sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Homens de branco



Estive duas vezes, nos últimos 15 dias, no consultório de um cardiologista, para acompanhar uma pessoa próxima. Na primeira vez, ao ver a sala de espera lotada, pensei que assistiria a horas de TV e que tanta gente tornaria a consulta uma versão médica de lanchonete fast-food.

Realmente, esperamos por uma hora e meia. Quando entramos na sala do médico, começaram as surpresas. O cardiologista estava de ótimo humor, ainda que ciente de que teria mais quatro, cinco horas de trabalho. Ele pegou os exames, recomendados por outro profissional, e analisou item por item.

Depois, explicou – didaticamente – para que servia cada um deles. Perguntou sobre os remédios que a paciente tomava e sobre os efeitos provocados pela medicação. Recomendou outro remédio, explicou os motivos para a mudança e quais os efeitos colaterais que poderiam ocorrer. Neste meio tempo, aliviou a conversa com assuntos mais leves.

Pediu para examinar a paciente. Verificou se havia inchaço, fez os exames básicos e explicou o porquê da ligeira elevação da pressão arterial. Voltou à mesa e detalhou novamente cada medicação, quanto tempo deveria tomá-la e alternativas em caso de insucesso. Depois de 40 minutos, pediu que ela marcasse a data de retorno para 15 dias. E foi enfático: “Qualquer problema venha até o consultório. Não espere até o início de janeiro.”

Saímos do consultório com a sensação de que algo estava errado. O comportamento simpático do médico se repetiu na volta, 15 dias depois, o que nos fez pensar que ele se aproximava de um grau de exceção. A obrigação profissional se transformou em mérito, em elemento de diferenciação.

Mais do que se queixar das filas, das esperas sem fim e da falta de infra-estrutura, os pacientes costumam reclamar da ausência de humanidade na relação com os profissionais de saúde. Tive várias experiências de ser atendido ou testemunhar consultas, em plantões de hospitais e pronto-socorros, nas quais os médicos não tocaram nos doentes. Fizeram três ou quatro perguntas e foram taxativos: “virose”. Virou piada em salas de espera.

Em outras situações, o paciente sai com uma lista de exames e sem a certeza de um diagnóstico preliminar. Outro exemplo: um amigo, internado em um hospital de Santos para uma cirurgia cardíaca, jamais viu o médico que o operou em duas semanas que ficou por lá em férias forçadas.

A falta de humanização no contato médico-paciente é assunto recorrente entre profissionais com formação mais antiga, do tempo em que existia médico de família. Eles protestam, por exemplo, contra a ausência de disciplinas da área de humanas nos cursos de Medicina.

Tenho a impressão de que a tecnologia e o avanço científico, se facilitaram o diagnóstico e o tratamento de inúmeras doenças, também colaboraram para fortalecer a visão de que o corpo humano se limita a ser uma máquina para conserto.

O Hospital Santa Catarina, em Blumenau, inicia, em fevereiro, testes com prontuários digitais. O trabalho, pioneiro no país, vai durar um ano. O prontuário eletrônico permite ao médico acessar exames, cuidados recebidos pelo doente, prescrever medicamentos e orientar enfermeiras.

A ferramenta analisa o prontuário e fornece, por meio de um índice, um prognóstico ao médico, com base em temperatura, frequência cardíaca, frequência respiratória, pressão arterial e função renal, entre outros pontos. Apenas 10% dos hospitais brasileiros usam algum tipo de prontuário eletrônico, mas se limitam a controlar agendamento de consultas. 

Independentemente das facilidades tecnológicas, nada substitui o olhar de conforto de quem foi escolhido para diagnosticar ou tratar um paciente. As máquinas servem para auxiliar, jamais para se sentar em um consultório ou se deitar numa maca. E Medicina nunca será mera leitura de dados matemáticos.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

O cinto apertado de Bili



O prefeito de São Vicente, Luís Cláudio Bili, se transformou em um homem avarento, por forças das circunstâncias. Publicamente, ele só fala em reduzir gastos, contar as moedas, economia de guerra. E ameaça processar judicialmente seu anterior. Até ironizou o novo endereço dele, em Limeira, e depois voltou atrás para evitar um mal-estar político. 

O fato é que o prefeito ganhou voto de confiança de muitos moradores, mais por conta dos pecados de seus adversários do que por seus próprios méritos. Assim foi na eleição. Assim foi depois da posse. Até a imprensa tem olhado para o novo prefeito com certa compaixão.

Bili possui os chamados 100 dias de governo como lastro para se proteger das críticas. Por enquanto, Tércio Garcia paga – no campo da retórica – por todos os crimes cometidos, o que me parece justo. Aliás, quando o Ministério Público vai se mover para verificar o que aconteceu na cidade?

Depois dos 100 dias, o novo prefeito terá que mostrar a real situação da administração vicentina. Quanto é a dívida? Ele especulou em R$ 800 milhões. Especulou, pois não tem certeza do rombo.

Em entrevista ao repórter Bruno Rios, do grupo A Tribuna, Bili falou em dispensar duas mil pessoas a médio prazo. Quais serão os critérios? O prefeito novamente se apoiou em estimativas, o que alimenta a desconfiança sobre o número de demissões.

Até o momento, as medidas de contenção de gastos foram vendidas como méritos. Na prática, o prefeito não fez mais do que a obrigação. Reduziu de 34 para 17 secretarias. O que isso vai significar em cortes de aspones e outros que costumam pendurar os ternos nas cadeiras? Menos secretarias não representam, necessariamente, menos gente nas entrelinhas da máquina.

O excesso de secretarias era motivo de piada até entre assessores da gestão anterior. Secretaria de Pesca? Secretaria de Assuntos Metropolitanos? Brincava-se sobre a contratação de paranormais para localizar a sede de tais pastas. Conheci assessores que desconheciam o endereço das secretarias.

O novo prefeito anunciou também o corte dos carros oficiais, tanto para ele como para os secretários municipais. Todos terão que utilizar os próprios carros e pagar o combustível. Bili estimou economia de R$ 300 mil ao mês. A decisão, obviamente, ganhou ressonância política, mas pouco interfere no caos financeiro. Na verdade, é o troco da pizza diante do tamanho do orçamento municipal.

Além disso, prefeito e secretários ganham salários compatíveis para que possam dirigir o próprio carro, pagar a gasolina e bancar suas contas de celulares, sem depender de dinheiro público. E o poder sempre assegura outros benefícios.

No caso dos celulares, os aparelhos serão desabilitados. O prefeito também calculou uma contenção de R$ 120 mil ao mês em contas. O valor, irrisório para os cofres, poderia manter equipamentos essenciais do município. Mas – cá entre nós – trata-se de uma imoralidade ver secretários queimando horas em celulares para resolver problemas (??) das mais variadas ordens.

Por trás da gritaria em conter gastos, o prefeito tenta costurar um cenário político, no qual se desvincula por completo da gestão Tércio Garcia. Honestamente, parece-me difícil em prazo curto. A relação com a dinastia França está no DNA político de Bili, que apoiou o grupo derrotado até anteontem.

Duas décadas de vereança como situação e mais três passagens por secretarias não se apagam do dia para noite. Tanto que alguns espectros do passado permanecem vivos e com poder de decisão no atual governo.

Por hora, a compreensão com quem sinaliza por mudanças drásticas no jeito vicentino de governar, ainda que restrito ao discurso da primeira semana. Até quando os moradores terão paciência? Afinal, um fato é definitivo: Bili conhece a administração de São Vicente até a medula.
 

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

As vísceras do novo prefeito


Com uma semana de governo, o prefeito Paulo Alexandre Barbosa teve que vir a público explicar as contratações para o segundo e terceiro escalões da administração municipal. Parte das contratações seria de profissionais sem a formação adequada para os cargos.

Qual é a novidade? Por que a expressão de espanto? Política é marcada pela previsibilidade. Ou acreditamos que a formação da base de apoio do secretariado seria apenas por méritos?

Se quisermos conhecer um governo, temos que olhar para o segundo e terceiro escalões. É lá que as decisões são colocadas em prática. E é lá que a máquina se mexe nas suas vísceras. Secretários, por vezes, funcionam somente como pára-raios político. E protegem o que se desenha nas entranhas.

Há, de fato, um ponto novo nesta história. A criação do cargo de secretário adjunto. Um ato de coerência, já que Paulo Alexandre entrou no governo do Estado – e dali começou a pavimentar a estrada até a Prefeitura – como secretário adjunto de Educação, no gestão Gabriel Chalita.

A palavra “secretário”, além da remuneração, dá status diferente ao assessor. Ele assume na ausência do titular, tem algum poder de decisão e barganha na pasta, pode ser protegido em caso de escorregão político e colher dividendos quando representa o chefe em atos públicos, mesmo que seja em eventos de menor importância, mas atenda a currais eleitorais.

A nomeação de segundo e terceiro escalões pode ser vista como natural e juridicamente aceita, ainda que seja imoral. Tais cargos são a moeda de troca da corrida eleitoral. São a consequência direta das alianças políticas, dos apoios, das trocas de favores até a vitória nas urnas.

O segundo e terceiro escalões atendem aqueles que se mataram durante a campanha (com bons salários, óbvio) e esperam a retribuição pelos serviços prestados quando o desejo vira poder. A lei da compensação costuma dispensar competência técnica, e sim funcionar por proximidade técnica. Em alguns casos, quando menos o sujeito atrapalhar, melhor!

Neste sentido, não é de se estranhar advogados, jornalistas e outros profissionais em pastas completamente distintas de sua formação acadêmica e experiência profissional. É hora de acomodar todo mundo e selar pacto e língua dos aliados. Com todos os interesses atendidos, a Prefeitura começa a – efetivamente – sair do lugar.

Paulo Alexandre paga o preço pela vitória. Terá que encaixar gente – e alguns sanguessugas – de uma dezena de partidos, mais a turma que sobrou da gestão anterior e tinha afinidade política. Isso inclui também os acordos com o novo Legislativo, onde mantém a maioria como apoio.

A dinâmica da política partidária brasileira funciona desta maneira. Por que seria diferente com os tucanos? Embora a expressão tenha origem nas práticas petistas, todas as legendas têm sua criação de gafanhotos no fundo do quintal. O prefeito, claro, faz o papel dele, em falar sobre competência, idoneidade e ligações com a cidade. São argumentos válidos, porém esvaziados pela retórica genérica.

As nomeações vão prosseguir pelos próximos dias. O rebuliço vai diminuir e será encoberto por outros problemas ou factoides políticos. Mas o fato é que as letrinhas miúdas do Diário Oficial de Santos nunca foram tão lidas, seja por frustração de ter escolhido o homem errado, seja por um sorriso de felicidade.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Está aberta a temporada de caça aos turistas





Márcio Calafiori*

Era o início do verão, começo de noite, muita gente passeando no Gonzaga, anos 1980. Estávamos num bar, três amigos e eu. Na verdade, nem era um bar. Era um boteco, com mesas do lado de fora, no coração do Gonzaga.

Quando eu queria beber uma cerveja, sem mais delongas, costumava dar uma parada ali. Agora com o ar morno do verão e o movimento intenso no bairro, os frequentadores ocasionais eram servidos por um garçom de gravata borboleta, camisa branca e calça preta. Pedimos cerveja. E um dos amigos, argentino que morava em Santos havia três anos, quis caipirinha.

Digamos que, na época, assim como hoje, a cerveja custasse R$ 7,50; e a caipirinha de cachaça, R$ 10. Pois, quando veio a conta, cada garrafa de cerveja e cada copo de caipirinha passaram a custar, de repente, R$ 15,00 e R$ 30,00. Interpelei o garçom: “Amigo, será que você não errou na conta?” “Não, a conta está certa.” Insisti: “Mas não pode estar certa.” “Está certa, sim, mas se quiser reclame lá dentro com o dono.”

Bem, discuti e quase me atraquei com o dono do boteco. Humilhado e ofendido, fui contido e afastado pelos amigos, e um deles, o argentino, pressionado pelos seguranças, achou que em vez de apanhar o melhor a fazer era pagar a conta.

Mais tarde e longe dali, tentando entender a ladroeira, o argentino me disse: “Cobraram a mais porque o garçom achou que nós éramos turistas, eu não falo português.” Ah, é? Pois tudo isso poderia ter acabado de um jeito muito pior, tal como ocorreu com o rapaz que veio de Campinas passar o fim do ano no Guarujá e foi assassinado, esfaqueado nas costas, pelo dono de um restaurante.

Antes de morrer, ele ainda foi covardemente agredido, com a participação dos garçons. Tudo como no Velho Oeste. E por quê? Simplesmente porque reclamou que estavam querendo lhe passar a perna. Alguém poderá dizer que se trata de um ato isolado. Mas fui vítima da mesma atitude vinte e tantos anos atrás por parte de um dono de bar estabelecido num centro comercial, no coração de um bairro importante, numa cidade importante e com o mesmo propósito: faturar mais porque é verão.

Na mente de comerciantes desse naipe, Santos e adjacências estão repletos de turistas otários, dispostos a serem ludibriados. Portanto, todo o cuidado é pouco. Gente assim está disposta a matar.

A tragédia envolvendo a vida desse rapaz deixou mais uma vez evidente que a região não está preparada para receber turistas. Estes não passam de presas fáceis em cidades sem infraestrutura, com parte do seu comércio sem regras claras e decentes, sem a mínima política da cortesia e do profissionalismo, envolvendo justamente um dos segmentos mais valiosos e que mais crescem no mundo — o do turismo.

Os prefeitos que administram a região não circulam, não frequentam bares e restaurantes, não compram em lojas, não andam de táxi? Não conhecem os defeitos das suas cidades e, conhecendo-os, não acham por bem apontá-los e tentar corrigi-los ou pelo menos exigir providências de entidades como as associações comerciais e os dirigentes lojistas? Afinal, para que serve um prefeito? E as secretarias de turismo? E as entidades de classe?

Não existe um jeito de mudar a mentalidade do segmento de serviço, que é no que se ampara boa parte dos municípios aqui, atribuindo conceitos, educando ou seja lá o que for que consiga elevar o nível de atendimento, de comprometimento e de civilidade com quem nos visita e com a própria população? 

O rapaz que veio de Campinas e foi assassinado pelas costas porque ousou reclamar de um ato absolutamente desonesto foi vítima de determinado tipo de mentalidade perversa que diz respeito não apenas ao Guarujá. Por assim dizer, trata-se da filosofia sórdida da região quando o assunto é a economia oriunda do verão, cujo princípio é desde sempre este: está aberta a temporada de caça aos turistas.
* Márcio Calafiori é jornalista.


segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Pela porta dos fundos


Costumo cometer um erro: crer que os políticos podem ser incoerentes. É como se, em idealização, acreditasse que a classe política pudesse dar mais do que realmente está habituada a conceder.

O prefeito de São Vicente, Tércio Garcia, reforçou este raciocínio inicial. Discreto, de poucas palavras, quase silencioso, Tércio se viu obrigado a tagarelar neste final de mandato. Logo ele, que se encaixou sempre no perfil do técnico-administrador. Mas isso não o faz um sujeito que rejeitou a lógica. Foi uma ação esporádica, de quem se sente acuado.

A política, no caso dele, caminha nas sombras, sem apelo midiático, de se descobrir o que foi feito quase sempre depois que já está resolvido. Coerente, o prefeito de São Vicente terminou sua gestão sem holofotes. Pior: deixou o cargo pela porta dos fundos. E a cidade, de bolsos vazios.

Os funcionários públicos estão com salários e outros benefícios atrasados. Vários serviços essenciais, principalmente na área da saúde, podem entrar em colapso, logo na temporada de verão, quando o município entope de turistas. Os problemas financeiros, como queda de receita e atraso no pagamento de impostos, soam como desculpa esfarrapada porque, acima de tudo, costumam ser previstos pelos administradores.

Por trás do discurso vitimizado, Tércio Garcia responsabiliza a população pela negligência de seus assessores financeiros. Se fala em calote, está embutido em sua retórica a falta de compromisso de parte dos moradores da cidade.

Por outro lado, parte da receita do IPTU – em cota única – já estaria comprometida, segundo a nova administração. Servidores de várias áreas ameaçam entrar em greve; no caso da saúde, seria outra paralisação, pelo mesmo motivo: a torneira financeira secou!

Tércio Garcia e seus burocratas administrativo-financeiros foram coerentes como políticos que não farão sucessores; ou melhor, sucessores que juram ser de oposição. Desde que o barco começou a fazer água, o capitão pareceu largar o leme. A fase de transição, mais uma vez, se transformou em teatro de marionetes, que balança para todos os lados sem se fixar em lugar algum. Um finge que passará as informações, o outro finge que sabe do que passa. Na prática, o futuro prefeito se prepara para encarar uma terra arrasada?

Agora, em condição de náufrago, o comandante contrariou uma das máximas da navegação: não foi o último a abandonar o navio. E nada de se agarrar em tábuas de salvação em alto-mar. O porto seguro já estava definido.

Enquanto o novo prefeito fazia a primeira foto oficial para apresentar o secretariado, Tércio Garcia também tirava retrato, mas como o novo secretário de Administração de Limeira, cidade no interior de São Paulo. No mínimo, um ato de ingenuidade política, carniça para os abutres da política local, mas também passível de análise ética.

O final de gestão do atual prefeito é caso de Ministério Público. Qual promotor vai averiguar o que acontece na cidade? E a Lei de Responsabilidade Fiscal? Esperar investigação por parte da Câmara Municipal significa sonhar com o Papai Noel e suas renas em final de ano. O Poder Legislativo sempre abaixou, nos últimos anos, a cabeça para a Prefeitura, em um exemplo de antidemocracia, com a ausência de vereadores de oposição.

A saída à francesa do prefeito vicentino é também um crime moral. Tércio Garcia se defendeu como um administrador marcado pelo compromisso social. Como justificar, então, a derrota de Caio França na Área Continental, a região mais pobre do município?

São Vicente parece que nasceu para ser violentada por dinastias e limpezas políticas. Vários prefeitos, na biografia da primeira vila, largaram a cidade às traças, quando não apagaram ou distorceram registros históricos importantes. Na política, a última impressão é a que fica. No caso de Tércio Garcia, não é preciso pensar estritamente em dinheiro.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Cárcere privado


Fui deixar um amigo em um destes prédios novos, nas imediações do ferry-boat, na Ponta da Praia, em Santos. Era daquelas torres – autodenominação da construtora – que prometiam, no material publicitário, vista para o mar. O canal do estuário tem água salgada, mas me parece um pouco distante da paradisíaca vista marítima, que – por amor à terra – acreditamos ter.

O edifício era uma fortaleza. Para alcançar o elevador, três portões e a identificação junto a dois funcionários. Imaginei que, em instantes, pediriam carteira de identidade, CIC e comprovante de residência. O nome das torres misturava idiomas, mezzo francês, mezzo inglês. Enrolar a língua para falar onde mora eleva o status. Não estou acostumado com tanto glamour. Meu prédio tem o mesmo nome do bairro, Embaré. É fácil de guardar e homenageia a origem indígena, apesar de desconfiar que o critério para escolha do nome não tenha ligação com o Brasil colonial.

O apartamento segue a tendência: possui limite de capacidade humana, como os elevadores. De tão pequeno, o apertamento lota com meia dúzia de testemunhas. Mas o dono garante que a piscina e a pista de skate foram atrações que pesaram na compra. A piscina permanece como sonho de consumo. Por enquanto, só água quente de chuveiro. E o filho, este não é fã de esportes radicais.

A sensação, diante das chamadas torres e seus parques com nomes em inglês afrancesado, é de que estou em uma mini Alphaville. As mudanças urbanas, sem o planejamento adequado para questões ambientais, tentam forçar um modo de vida ainda incompatível com a cultura litorânea.

Fingimos ser paulistanos naquilo que eles têm de pior. Compramos a vida em bolhas de concreto e ferro. A cidade enfrenta problemas semelhantes, como violência urbana e trânsito, mas obviamente em proporções bem menores. Como descartar a praia e seus jardins para nos enfiarmos em shoppings, os cassinos sem roleta, onde se perde a noção de tempo, dentro da estratégia de aumento de gastos?

Ainda não entramos – pode ser questão de tempo – na era dos condomínios fechados, forma moderna de higienização social, modelo de autoexclusão a pretexto de que o mundo lá fora é perigoso demais. Na cultura do medo, procriamos grades, interfones, correntes e funcionários de terno e gravata que nos observam como tipos suspeitos.

Em grandes metrópoles, como São Paulo e Los Angeles, é possível passar meses sem sair do bairro, adquirindo suprimentos para o bunker anti-fim do mundo. E nada de 21 de dezembro, é no calendário brasileiro mesmo! Viramos seres urbanóides, que compramos acessórios imobiliários inúteis, como mercadorias supérfluas na prateleira do supermercado. “Um dia eu uso”, costumamos dizer.

Percebi o primeiro sintoma desta enfermidade social quando procurava apartamento para comprar, há oito anos. Nesta época, os preços dos imóveis eram para humanos. Seres extraterrestres não se encaixavam no público-alvo. A tática era, depois de ver o imóvel, conversar com o zelador ou outro funcionário do prédio. Sempre depois de se despedir do corretor, claro.

Em uma das visitas, o corretor falava dos enfeites que o prédio possuía. Entramos na academia, vazia e com cheiro de borracha virgem. Quando conversei com o zelador, perguntei se a sala de ginástica – ato falho do século passado – era nova. O zelador me olhou surpreso e respondeu:

— Inaugurou há seis meses, mas vive fechada.

— Nenhum morador faz academia?

— A maioria. Mas todo mundo treina fora. Quem vai querer ficar aqui sozinho?

A sabedoria do zelador é a garantia de que certos valores culturais, felizmente, mudam mais lentamente que o frenesi de consumo. Comprei um apartamento, em outro prédio. A sala e os quartos eram mais confortáveis, inclusive porque prefiro dormir com as pernas esticadas.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Até o fim



Dona Eguimar Mendes tem 61 anos. Sofre de um tipo de câncer que ataca os glóbulos brancos. Esta semana, parou no hospital por causa de uma crise renal. Para ela, dor maior do que os partos dos nove filhos. A ex-funcionária pública Silvia Gonçalves, de 48 anos, convive com a neurofibromatose tipo 1, doença neurológica que levou dois de seus três filhos. Em um sonho, a mãe disse a ela que a vida viraria de cabeça para baixo.

A dona-de-casa Sandra Coutinho tem a mesma idade de Silvia. Também possui um filho, de 16 anos. Sandra sofre de lúpus, doença auto-imune que – silenciosamente – ataca vários órgãos de forma simultânea. Ela perdeu as contas de quantas vezes foi desencorajada pelos médicos a engravidar.

A veterinária Fabíola Perroni, aos 36 anos, luta contra a esclerose múltipla, doença neurológica degenerativa. Casada e com dois filhos, Fabíola entende que Deus lhe deu como presente uma cruz para carregar.

As quatro mulheres têm em comum, além das rotinas em consultórios, laboratórios e hospitais, a vida contada em livro. Três delas – Dona Eguimar estava no hospital - se conheceram na última terça-feira, dia 4 de dezembro, no Cineclube Lanterna Mágica, na Universidade Santa Cecília, em Santos.

Elas estavam lá, com parentes e amigos, para assistir à apresentação do livro “Até o Fim”, sensível reportagem das jornalistas Elizabeth Soares e Jéssika Nobre. As duas repórteres se apoiaram nas histórias destas mulheres para produzir um Trabalho de Conclusão de Curso, em Jornalismo.

“Até o Fim” ilumina uma discussão que muitos homens de branco ignoram. O livro aborda a questão dos cuidados paliativos, tema que começa a ganhar espaço na mídia, ao lado de debates sobre testamento em vida, falta de humanização no atendimento e o complexo de Deus de muitos médicos.

Cuidados paliativos é a especialização médica que trata do acompanhamento a pacientes que possuem enfermidades ditas incuráveis. Não se trata de insistir em medicamentos com fortes efeitos colaterais ou em tratamentos invasivos, com prolongamento da dor. Cuidar de maneira paliativa implica em reunir uma equipe multidisciplinar para acompanhar o paciente no final da vida, permitindo a ele enfrentar o que resta da supervisão médica sem sofrimento, com dignidade.

Embora exista uma associação que reúna médicos especializados, falta convencer o sistema de saúde – o que inclui as empresas de planos -, que se alimenta das doenças, jamais da prevenção ou do acompanhamento humanizado. Em São Paulo, há setores de cuidados paliativos no Hospital do Servidor Público, no Hospital do Jaçanã e no Hospital das Clínicas. No HC, o médico responsável só convenceu a instituição de que cuidar paliativamente era importante quando provou que ficava mais barato do que internar em UTI.

Na Baixada Santista, nenhum hospital implantou serviço semelhante. Em um deles, uma assistente social fez curso em São Paulo por conta própria e assumiu todas as despesas. Cuidados paliativos significa mais do que esperar a morte, representa preservar a vida, no sentido de respirar as experiências do trajeto com lucidez, com humanidade.

Dona Eguimar, por exemplo, tem absoluta certeza de que São Pedro vai recebê-la com samba. “A morte desistiu de mim.” Silvia Gonçalves fala com serenidade da virada de mesa que a vida lhe deu, mas a compreende porque teve coragem – nas palavras dela – de continuar em frente. 

Sandra Coutinho driblou prognósticos negativos. Teve um filho dez anos depois de ser desaconselhada por seis médicos. “Minha fé sempre encontra um jeito.” E Fabíola Perroni garante que a cruz ficou mais fácil depois que instalou rodinhas nela. “Meu nome recebeu um asterisco, o que me torna única.” 

A biografia destas quatro mulheres é, mais do que jornalismo de primeiro nível, um conselho sobre a consulta, dia-a-dia, do cardápio da vida.