausência, que oscilam entre a generalização negativa e a decisão unilateral de ignorar discursos e informações sobre a campanha. Não o confunda com os indecisos. O alienado decidiu não votar ou, na pior das hipóteses, flertar com o voto em branco. Pode, talvez, se divertir com a anulação do voto.

O eleitor a ser caçado pelos candidatos é o volúvel, que namora com um candidato, escuta outro, promete casamento com um terceiro para - quem sabe? - subir ao altar com um quarto nome. É o eleitor que decide nas últimas 72 horas, que pode escolher porque o pai, o marido, a melhor amiga ou a esposa indicaram um candidato. Ou definir o voto dentro do colégio eleitoral, com um santinho que caiu a seus pés durante o trajeto.

Por essas razões, o eleitor é um espécime que me fascina. Sua melhor qualidade: a capacidade de surpreender as raposas.

Caro (e)leitor, em qual perfil você se encaixa?

sábado, 3 de setembro de 2016

O PT rosa e a morte da estrela

PT, por que mudaste de cor? 


Marcus Vinicius Batista

Numa campanha eleitoral com muitos nomes novos e poucas novidades estratégicas, o PT tenta vestir outra roupa. Não se trata da influência de Telma de Souza em torno da candidatura de Carina Vitral (PC do B), a juventude que o PT pediu emprestado pela incapacidade de se renovar. Não se trata da humildade à fórceps que resultou na indicação de Reinaldo Martins como vice na chapa, pelo mesmo motivo.

O horário eleitoral gratuito e a propaganda nas ruas apontam para um PT rosa, de motivação e comportamento dúbios. O Partido dos Trabalhadores ficou rosa, de vergonha? Se você ainda não reparou, caro eleitor, o PT lavou o vermelho e o transformou em um tom politicamente correto.

O que significa a mudança de cor? O marketing político não permite passos sem justificativas. Todos os detalhes são testados. A cor é essencial para composição da identidade visual de uma candidatura.

O verde saiu do Diário Oficial para não denotar propaganda da administração Paulo Alexandre Barbosa. O laranja era um dos símbolos da gestão anterior, de João Paulo Tavares Papa.

Para que serve o rosa? Ou melhor, por que abandonar o vermelho, marca de tantas vitórias e derrotas? O vermelho cicatriza o rótulo de esquerda, que o PT mais uma vez tenta evitar numa cidade controlada pelo conservadorismo.

O PT, na vida prática, deixou de ser esquerda desde que pagou o preço da governabilidade para ascender ao poder, em Brasília. A essência do calvário de Dilma Rousseff, alicerçado por políticas econômicas de assustar até os tucanos, passou pelas alianças com o centrão, de múltiplas cores e fome única de poder. Mas o vermelho, embora somente simbólico, compunha ao menos uma referência de cimento ideológico.

A lavagem do vermelho também alcançou o PC do B, que tem a formação histórica comunista, lá no século passado, até no nome. Um partido derivado do PCB, porém aliado de outras horas do PT, com direito à ministério. Em Santos, coadjuvante em outros carnavais eleitorais. O rosa seria para conversar com parte da classe média, que se queixa do PSDB e sempre olha para os próprios interesses?

O PT pode até tomar um banho de loja para sonhar com o convite VIP, mas nada mais grave do que sumir com a estrela. A estrela foi a arma de resistência empunhada pela velha guarda. A estrela representou, acima de tudo, a ascensão do lulismo, presente no jingle histórico das eleições de 1989, comparável à vassoura de Jânio Quadros nos anais da propaganda política. "Lula lá, brilha uma estrela ..."

Aposentar a estrela em Santos, com discrição, semeia uma série de dúvidas sobre o que o PT pretende para o próprio futuro. É atitude desesperada diante de outra derrota nas urnas? É uma maneira frágil de tentar se livrar dos pecados cometidos em rede nacional? É um sinal de renovação dos quadros e das lideranças? Ou apenas uma maquiagem, para esconder as rugas, as estrias e as celulites políticas?

O PT rosa, por enquanto, é verniz. Mudanças dependem de um tempo mais longo, bem além da eleição em 2 de outubro.

terça-feira, 30 de agosto de 2016

A morte do Horário Eleitoral



Marcus Vinicius Batista

O horário eleitoral gratuito estreou na última sexta-feira e apontou, logo de saída, o que representa no processo político. Quatro dos oito candidatos a prefeito de Santos tiveram problemas para entregar seus programas a tempo de exibição. O que mudou? Nada!

O que poderia ser um vexame de organização ou um retrato da falta de estrutura das campanhas nos permite questionar a finalidade da exibição no rádio e na TV. A própria redução do tempo, de meia hora para dez minutos, duas vezes ao dia, traz boas intenções, mas na prática expõe os velhos vícios da política e a mudança de comportamento do eleitor.

Em Santos, o prefeito Paulo Alexandre Barbosa (PSDB) tem 5 minutos e 45 segundos à disposição. O tempo é fruto da coligação de 16 partidos. Carina Vitral (PC do B) tem 1 minuto e 43 segundos. Os outros seis concorrentes, menos de um minuto cada. Hélio Hallite (PRTB) enfrenta o desafio de ser criativo em oito segundos.

O horário eleitoral perdeu parte de sua função (se é que teve um dia!): apresentar ao público as propostas dos candidatos. Os conteúdos regurgitam velhas fórmulas de marketing político, quando não descambam para o humor involuntário de candidatos que julgam a política como circo.

A disparidade de tempo entre os concorrentes também denota o poder das alianças. E esconde, claro, a distribuição do bolo de cargos e secretarias após as eleições.

O horário eleitoral enfrenta um adversário maior. A TV e o rádio perdem audiência, de maneira irreversível, com o barateamento e o crescente acesso às tecnologias móveis. Mais gente na Internet, mais gente acompanhando conteúdos audiovisuais em YouTube, Netflix e outras plataformas.

O público médio de TV aberta se aproxima dos 50 anos. A audiência entre os jovens com menos 25 anos cai, com tendência a zero. Quem vai assistir a um programa desinteressante, quando não desagradável como o desfile de políticos, muitos com promessas megalomaníacas?

O horário eleitoral gratuito contrasta com a campanha eleitoral pesada nas redes sociais. Só esse sintoma serviria para pensar se este dinossauro não corre sérios riscos de extinção, por invisibilidade. Que as preces se concretizem!

Obs.: Texto publicado no Diário do Litoral, em 28 de agosto de 2016.

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Morrendo abraçados



Marcus Vinicius Batista

As duas primeiras pesquisas - Ibope/TV Tribuna e Enfoque/Jornal Boqnews - apresentaram várias semelhanças na corrida para a Prefeitura de Santos. Além de comprovar a eficiência histórica do acompanhamento deste jornal em eleições, a primeira leitura após o início da campanha mostra o cenário estável, o que é um problema, no caso da sete candidaturas de oposição.

A primeira semelhança aponta para uma vitória no primeiro turno do prefeito Paulo Alexandre Barbosa (PSDB). Em ambas as pesquisas, o prefeito venceria com margem elevada de votos. Como agravante, todos os demais candidatos, juntos, não somam a metade das intenções de voto para o atual prefeito.

O início do horário eleitoral gratuito, na última sexta-feira, não reverterá o quadro. A aliança de 16 partidos em torno do prefeito deu a ele quase 60% do tempo de exposição no rádio e na TV. São 5 minutos e 45 segundos a cada dez minutos.

Dos sete adversários, apenas Carina Vitral (PC do B) tem mais de um minuto. Para ser preciso, um minuto e 43 segundos. Os demais terão segundos para se constituir como alternativa. Hélio Hallite (PRTB), por exemplo, terá que operar o milagre Enéas, com direito à oito segundos no ar.

O horário eleitoral perdeu parte de sua importância ao longo deste século, inclusive por culpa dos próprios candidatos, que oscilam entre a repetição monótona de estratégias e os programas de humor. O horário eleitoral simboliza que a eleição, em Santos, se constitui na disputa entre um elefante no meio da sala, cercado de formigas, que se recusam a trabalhar em conjunto para cutucá-lo.

Todas padecem do Complexo de Clark Kent, praguejando que serão capazes de promover uma reviravolta, sem a visão cristalina de onde se encontram no roteiro. Ou, como muita gente desconfia, correndo em círculos para atrapalhar os colegas da mesma espécie.

A eleição será em 35 dias, o que significa que o prazo cada vez mais apertado reduzirá as chances de uma novidade provocar tremores no prefeito por causa de um segundo turno. Seis dos oito candidatos não passam de 3% das intenções de voto. Somente Marcelo Del Bosco (PPS) toma uma certa dianteira, variando entre 5% e 8%, insuficiente para aparecer no retrovisor do candidato favorito.

O último mês talvez deixe mais claro que situações extremas exigem medidas desesperadas. Por que certas candidaturas permanecem na dança de salão se nasceram com as pernas quebradas? Por que certas candidaturas não se unem se há pouca estrutura de propaganda e dinheiro?

Uma eleição também atrai candidatos que desejam ficar na vitrine. Sem chances, lançam seus nomes de olho em 2018 ou no sonho da próxima eleição para prefeito, em 2020. O problema é que há muita gente para uma vitrine apertada, e todos vestindo roupas com pouca luminosidade para ganhar os olhos do público.

A ironia desta eleição é a incapacidade da oposição de promover uma ressaca. Num mar de marolinhas, o risco é testemunharmos a oposição morrer abraçada, bem antes de alcançar a beira da praia.