terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Atento aos sinais

Dia de rolêzinho ou dia de compras?

Os jovens usam o trajeto como de hábito. Dedos acelerados castigam as teclas, ansiedade para falar em código e combinar o que fazer. Endereço definido, data marcada, causas diluídas entre desejos e queixas. 

Na rua, é fácil localizar os pares. Nomes e origens não representam nada. A aparência e a motivação flexível os unem. Há um inimigo comum: os símbolos que ostentam o que eles não podem ter, o que adorariam conseguir ou o respeito com quem já obteve.

No mundo historicamente separado por muros, estar junto sempre provoca reações negativas. Sacode o modelo mecânico, chacoalha as posições de sempre. O terremoto fica mais evidente quando se percebe que vivemos em tempos de isolamento. Ironicamente, os equipamentos que separam viram as armas da união física paliativa.

À distância, as reações necessitam de rótulos. Escolhe-se um nome, com cheiro de marca, alheio ao grupo de transgressores ou pinçado do linguajar deles. A segunda opção é sempre melhor, porque conecta mais uma característica de inferioridade social. A leitura sobre o que se aproxima é de um blockbuster hollywoodiano. É essencial estabelecer o bem e o mal. O certo e o errado. As regras do jogo à revelia de parte das peças. Individualiza-se a cidadania, como se isso fosse possível. E se fosse você?

O público e o privado se misturam. De quem é o espaço? A rua, o shopping pertencem à quem? Juridicamente, a clareza existe, mas os valores culturais – e o estou pagando - mastigam a letra jurídica. Valores culturais aproximados pelo consumo. Os desejos são idênticos e não distinguem as classes descritas pelos téoricos. O número de prestações, idem. Mas eu moro em bairro bom? Pegamos ônibus diferentes, mas que levam ao mesmo endereço, argumentam.

Para sanar o impasse, convocam-se cassetetes, capacetes, gás e spray de pimenta. Porrada em quem pensa diferente e atrapalha o trânsito, de carros ou de pessoas. Seria tudo por 20 centavos? Ou seria por melhor infraestrutura? Sabemos o que queremos? Ou apenas queremos exalar juventude e zoar? 

Dia de compras ou dia de rolêzinho?

Perdoe-me certo esvaziamento político acima. É provocação pura e simples. O jogo de palavras esconde – mal e porcamente – a ironia diante de tanta violência, tanto de quem participa como de quem assiste, se sente ameaçado e não tolera. É claro, enfurecido leitor, que os protestos de junho e os rolêzinhos de hoje são situações diferentes, com proporções distintas. Mas não deixam de esboçar a decadência do comodismo de muita gente, mesmo em doses homeopáticas, que esgarçaram as amarras que silenciam a desigualdade e as segregações das médias e grandes cidades.

A comparação apenas serve para nos alertar para um dos ensinamentos básicos da História: cautela. Não podemos nos sentar sobre a preguiça mental que nos conduz à leitura rasteira dos fatos. É preciso prudência para não se comprar a primeira versão que vem embalada em retórica de oportunidade.

Nem nos agarrarmos à soberba, mãe da intolerância, que nos permite classificar o que não entendemos e fingimos entender porque colocamos fatos e indivíduos em velhas gavetas, marcadas à fita com rótulos gastos. E muito menos nos deitarmos sobre a cama das certezas, que nos apontam único caminho e camuflam a complexidade do mundo lá fora.

Vândalos, bandidos, baderneiros, filhos do rolêzinho e manifestantes à parte, a História nos ensina também a duvidar do absoluto, que nasce para ser posto em xeque e depois reescrito. Prefiro confiar nela e ficar com as dúvidas. Desconfianças que geram novas perguntas e que nos deixam mais atentos aos sinais, porém certos de que algo nos escapará.

Preciso do principal alicerce da História para solidificar minhas conclusões, quase uma utopia para quem duvida. O tempo – e os novos capítulos que vem de carona – pode fornecer maiores elementos que, contextualizados, indicam maior probabilidade de entendimento. A ausência de tempo, sabe-se, é a arma de quem deseja manter tudo como está. Mata-se a reflexão e encarcera-se a perspectiva de mudança.

A dúvida é, acima de tudo, a muleta que estica o tempo. Que adia a resposta empacotada e permite engrossar o caldo dos porquês. É a vacina que alivia as dores do preconceito e provoca anticorpos de cidadania. Quem sabe o rolêzinho seja um sintoma de um cardápio de novas surpresas sociais? Ou você acredita que se trata apenas de mais um bando de baderneiros que resolveu dar uma volta no shopping?

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

As faces da adoção



Talitha Isabel e Carolina Vidal* 


Andando pelas ruas do bairro Santa Maria, em Santos, chegamos ao número 675 da Rua Carlos Caldeira, poucos minutos antes das 9h. Dali, nasciam os barulhinhos efervescestes de crianças brincando. Em um sobrado de fachada simples, que qualquer pedreiro pensaria em umas dezenas de reparos a serem feitos, funciona uma das três unidades da casa Vó Benedita, que abriga cerca de 30 crianças.

A instituição, fundada em 1976 por Benedita de Oliveira, foi criada com o intuito de abrigar jovens vítimas de abusos, maus tratos ou abandonos. Hoje, com uma equipe de com 35 funcionários, entre psicólogas, assistentes sociais, atendentes de telemarketing, motoboy, motoristas, monitoras, auxiliar de cozinha e limpeza, a Casa é o lar de crianças e adolescentes, na sua maioria, com idade superior a 11 anos.

No Brasil, são 5.400 abrigos como esse. Situação que seria facilmente resolvida se o perfil de criança solicitado por 80% das quase 29.500 famílias inscritas no Cadastro Nacional de Adoção (CNA), fosse mais próximo da realidade de quem espera por um lar.

O CNA, sistema lançado em 2008, com o objetivo de agilizar os longos processos de adoção por meio do mapeamento de informações unificadas, acusa que o perfil mais procurado é de ‘menina, com menos de três anos, de pele branca, sem irmãos e sem necessidades especiais’. É o caso de uma família que está prestes a adotar um recém-nascido que mora na Casa. Eles esperam há oito anos por uma criança que se encaixa perfeitamente às características citadas.

Para adotar uma criança, após preencher uma extensa ficha cadastral, é necessário que o candidato passe por uma maratona de entrevistas com assistentes sociais e psicólogos, aguarde o parecer de juízes, que avaliam o estilo de vida e a situação financeira, o chamado processo de habilitação social. Se aprovados nessas etapas, daí começa a jornada na visita a abrigos e orfanatos em busca do filho. Em Santos, há por volta de 20 técnicos judiciais habilitados para fazer estas entrevistas. 



A assistente social da Casa, Maria Fernanda da Silva Cardoso, diz que o processo de habilitação para adotar uma criança dura por volta de seis meses. O maior problema é a distância entre o desejo de criança ideal das famílias e a realidade das que moram no abrigo. “As crianças que estão aqui, se chegaram bebês, é porque a mãe é dependente química ou moradora de rua. A saúde da criança já está comprometida devido às condições da mãe durante a gestação. Quem é um pouco maior, sempre tem pelo menos um irmão”.

A história descrita no filme Juno (Fox, 2007), onde uma menina de 16 anos, de classe média, tem uma gravidez indesejada e entrega seu filho para adoção, pois se sente despreparada para a maternidade vai contra o cenário relatado por Alethea da Costa Silva, secretária da diretoria da Casa Vó Benedita.

Além dos traumas psicológicos, muitos chegam com a saúde física comprometida, e com a dúvida se a voltarão para a família biológica ou serão encaminhados para outra.

A decisão sobre o futuro dos menores fica por contas dos juízes das Varas de Família. Quando recebem uma denúncia de algum menor em situação de risco, os magistrados suspendem o poder familiar, ou seja, a guarda da criança passa provisoriamente para um membro da família extensiva (avós, tios, primos, irmãos, etc) ou na falta de um parente próximo com condições de manter esta criança (ou crianças, o que é recorrente), a guarda é passada para uma instituição.

Atualmente, em Santos, há em torno de 75 pretendentes a adotar alguma criança, e somente 30 crianças para adoção, sendo que a maioria das crianças está acima dos 11 anos.

O dia-a-dia de quem mora em um abrigo

Pontualmente às 9h30, chega à instituição uma senhora beijoqueira. Por cada criança que passa distribui um beijo, um abraço e um bom dia com um sorriso. Elizabeth Rovai de França, conhecida por todos como ‘Tia Beth’, é a diretora da Casa Vó Benedita e passa o dia dividindo o tempo entre as unidades da instituição. É ela quem ‘segura as pontas’ para administrar o modesto orçamento em torno de R$ 20 mil disponibilizados pela Prefeitura de Santos e complementado por doações.

A instituição ainda conta com ajuda de alguns projetos das Prefeituras da Baixada Santista, grupos de apoio à adoção e ONG’s que também servem de suporte no atendimento, como ‘Projeto Tô Ligado’, Dentistas do Bem, Padrinho Nota 10, Maternizar, CVC, entre outros.



Tratando todos como filhos, Tia Beth faz o possível para que o cotidiano das crianças seja o mais próximo da vida diária de qualquer outra criança. “Todos vão à escola, fazem lição de casa, mexem no computador, brincam, conversam, saem para passear. Quanto aos mais velhos, a instituição sempre busca capacitá-los para o mercado de trabalho, pois assim eles têm maior chance de se dar bem na vida quando chegar a hora de ir”.

Além do cadastro no CIEE (Centro de Integração Empresa-Escola), uma das unidades da Casa é dedicada ao Programa Jovem Aprendiz Petrobrás, que proporciona aos jovens a partir de 14 anos cursos profissionalizantes, palestras e preparação para estágios. Infelizmente, nem todos que vivem na instituição e estão na idade de participar deste programa são elegíveis, pois boa parte está com o calendário escolar bastante atrasado.

A relação entre salário e futuro é discutida antes dos jovens começarem a trabalhar. De acordo com o perfil de cada adolescente, as assistentes sociais e psicólogas preparam cada um para administrar o dinheiro, aconselham e ajudam a economizar. Normalmente, do salário que o adolescente ganha, a casa coloca, em média, a metade em uma poupança. O resto é entregue nas mãos do adolescente.

Além disso, a casa proporciona às crianças e aos adolescentes vários passeios, chamados por eles de ‘Dia Especial’. Vão ao cinema, fazem o dia da pizza ou qualquer atividade para entretenimento. Esses dias só são possíveis graças à ajuda de voluntários ou de instituições públicas ou privadas.

Quando a adoção não dá certo

Érica é um dos adolescentes que moram na instituição. No tempo livre, ela gosta dançar, encontrar com as amigas, e como toda adolescente fica ‘grudada’ no smartphone. Acima de tudo, a atividade favorita é ouvir música, coisa que não parou de fazer nem ao ser entrevistada. Sua paixão pelo funk fez com que a Tia Beth assistisse, junto a ela e outras adolescentes da Casa, ao show do Mr. Catra.

Aos 17 anos, já passou por três tentativas frustradas de adoção, sendo uma delas com membros da família biológica (pai e tia). Érica tem uma irmã, Evelin, de 12 anos, e chegou ao abrigo aos nove. Com dificuldades na escola, ela acaba de terminar o ensino fundamental pelo Ensino de Jovens e Adultos (EJA) e, este ano, começa o primeiro ano do ensino médio paralelo ao curso técnico em enfermagem no SENAC, os primeiros passos para a realização do sonho de estudar Medicina e se especializar em Pediatria.

Apesar da tentativa de reintegração com a família não ter tido sucesso, a adolescente continua muito apegada ao pai. “Ligo para ele toda semana. Ele vem me visitar toda quarta-feira, quando não dá, eu peço autorização e vou até à casa dele.” Sobre a vida após ter que deixar o abrigo, Érica deseja morar numa casa próxima à instituição e ao pai.



Quando a adoção dá certo

Silene Trindade, bancária, 32 anos e Alexandre Barros, empresário, 36 anos, estão casados há apenas cinco anos. Após várias tentativas de engravidar, tratamentos e inseminações que resultaram em cinco abortos nos últimos três anos, Silene se rendeu ao desejo que compartilhava com o marido de adotar uma criança.

O casal já era envolvido com trabalhos sociais em sua igreja e, por um amigo, conheceu a Casa Vó Benedita, onde há um ano é voluntário. Nesse tempo, Silene e Alexandre abriram ficha no Cadastro Nacional de Adoção e começaram a participar dos encontros do Grupo de Apoio à Adoção, todas as primeiras quintas-feiras de cada mês, no Educandário Anália Franco.

Depois de algumas visitas à Casa da Vó Benedita, o casal conheceu Ezequiel, de 12 anos, garoto carinhoso, simpático e meigo. Ele possui dois irmãos, um mais velho e um mais novo, do qual sente bastante falta, pois o caçula foi adotado e a família não quer manter contato com os irmãos, pelo menos por enquanto. Após alguns momentos conversando com o garoto, Silene já havia se decidido que ele era especial, e então o casal decidiu adotá-lo.

Há três meses, Ezequiel possui uma nova família, e ainda faz questão de voltar quase todos os dias à instituição para visitar as tias, os antigos companheiros de casa e o irmão mais velho. Este ano, Ezequiel irá não só viver em uma casa nova, com uma nova família, mas também irá para uma escola particular e para uma escolinha de futebol diferente.

Mesmo com todas as mudanças na vida do filho, o casal não quer que ele perca o contato com os irmãos. Por isso, Alexandre e sua esposa tentam convencer a família que adotou o mais novo a permitir que eles se encontrem.

O casal está surpreso com a aceitação e apoio dos parentes e amigos. O menino é parecido com Alexandre e possui sardas no rosto como Silene. Mesmo com pouco tempo de convivência, essa nova família espera a guarda definitiva, para que Ezequiel se torne filho deles no papel, pois no coração isso aconteceu há muito tempo.

* Esta é a quarta reportagem da série "Os Indesejados", projeto produzido por estudantes de Jornalismo da Universidade Católica de Santos (UNISANTOS). 


sábado, 11 de janeiro de 2014

A descoberta do Maranhão

O único endereço da barbárie?

O Brasil descobriu o Maranhão. Encenou surpresa, dentro de seus próprios domínios, ao localizar um endereço onde imperam o coronelismo, o nepotismo, a corrupção, a pobreza, os baixos indicadores sociais e a violência. Os vídeos que circulam com as decapitações de presos foram a cereja do bolo, recheado com expressões de horror, sangue e reações diante da “novidade”.

O Maranhão é somente a bola da vez, que dava sinais de fazer parte do jogo desde 2009. Um relatório do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) apontava, naquele ano, a superlotação dos presídios e que um em cada cinco detentos estava encarcerado de maneira irregular.

Em 2010, uma rebelião na penitenciária de São Luis durou 30 horas e teve 18 mortes como saldo. Em fevereiro do ano seguinte, seis presos foram decapitados na delegacia de Pinheiro, no interior do Estado. As cabeças foram penduradas em grades.

Qual é a diferença entre a matança no Maranhão e as cenas de barbárie que aconteceram em Goiás ou em São Paulo em anos anteriores? Ou nos acreditamos que no sul maravilha as cadeias são suecas ou holandesas? Nestes lugares, presídios foram fechados por falta de gente. Medidas socioeducativas funcionam.

Em Porto Alegre, um presídio com capacidade para 1900 presos abriga mais de cinco mil. Em São Paulo, fingimos apagar as dezenas de mortes em 2006 ou em 2012 nos conflitos com o PCC? Enterramos nossas lembranças junto com os 111 presos mortos no Carandiru?

É revoltante ver, no noticiário, representantes de instituições de todos os poderes sentados em volta da rainha Roseana. A rainha que declarou que 39 mortes até setembro “estavam dentro do limite que se esperava.” Todos, de promotores a juízes, de deputados à governadora, sabiam sobre a matança. E se calaram.

De cada dez presos mortos em 2013, três estavam no Maranhão, que possui somente 1% do número de detentos do Brasil. Os amigos de Roseana se calaram diante de estupros de familiares, de visitas íntimas em ambientes coletivos, de assassinatos. Apenas se mexeram depois que crianças foram queimadas e a chacina invadiu o noticiário internacional.

Da mesa das autoridades, saíram as soluções patéticas do óbvio, assim como as justificativas cujos autores merecem testes de bafômetro. A governadora explicou que “o Maranhão ficou rico.” Por isso, a violência cresceu. Qualquer indicador social a desmente, nem precisava dizer.

Transferir os líderes para prisões federais? São Paulo o fez há cerca de 10 anos, quando o Governo local ainda negava a existência do PCC. As lideranças semearam a metodologia do grupo em outros endereços. No Maranhão, por exemplo, existe uma franquia. O nome é Primeiro Comando do Maranhão (PCM), que possui – assim como a matriz – estatuto, método de cobrança e filiação e níveis implacáveis de punições.

Outra medida anunciada, uma obrigação, na verdade, é regularizar a situação jurídica dos detentos. Qualquer leigo conhece o problema. Os promotores, procuradores, juízes e desembargadores locais se fingiram de mortos, enquanto gente morria aos montes nas masmorras.

Mutirões midiáticos não resolvem a questão. Enquanto isso, sugestões como um ano de estágio obrigatório para estudantes de direito em penitenciárias, visando amenizar o caos jurídico, são ignoradas. E olha que estas ideias vêm de ministros do STF. Cerca de 100 mil presos, estima o CNJ, não deveriam estar encarcerados. Eles não caberiam no novo Maracanã.

Quando envia forças federais para o Maranhão, o Ministério de Justiça joga para a torcida. Como o curral pertence aos Sarneys, o governo Dilma faz o mínimo e privilegia o silêncio. Faz o cálculo político para não arranhar o PMDB nem o coronel ex-presidente em ano eleitoral.

Recusei-me a assistir aos vídeos com as decapitações. Morbidez demais. Bastaram-me as fotos. Os vídeos não me trariam nada novo, além de cultivar o horror instantâneo das imagens. Imagens redundantes diante de um tumor que se espalhou pelo país inteiro. Doença que é tratada com aspirina e remedinho para febre, com olhares de falsa indignação para as câmeras.

Na Baixada Santista, região onde moro, os presídios também estão superlotados. O que o Governo local anuncia como publicidade? Mais obras. Não dialoga com outras instâncias e empurra o problema, com a anuência de parte do eleitorado, para trás dos muros de cinco metros de altura.

Construir presídio e exterminar bandidos traz votos. Sempre trouxe. A limpeza social, ainda que não assumida como tal, agrada a todas as classes, inclusive as que são marginalizadas.

Não é difícil entender os próximos passos, tamanha a repetição de episódios. Os presos serão transferidos. As mortes reduzem temporariamente. O horror se esvai nas ações estratégicas, como dizem os amigos de Roseana. Obras serão anunciadas pelo mesmo Governo que suspendeu a construção de dois presídios no ano passado. E se mantém a média de nove em cada dez homicídios não investigados no país.

O Brasil seguirá como o quarto país em número de presos. São 550 mil pessoas, 40% no Estado de São Paulo. O país só perde para Estados Unidos, China e Rússia.

O sul maravilha ficará mais tranquilo ao saber que o Maranhão ainda está longe daqui. Isso é coisa da terra sem lei, dos coronéis. Até a próxima descoberta territorial, até as próximas cabeças que irão rolar, literalmente.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Lar doce lar


Bruno Almeida e Daniela Fiscarelli*

Alessandra Silva Novais aguentou por anos a violência vinda de pessoas diferentes. “Eu não queria que minhas irmãs passassem o que passei”, conta Alessandra, que nasceu em Mucugê, no interior da Bahia. Mais velha de seis irmãos, ela ajudava mãe em casa. Sempre gostou de estudar para poder ter uma vida melhor.

Acostumada com dificuldades no trabalho, Alessandra diz que era comum ter de “ir buscar água no rio porque em casa não tinha”. Uma tia a convidou para ir morar em Praia Grande e trabalhar como empregada doméstica. Alessandra aceitou, para poder mandar dinheiro para a mãe.

Como não havia mais vagas nas escolas públicas, ela entrou numa particular e teve de pagar com o próprio dinheiro. Sentia diferença na qualidade do ensino da escola daqui com as das cidades baianas onde morou. Passava horas da madrugada estudando para poder acompanhar os outros alunos.

Alessandra estudava da madrugada porque a patroa a obrigava a trabalhar sete dias da semana, sem folga. E ainda tinha de aguentar fofoca das outras empregadas, que a invejavam por conseguir pagar a escola com o próprio salário. “A raiva das pessoas era de ver que eu queria crescer”, diz.

Limpar 16 banheiros - Mesmo fazendo tudo certo, Alessandra foi demitida num domingo quando, depois de limpar os 16 banheiros da casa, tomou um remédio para uma cólica insuportável e precisou se deitar. “Aguentei aquilo por dois anos. Um dia ela [a patroa] me demitiu e disse para eu voltar para minha terra”.


Depois deste emprego, Alessandra trabalhou em mais quatro lugares. Numa loja de móveis, foi humilhada novamente pelo chefe, que era parente dela. O chefe a chamava de burra porque não sabia mentir para os clientes. “As pessoas achavam que eu era incapaz só pela maneira que a voz sai, pelo meu sotaque”.

Em outro emprego mais recente, o supervisor - que, segundo ela, tinha histórico de agressão e humilhação - jogou uma pasta em seu rosto porque não havia gostado de um serviço. Ao responder porque não fez denúncia de nenhum destes casos, Alessandra diz que tinha medo de não conseguir continuar a mandar dinheiro para a mãe e para os irmãos.

“Aprendi muito com as dificuldades e poupo muito. Hoje, posso comprar e comer o que quero, amo viajar e principalmente ajudar as pessoas. Foi até bom passar por algumas situações, valorizo mais as coisas hoje”.

Quando veio para a Baixada Santista para trabalhar e estudar, Alessandra tinha 17 anos. Hoje, com 38, é pós-graduada em Finanças e Contabilidade. Trabalha como analista contábil e viaja sempre que pode. “As palavras ficam marcadas na gente”.

Mais de 1200 casos - Santos registrou, só no ano de 2012, 1207 mulheres sofreram algum tipo de agressão. São quase quatro casos por dia. Os índices sempre são maiores. Muitas mulheres, como Alessandra, não denunciam os agressores, ainda mais quando se trata de violência psicológica.

No mesmo período, houve também 94 estupros, seis tentativas de homicídio e um assassinato. A cautela necessária no tratamento da mulher agredida exige atenção específica para cada caso, já que a situação é sempre delicada.

Aumenta-se ainda mais a atenção se houver perigo do agressor voltar a praticar violência. “Há pouco tempo veio uma mulher aqui denunciar o ex-marido pela segunda vez. Ele não se conformava com a separação, então invadiu a casa dela, pegou tudo que podia e o que não podia ele quebrou. Além disso, ele deixou o gás aberto para quando ela ligasse algo na casa, explodisse”, conta a recepcionista da delegacia da mulher de Santos, Josette Iauatha.

O agressor foi preso, mas a família pagou a fiança e logo ele foi solto. O ex-marido foi atrás da ex-mulher novamente, ficou esperando-a na esquina de casa e a agrediu. “Em casos assim, nós levamos a vítima para o abrigo especial, que só nós sabemos onde fica”, explicou Josette. Para ter direito ao abrigo, a vítima tem de fazer a denúncia na Delegacia da Mulher.



Cultura do Machismo - “Os passos que as mulheres têm de seguir após sofrerem agressão não são muito bem explicados”, diz a advogada e coordenadora jurídica da Central de Atendimento à Mulher de Santos, Inês Maria Toss. Segundo ela, falta comunicação entre as áreas que cuidam da prevenção e do combate à violência contra as mulheres. Para Inês, esta violência resulta de fatores culturais que alimentavam o machismo. Apesar de a sociedade ter sofrido mudanças, ainda é cultivado um pensamento que explora e inferioriza o gênero feminino.

Sobre esta cultura machista, ela cita uma interpretação comum, simplista e machista do livro “Dom Casmurro”, de Machado se Assis: Bentinho, mesmo levando Capitu à morte pela violência psicológica que praticava, é perdoado, porque há a possibilidade de ter sido traído. Assim, “a mulher é tida como culpada por tudo, inclusive por morrer”.

Comercial de margarina - Segundo Inês, ao contrário do que se pensa normalmente, “a violência doméstica e familiar acontece em qualquer setor social. Não há características comuns a todos os casos”. Ela diz ainda que o “lar doce lar ou a família de comercial de margarina nunca existiram”, e que dentro da casa muitos homens se sentem livres para agredir a mulher física ou psicologicamente, sem que isto resulte em denúncias de terceiros, familiares ou autoridades.

No Brasil, em 2006, foi criada a lei Maria da Penha, que, de acordo com a advogada, “tenta atender a mulher na proteção da sua dignidade humana, no seu direito de conviver harmoniosamente e com direitos básicos, sem sofrer violência física e psicológica, sem ofender sua saúde”.

Inês diz que é preciso mudar a estrutura do tratamento, da reabilitação, e incluir nele os agressores, para prevenir a perpetuação da violência. “Os movimentos sociais hoje começam a pedir abrigo para os agressores que não vão presos. E lá eles recebem atendimento para contextualizar cada caso”.

* Este é o terceiro texto da série "Os Indesejados", projeto produzido por estudantes de Jornalismo da Universidade Católica de Santos (UNISANTOS). 

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

O homem de 8 mil necropsias


Gabriela Nakashima e Mariana Carvalho*

O auxiliar de necropsia policial do Instituto Médico Legal de Santos, Almir Mestre, está na função há 27 anos. Tem um caderno aonde anota o nome de cada vítima que passou por ele. "Desde o inicio, eu escrevo o nome e marco todos que fiz necropsia. Até hoje, eu devo ter feito cerca de 8 mil, entre Guarujá, Praia Grande e Santos”.

Ele ainda se choca com alguns casos, mesmo depois de muito tempo de trabalho. "Por exemplo, os de mortes por acidente de trânsito ou aqueles em que as pessoas saem de casa para trabalhar e antes de chegar nela ou no trabalho elas acabam morrendo lamentavelmente".

Para Almir, a pior situação é receber o corpo de uma criança. "No início da minha carreira de necropsia, mexia muito comigo, e pensava que poderia ser meu filho, meus sobrinhos ou até mesmo alguma criança conhecida".

Preconceito - A profissão é, eventualmente, envolvida em preconceito, como acontece com outras atividades ligadas à morte. Para Almir, a saída é desabafar sempre com a esposa, família e amigos.

O auxiliar de necropsia policial não conta com apoio psicológico no cotidiano profissional. Por outro lado, ele entende que é parte da função sempre conversar com os familiares das vítimas que chegam ao IML. "Sempre procuro conversar com a família dos corpos que vou fazer a necropsia, saber o que houve. Assim, o exame que irei fazer fica mais claro para mim e para o legista."

Escolhido por Deus - No início da carreira, ele não ficava sozinho com os cadáveres. "Eu achava que eles iam levantar coisas assim. Levei alguns meses, o tempo foi passando e eu acabei me acostumando. Hoje fico de noite, de dia, não sinto mais medo."

Trabalhar com a morte, para Almir Mestre, é um sacerdócio. “Acho que as pessoas que trabalham nesse ramo de atividade são escolhidas por Deus."

* Esta reportagem faz parte do projeto “Os Indesejados”, produzido por estudantes de Jornalismo da Universidade Católica de Santos (UNISANTOS)

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Crianças de verdade, profissão de mentira



Esta é a primeira reportagem da série "Os Indesejados", que aborda temas sociais na Baixada Santista. Os textos foram produzidos por estudantes de Jornalismo da Universidade Católica de Santos.

+++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++

Géssika Assis e Samira Lima


Mais ou menos 9h30 da manhã. Eles estão em dupla e sempre o fazem assim. O tempo é muito importante, pois quanto mais cedo chegarem, mais dinheiro os dois garotos podem ganhar. Vitor, de 13 anos, e Igor, de 11, são aparentemente pequenos para a idade.

A verdade é que o dia deles é condicionado ao tempo. Sempre sincronizados, ficam atentos às luzes do semáforo que está na esquina da rua Amilcar Mendes Gonçalves com a avenida Conselheiro Nébias, em Santos, litoral de São Paulo.

Depois que a luz vermelha se acende e os carros param, eles têm exatamente 1 minuto para a apresentação. Então, correm para a faixa de pedestres, se posicionando com a agilidade de meninos magrelos e leves.

Igor está sempre em pé sobre os ombros de Vitor, lançando no ar, uma por vez, as três bolas de tênis. Sem margem de erro, as bolinhas flutuam por cronometrados 30 segundos, podendo demorar até 34. Afinal, eles precisam da outra metade do tempo para percorrer o corredor entre os carros, sorrindo e fazendo o jóia simpático de um polegar opositor infantil.

Os dois meninos se vestem com camisetas simples e desgastadas bermudas pretas e, nos pés, chinelos de dedo, que Igor tira toda vez que vai subir nos ombros do colega.

Ambos moram em São Vicente, mas preferem sair de suas casas todos os finais de semana para irem até o ponto conhecido entre eles como "Azulzinho". Alegam que o valor que conseguem arrecadar é maior se comparado a qualquer semáforo de São Vicente. O apelido foi adotado pelos meninos, devido ao edifício Blue Tower, todo revestido de cerâmica azul, que fica no cruzamento, ao lado do farol.

“Assim, eu acho legal e interessante, é bem melhor do que ficarem por ai fazendo besteiras como usar drogas ou roubar”, diz Adeval Santos Silva, recepcionista do Blue Tower. E assim, não incomoda tanto? “O certo mesmo seria eles estarem na escola, praticando esportes, evitar esse tipo de iniciativa por parte deles”, completa João Carlos Ferreira Costa, protético dentário e morador do mesmo prédio.




Parentes e Danone - Vitor tem dois irmãos, estuda no período da tarde e só vem para o semáforo aos finais de semana. Jasline Tailise da SIlva, de 20 anos e promotora de vendas, que trabalhava no semáforo, os viu e descobriu que Vitor, filho da sua madrinha, era um dos garotos malabaristas. E diz que quem cuida dele e dos seus irmãos é a avó, com 53 anos, enquanto a mãe trabalha em dois empregos: meio período numa empresa de telemarketing e outro durante a noite, em um posto de gasolina.

Durante a conversa com Jasline, o garoto retorna com um danone nas mãos, que ganhou de um dos motoristas. Abre um sorriso e fita com os olhos cor de mel: "Qué, tia?"

Ao ser indagado se alguma vez já deixou a bolinha cair, Vitor responde com um ar sem jeito: "uma vez caiu no capô de um carro, fez um barulhão. O motorista disse 'que isso? Acontece'", diz sorrindo, ao bebericar o danone.

Vitor diz que vem para o semáforo todos os finais de semana para ajudar em casa, comprando as próprias coisas: "Minha mãe ganha 900 reais. Imagina. Comprar roupa e tudo pra nóis três. Daí, comigo não precisa se preocupá."

Igor, muito tímido, fala pouco de si no princípio, mas afirma que também tem dois irmãos. Ele está no "negócio" há dois anos e pretende aprender o malabares com 4 bolinhas.

Os dois meninos utilizam o dinheiro que ganham para comprar roupas de marcas, pois adoram QuikSilver, Oakley, Hollister, e gastam na lan house do bairro onde moram. Dizem que os pais estão cientes desta rotina e que se preocupam com atropelamentos, mas sabem que se proibirem não haverá resultado, já que os garotos iriam da mesma forma para o semáforo.

Cem reais - Ambos chegam por volta de 9h30 e vão embora às 16h, mas depende do valor que conseguem arrecadar: "É uma e vinte e cinco ó. Já fiz setenta e cinco, tia.", diz Vitor, orgulhoso. Mas já receberam de um motorista uma nota de R$ 100.

A dupla conta que sofre denúncias de alguns moradores: “Tem gente que não gosta não, chama os guardinha pra gente. Eles perguntam se a mãe da gente obriga a gente a fazer”. E por isso não ficam em semáforos na avenida da praia, onde obviamente conseguiriam mais dinheiro. Também por que temem que possam perder o dinheiro de um dia todo embaixo do sol. “Quando eles estão com fome, tia, eles vem e pegam nosso dinheiro”, explica Igor. “Só porque o menino não quis dar o dinheiro pra eles, eles foram lá e bateram no menino”, completa Vitor.

O semáforo, para Vitor, o mais velho, tem prazo de validade. "Quando fizer 14 anos, vou pro Camps". E você, Igor? Como vai fazer sem seu parceiro? "Vou continuar sozinho mesmo, tia." E seguem para a praia, aproveitar o fim de sábado como crianças de verdade.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Um ano, um balanço


Final de ano é tempo de balanços e promessas. Na política, é clichê dividir um governo em três etapas. O primeiro ano é a fase em que o novo administrador tenta arrumar a bagunça do antecessor. Os dois anos seguintes são o período de governo, de fato. E o último ano é campanha eleitoral.

O primeiro ano do PSDB na Prefeitura de Santos foi irregular. Mas o que esperar com uma turma de calouros? Meia verdade. Parte do governo atual já estava no poder com o ex-prefeito João Paulo Tavares Papa. O PSDB tinha o vice-prefeito da gestão anterior.

Salvo algumas declarações de secretários, os tucanos evitaram cutucar Papa, que depois se filiou ao próprio PSDB. Há funcionários de primeiro e segundo escalões que são governo há 17 anos, quase a maioridade no poder.

A Prefeitura se escorou em grandes projetos, que soam como promessas de réveillon. O VLT empacou depois de meses se arrastando entre São Vicente e Santos, entre discursos e rusgas jurídicas. O túnel, promessa desde 1927, ganhou uma dúzia de traçados, a pressão popular e a contratação de burocratas pelo Governo do Estado. A Prefeitura se apoiou também em parcerias com o Governo Federal. A Macrodrenagem na Zona Noroeste é o exemplo. Em ano eleitoral, o trabalho – quem sabe? – acelere.

Na política, o primeiro ano de Governo não enfrentou sobressaltos. O filho Paulo manteve ótima relação com o pai Geraldo. O governador esteve na cidade várias vezes, onde anunciou recursos e até falou de projetos que ainda não existiam na Baixada Santista. Até os adversários tentaram capitalizar votos por aqui, como o ministro da Saúde e pré-candidato ao Governo de São Paulo, Alexandre Padilha.

As relações com a Câmara Municipal seguiram com os vereadores – em sua maioria – adestrados pela Prefeitura. Até as medidas mais impopulares, como o reajuste do IPTU e a criação de Organizações Sociais, passaram sem dor, com parlamentares servindo de escudo do governo.

A pedra no sapato foram os servidores municipais. Houve a primeira greve da categoria em 18 anos. O prefeito atual acalmou os ânimos com um abono travestido de reajuste. Assegurou o cessar-fogo por seis meses. A ira dos servidores ressuscitou em dezembro por conta da criação da OSs.

A resposta de Paulo Alexandre assegurou a trégua das festas de final de ano. A Prefeitura anunciou um concurso público com 439 vagas. Uma medida estratégica, que mantém a categoria em compasso de espera até 9 de março, quando acontecerá a prova. Aliás, a folha de pagamento está bem perto do limite estabelecido pela Lei de Responsabilidade Fiscal.

Na área social, o Hospital dos Estivadores – uma das principais promessas de campanha – segue em coma. Nos transportes, a administração congelou a tarifa dos ônibus e enalteceu medidas pontuais, como meia dúzia de ônibus com internet e ar-condicionado.

A cultura permanece como primo pobre, sobrevivendo com os trocados do orçamento e o trabalho apaixonado de muitos técnicos competentes. Por outro lado, a pasta teve que encarar as mortes no Carnaval e o menino eletrocutado em uma das tendas da orla da praia.

Mais de mil moradores de rua acenderam as pressões sobre o governo, que inaugurou centros de atendimento – ainda que insuficientes para a demanda – e acelerou acordos com entidades religiosas para tratamento de dependentes químicos. A administração municipal ignorou pesquisas internas e pagou R$ 221 mil para a Fipe realizar um censo de moradores de rua e descobrir o óbvio, como 90% dos moradores de rua têm problemas com álcool.

Na política, dizem que os governos começam a funcionar no segundo ano. Talvez seja a hora de cuidar, inovar e avançar, verbos tão desgastados na campanha de 2012.