sexta-feira, 17 de agosto de 2012
O tabu do crack
Eduardo (nome fictício) estava magro demais. Um fiapo humano, só com a roupa do corpo. Morava, há um ano, na rua por conta do vício, que tentara largar duas vezes. Não trabalhava desde então e, quando tentava emplacar algum bico, perdia a vaga pela ausência de documentos. Deixara sua identidade e outros papéis nas mãos de um traficante como parte do pagamento de uma dívida de pedras.
Eduardo, que reencontrara a família depois de adulto, quando emigrou do Nordeste, entendeu duas coisas. A primeira era que não tinha mais como afundar na vida. Virara um indigente. A segunda era que precisava procurar ajuda. Engoliu o que sobrou de orgulho e procurou parentes próximos.
A história de Eduardo, aqui contada de modo a preservar a identidade dele e de seus familiares, se multiplica embaixo das marquises e em praças de Santos. Não é preciso procurar muito para encontrar grupos se abrigando na porta de lojas e residências na Vila Mathias, Marapé, Aparecida, Embaré, Encruzilhada e Gonzaga, apenas para mencionar alguns bairros por onde caminhei esta semana.
O crack se tornou epidemia nacional, mas ainda é visto como um problema jurídico ou de segurança pública. É um olhar necessário, mas que não pode ser visto como único, que descarta quaisquer outras leituras sociais. E, inclusive, vira alvo de manipulação política, com o respectivo silêncio em ano de campanha eleitoral.
Nesta semana, a Câmara dos Deputados aprovou um projeto de lei que aumenta a pena para traficantes de crack. A lei atual define reclusão de 5 a 15 anos para tráfico de entorpecentes. Se o projeto passar pelo Senado, o tráfico de crack passaria a ter pena de, no mínimo, dez anos de cadeia.
A notícia é boa, mas não desata o nó por inteiro. O consumo de crack é um caso de saúde pública, que envolve estrutura de tratamento, internação e recuperação dos usuários. É fundamental a criação de um sistema de atendimento que conecte cidades de uma mesma região, com a formação de equipes multidisciplinares, de médicos a psicólogos, de enfermeiros a assistentes sociais.
Neste ponto, nascem as fantasias, os delírios e os silêncios da classe política. Até o momento, a campanha eleitoral nos traz mais profetas do que administradores municipais. Todos professam em tom abstrato, evitam se comprometer com prazos, programas e medidas concretas.
Quando tagarelam um pouco mais, reciclam (ou resgatam, palavrinha adorada) projetos faraônicos que pulam de gaveta em gaveta há anos. Ou se dizem pais de crianças que já cresceram, tanto tempo faz que a obra foi concluída. Com o atraso de praxe, é claro.
Nenhum candidato abre a boca ou se mostra interessado em mexer na ferida do crack, fora a retórica pontual. Os consumidores vivem nas catacumbas sociais e representam as sombras que muitos desejam limpar de seus olhos. Não é difícil localizar os usuários, espremidos em guetos de vida noturna. A praça do INSS, na Aparecida; a Gruta de N.Senhora de Lourdes, no José Menino; a linha trem, entre as ruas Silva Jardim e Campos Melo.
Eduardo teve sorte. Seus parentes se uniram para ressuscitá-lo. Tios separaram roupas. Ele ficou alguns dias na casa de uma prima. Pode fazer refeições completas até que um dos primos conseguisse vaga em uma clínica particular. Eduardo está internado há um mês, com bons sinais de recuperação. Só falta – e não depende da família - transformá-lo em regra.
sexta-feira, 10 de agosto de 2012
Carta ao Cascão
Caro Cascão, escrevo para me
desculpar com você. Usei seu nome em vão. Não cheguei a gritar aos quatro
ventos. Sequer sussurrei com amigos próximos, como fofoca de família. Mas o ato
de pensar em seu nome me deu a sensação de cometer uma injustiça.
Você, Cascão, nunca espalhou sujeira. No máximo, uma
fedentina que afetou os amigos próximos, principalmente o que fala errado. Por
causa do medo de água, te confundi com outro personagem de seu universo, o
Capitão Feio. Ao morar nos esgotos, este vilão obscuro sempre tentou te arrastar
para o caminho da poluição, mas jamais conseguiu por ser contra sua natureza.
Lembrei-me de você como metáfora do que acontece na minha
cidade. Você personificaria o comportamento de centenas de candidatos que, como
o Capitão, emporcalham o cenário de tantas histórias. E o chiqueiro só aumentará
até outubro.
Os “sugismundos” não são criativos. Copiam uns aos outros
como seres da mesma espécie. Começam a invasão lentamente, com os cartazes
lambe-lambe. Misturam-se a shows, ícones religiosos e publicidade em geral.
Tenho saudades de um grupo que, com humor, escrevia
mensagens em cavaletes de candidatos, há quatro anos. Conheci alguns dos
autores que, espirituosos, entendiam sua arte como protesto e reuso destes
objetos que massacram visualmente as esquinas.
Mas a luta deles é inglória. A sujeira, caro amigo,
ganhou tamanho e mobilidade. Os colantes, antes tímidos, agora ocupam todo o
vidro traseiro dos carros, fora as bicicletas. Nomes, números, slogans clichês
e rostos sorridentes se cruzam em um trânsito cada vez mais entupido pela
cultura do automóvel e pela ausência de políticas públicas de transporte.
Cascão, sua aversão ao banho nasceu na mente e nos traços
em papel de teu pai, Maurício de Souza. Marcou a infância de muitos leitores
iniciantes como eu. Mas você soube “crescer” e estender sua presença em novas
tecnologias para alcançar as crianças de hoje. Minha filha brinca com você e o
restante da Turma da Mônica na Internet. Meu filho te assiste em DVD.
Os clones do Capitão Feio também descobriram o mundo
virtual e o transformaram numa versão emporcalhada da realidade concreta. É
chavão, para eles, citar a candidatura de Barack Obama – o presidente dos EUA,
sabe? – como exemplo de sucesso na campanha nas redes sociais. Mas ninguém leu
as estratégias, todos ignoraram o papel da Internet na política e não
entenderam o contexto particular daquele país.
Por conta disso, eles fizeram da tela do computador uma
caçamba de entulho. São os mesmos santinhos que calam as bocas-de-lobo, agora
na versão on-line. Há candidatos que vomitam fotos de si mesmos a cada meia
hora. Quem se julga mais criativo espalha imagens de eventos. Qualquer
acontecimento de rodapé de página é alçado à notícia do ano. Missa, churrasco,
passeio em calçadão; vida ordinária vira sujeira pública virtual.
Sua sujeira, caro amigo, sempre foi parte de você. Mas
apenas de ti. Entre os que poluem a cidade, há até aqueles que se vestem de
verde. De fato, meio ambiente é uma retórica que sensibiliza muita gente, porém
ausente da prática do dia-a-dia. Se você conhecesse minha cidade, veria quanto
as crianças daqui convivem com o cinza do concreto.
Cascão, peço novamente perdão por
pensar em seu nome. Sua vida pode ser suja, mas com o lirismo único das
crianças que, no máximo, tentam fugir do banho. Por isso, você jamais entenderá
até onde poderá chegar o nível de sujeira dos capitães.
terça-feira, 7 de agosto de 2012
Horário eleitoral, a esperança?
O horário eleitoral
gratuito, que começa em 21 de agosto, parece ser a tábua de salvação para parte
das candidaturas à Prefeitura de Santos. A principal delas é a de Sérgio Aquino
(PMDB). No levantamento divulgado hoje, pelo Instituto de Pesquisas A Tribuna
(IPAT), o candidato do prefeito Papa subiu de 2% para 3,6% das intenções de
voto.
No último levantamento da Enfoque/Boqnews, divulgado na
semana passada, Aquino chegou a 10%, mas segue em quarto lugar. Alcançar dois
dígitos, na verdade, soou como fato isolado. O índice reforça a tendência de
que a candidatura precisa de mais força para realmente pensar em um segundo
turno contra Paulo Alexandre Barbosa. Metade dos entrevistados desconhece que
Aquino é apoiado pelo prefeito, o que pode ser uma vantagem para o candidato do
PMDB.
O
candidato do PSDB, por sinal, somente espera por seu adversário. Na pesquisa do
IPAT, Paulo Alexandre lidera com 40,9% contra 19% de Telma de Souza (PT), percentuais
quase iguais aos do levantamento da Enfoque/Boqnews (39% contra 18,4%).
As
duas últimas pesquisas de opinião apresentam muitas semelhanças que, se somadas
a levantamentos anteriores, se transformam em tendência. Jamais em aposta cega.
Em ambos os casos, Paulo Alexandre apresenta crescimento contínuo e Telma,
repetidas quedas, que alimentam as chances de Beto Mansur.
O
candidato do PP segue em terceiro lugar, mas se aproximou de Telma. Na pesquisa
Enfoque/Boqnews, Mansur subiu de 8,8% para 11,2%. Na IPAT, desceu de 18,3% para
12,1%.
Os dois levantamentos apontam, basicamente, o mesmo percentual para o
prefeito, ainda mais que a primeira pesquisa do IPAT aconteceu em maio deste
ano. No caso da Enfoque/Boqnews, o intervalo foi de apenas um mês. De qualquer
modo, o resultado tornou Beto Mansur – outra vez - perigoso para a candidata do
PT.
Os
dois trabalhos, no entanto, confirmam que é impossível fechar questão no
momento. E reforçam a ideia de que o santista não entrou na
campanha eleitoral. Todos os números apresentados acima são oriundos da
pesquisa estimulada, quando os candidatos são apresentados aos eleitores.
Na pesquisa
espontânea, 54,7% das pessoas ouvidas pelo IPAT não sabem em quem votar. Na
Enfoque/Boqnews, pouco mais da metade poderá mudar de voto até outubro.
Por enquanto, o farol aponta que Paulo Alexandre Barbosa já recebeu a chave do segundo turno. A outra vaga estaria entre dois ex-prefeitos e o escolhido pelo atual administrador. Nesta radiografia, os demais cinco candidatos serão moeda de troca para segunda votação.
sexta-feira, 3 de agosto de 2012
Deus, o candidato
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Dizer, hoje, que o Estado
brasileiro é laico soa como heresia digna de fogueira. A relação entre
política e religião perdeu os pudores como uma pecadora que resolve confessar
seus erros diante do sacerdote. As eleições viraram, em várias igrejas,
extensão do culto ou da missa, onde se discutem - sem máscaras – projetos de
poder.
Não me refiro, claro, aos passeios
que os candidatos fazem às instituições religiosas. Pedir votos sempre
representou um ato tradicional e ecumênico. É tão comum vermos os políticos
sentados na primeira fila de igrejas, templos e até terreiros quanto
presenciá-los beijando crianças e idosos em feiras livres. Na fé eleitoral, o
candidato vê o passeio como protocolo para levar à vitória, com a
complacência de quem recebe o visitante indesejado na casa de Deus.
Segundo o jornal Folha de S.Paulo,
a Assembleia de Deus, por exemplo, estabeleceu como objetivo eleger um
vereador em cada uma das 5565 cidades brasileiras. A liderança da Igreja toma
como base o Censo do IBGE. No país, são 42 milhões de evangélicos, sendo 12
milhões e 300 mil da Assembleia de Deus, a maior entre as pentecostais.
Política e religião nunca se uniram
por missões altruístas, por questões públicas, no sentido literal da palavra.
O namoro é sempre permeado pela rigidez moral, sempre genérica no discurso.
Moral que esconde a intolerância dos moralistas, soldados de primeira ordem
em apontar como os outros devem se comportar socialmente.
O moralismo que contamina a relação
entre política e religião disfarça entendimento e preocupação pela coisa
pública. Por trás da retórica de português correto e de fala mansa, nasce o
olhar segregador que torna a instituição religiosa do candidato um microcosmo
essencial para os benefícios quase que exclusivos das medidas sociais.
O suporte para o projeto de poder é
a mídia eletrônica. Rádio e televisão, que antes atendiam às grandes
instituições, de várias crenças, estão disponíveis para qualquer igrejinha
que aluga um galpão ou compra uma antiga oficina mecânica. Entre os gigantes
da fé, a Igreja Mundial do Poder de Deus, liderada pelo pastor Valdomiro,
arrenda 22 horas diárias de programação televisiva na Rede 21.
O tamanho da casa de Deus não
provoca diferenças na condução da palavra. O discurso político é padronizado
e misturado à rigidez de comportamento, à batalha contra os assuntos que não
se encaixam na doutrina e ao fortalecimento da família, não apenas o núcleo
social mais básico, mas também a igreja como extensão do projeto eleitoral.
O Congresso Nacional, por exemplo,
serve como termômetro da relação íntima entre política e religião. A Frente
Parlamentar Evangélica é formada por 76 deputados federais e três senadores.
Em 2006, eram 32 deputados e quatro senadores. Dependendo da questão
envolvida, a Frente se transforma em bancada da fé, ao incluir representantes
além do protestantismo.
Na eleição presidencial, em 2010,
os parlamentares (e suas igrejas) conseguiram manter o debate medieval sobre
aborto na agenda do segundo turno. É claro que sob a ótica do moralismo
cristão, e não como política de saúde pública. Dilma e Serra caíram,
conscientes, na armadilha, o que esvaziou a discussão sobre economia,
educação e outros temas relevantes para a campanha eleitoral.
Religião sempre será uma ação política porque, quando institucionalizada,
se transforma em entidade com interesses que passam longe da pureza. E
política não é necessariamente religião, embora seja uma questão de fé.
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sexta-feira, 27 de julho de 2012
4.189 mortes
A Polícia Militar de São Paulo matou, nos últimos sete anos, 4.189 pessoas. Deste total, 3.274 foram registradas como “resistência seguida de morte”, denominação genérica impregnada de suspeitas. Outros 915 casos foram considerados homicídios dolosos.
Dois episódios, esta semana, colocaram novamente a PM como sinônimo de matança. O empresário Ricardo Prudente de Aquino foi morto com dois tiros na cabeça na quarta-feira, em São Paulo, depois de uma perseguição por mais de 10 minutos. Ele levou dois tiros a cabeça. Estava desarmado. Os policiais dizem ter confundido um celular com uma arma.
Bruno Vicente Gouveia e Viana, de 19 anos, foi assassinado em Santos. Outras duas pessoas ficaram feridas. Os policiais atiraram 25 vezes contra o Gol onde estavam as vítimas. O motorista do veículo teria ignorado uma blitz porque estava com a carteira de habilitação vencida.
Digo novamente sinônimo de matança porque a instituição é acusada de excesso de violência em toda sua biografia. Da Rota malufiana ao massacre do Carandiru. Dos índices nos anos 90, média de quatro mortes por dia, ao assassinato de quatro rapazes em Praia Grande, sequestrados após a saída de um baile na vizinha São Vicente.
O Brasil chafurda numa guerra civil, principalmente nas grandes cidades. Não dá para ignorar 50 mil assassinatos por ano no país. Os cínicos (governantes e comandantes incluídos) podem argumentar que a PM mata hoje, em média, entre uma e duas pessoas por dia em São Paulo. Seria a metade de 20 anos atrás.
Por outro lado, poderia desfiar um rosário de dados sobre como a PM mata e prende pouco. Dois exemplos: 1) a Polícia Militar de São Paulo mata mais do que todas as forças de segurança dos Estados Unidos; 2) O número de prisões em SP é, proporcionalmente, 108 vezes menor do que nos EUA, o maior sistema prisional do planeta.
Mas estatísticas não justificam mortes. Reforçam a selvageria de quem as comete, na maioria dos casos. Banalizam e desumanizam vítimas e agressores. Servem de manipulação político-eleitoral. E fornecem um panorama geral, mas não se aproximam do contexto nem esclarecem as deficiências estruturais do sistema de segurança pública.
Os tradicionais obstáculos no cotidiano de um policial militar, de salário a armamento, são incapazes de justificar a mentalidade que contamina as relações deste servidor público com a população. A PM realimentou e preservou o olhar da autoridade, cultivo fértil durante a ditadura militar. E tornou trivial certos privilégios no contato com comerciantes, por exemplo, e nas atividades profissionais paralelas, como segurança privada.
A Polícia Militar é temida pela violência, e muitos acreditam que parte da corporação cede às tentações da criminalidade, fiéis à crença da impunidade. Mas parte da sociedade dá respaldo – a omissão é uma forma de concordância – à postura dos policiais. O senso comum cultua a premissa de que “bandido bom é bandido morto”.
Neste sentido, ainda prevalece a associação de que a marginalidade está concentrada em áreas periféricas e personificada em sujeitos sem escolaridade, de cor negra ou parda e jovem. A visão da polícia solidifica a imagem de que nas favelas só residem bandidos. Por trás deste rascunho de rótulo, escondem-se os preconceitos racial e sócio-econômico, compartilhado pela classe média e reproduzido pelos homens de frente da segurança pública.
Como disse o jornalista Caco Barcelos, por ocasião do livro “Rota 66”, a Polícia Militar tem, em sua mentalidade, a proteção do patrimônio, e não das pessoas. O repórter morou dois anos em Paris por conta das ameaças veladas e explícitas de policiais, alguns deles com cargo eletivo, feitas após a publicação do livro.
O cenário de hipocrisia provoca choque quando os policiais dão azar de matar alguém de dinheiro e/ou prestígio social. Ou quando parentes e amigos das vítimas resolvem rasgar a mordaça do medo e implorar – via imprensa – por justiça. Nasce o fingimento do novo, que luta para acobertar a rotina.
Os dois últimos episódios se encaixam perfeitamente nos dois fatores descritos acima. Uma vítima era empresário. No outro caso, família e amigos não se esconderam. Quantas vezes perseguições resultaram em mortes? Quantas vezes ficou no ar a desconfiança sobre drogas e armas encontradas em veículos? Parentes das vítimas negam com veemência a versão dos policiais presos.
Nem a Polícia Civil acreditou na história dos acusados. 25 tiros contra um carro com seis pessoas, “armadas” com um 22 e uma pistola de brinquedo? Quem pratica um sequestro-relâmpago com outras cinco pessoas dentro de um automóvel, conforme a suspeita dos PMs presos?
O treinamento da Polícia Militar é defendido de arma em punho pelos comandantes. Dentro do previsível espírito de corpo, o comando considerou as operações “tecnicamente corretas”, ao contrário do que declararam vários oficiais da reserva à imprensa. Novas perguntas: por que os PMs não atiraram nos pneus do carro do empresário, conforme se ensina em treinamento? Por que os dois tiros não foram disparados contra áreas não-letais da vítima, em vez dos dois tiros na cabeça, obviamente para matar?
As duas mortes, infelizmente, deverão engrossar um enredo de final clichê. As vítimas serão relembradas nas próximas matanças. Os PMs deverão ser condenados e expulsos da corporação. Mas a questão é que, enquanto a polícia brasileira sofrer de complexo de autoridade, continuaremos a testemunhar uma guerra civil digna de transformar conflitos armados em outros continentes em brincadeira de criança.
Dois episódios, esta semana, colocaram novamente a PM como sinônimo de matança. O empresário Ricardo Prudente de Aquino foi morto com dois tiros na cabeça na quarta-feira, em São Paulo, depois de uma perseguição por mais de 10 minutos. Ele levou dois tiros a cabeça. Estava desarmado. Os policiais dizem ter confundido um celular com uma arma.
Bruno Vicente Gouveia e Viana, de 19 anos, foi assassinado em Santos. Outras duas pessoas ficaram feridas. Os policiais atiraram 25 vezes contra o Gol onde estavam as vítimas. O motorista do veículo teria ignorado uma blitz porque estava com a carteira de habilitação vencida.
Digo novamente sinônimo de matança porque a instituição é acusada de excesso de violência em toda sua biografia. Da Rota malufiana ao massacre do Carandiru. Dos índices nos anos 90, média de quatro mortes por dia, ao assassinato de quatro rapazes em Praia Grande, sequestrados após a saída de um baile na vizinha São Vicente.
O Brasil chafurda numa guerra civil, principalmente nas grandes cidades. Não dá para ignorar 50 mil assassinatos por ano no país. Os cínicos (governantes e comandantes incluídos) podem argumentar que a PM mata hoje, em média, entre uma e duas pessoas por dia em São Paulo. Seria a metade de 20 anos atrás.
Por outro lado, poderia desfiar um rosário de dados sobre como a PM mata e prende pouco. Dois exemplos: 1) a Polícia Militar de São Paulo mata mais do que todas as forças de segurança dos Estados Unidos; 2) O número de prisões em SP é, proporcionalmente, 108 vezes menor do que nos EUA, o maior sistema prisional do planeta.
Mas estatísticas não justificam mortes. Reforçam a selvageria de quem as comete, na maioria dos casos. Banalizam e desumanizam vítimas e agressores. Servem de manipulação político-eleitoral. E fornecem um panorama geral, mas não se aproximam do contexto nem esclarecem as deficiências estruturais do sistema de segurança pública.
Os tradicionais obstáculos no cotidiano de um policial militar, de salário a armamento, são incapazes de justificar a mentalidade que contamina as relações deste servidor público com a população. A PM realimentou e preservou o olhar da autoridade, cultivo fértil durante a ditadura militar. E tornou trivial certos privilégios no contato com comerciantes, por exemplo, e nas atividades profissionais paralelas, como segurança privada.
A Polícia Militar é temida pela violência, e muitos acreditam que parte da corporação cede às tentações da criminalidade, fiéis à crença da impunidade. Mas parte da sociedade dá respaldo – a omissão é uma forma de concordância – à postura dos policiais. O senso comum cultua a premissa de que “bandido bom é bandido morto”.
Neste sentido, ainda prevalece a associação de que a marginalidade está concentrada em áreas periféricas e personificada em sujeitos sem escolaridade, de cor negra ou parda e jovem. A visão da polícia solidifica a imagem de que nas favelas só residem bandidos. Por trás deste rascunho de rótulo, escondem-se os preconceitos racial e sócio-econômico, compartilhado pela classe média e reproduzido pelos homens de frente da segurança pública.
Como disse o jornalista Caco Barcelos, por ocasião do livro “Rota 66”, a Polícia Militar tem, em sua mentalidade, a proteção do patrimônio, e não das pessoas. O repórter morou dois anos em Paris por conta das ameaças veladas e explícitas de policiais, alguns deles com cargo eletivo, feitas após a publicação do livro.
O cenário de hipocrisia provoca choque quando os policiais dão azar de matar alguém de dinheiro e/ou prestígio social. Ou quando parentes e amigos das vítimas resolvem rasgar a mordaça do medo e implorar – via imprensa – por justiça. Nasce o fingimento do novo, que luta para acobertar a rotina.
Os dois últimos episódios se encaixam perfeitamente nos dois fatores descritos acima. Uma vítima era empresário. No outro caso, família e amigos não se esconderam. Quantas vezes perseguições resultaram em mortes? Quantas vezes ficou no ar a desconfiança sobre drogas e armas encontradas em veículos? Parentes das vítimas negam com veemência a versão dos policiais presos.
Nem a Polícia Civil acreditou na história dos acusados. 25 tiros contra um carro com seis pessoas, “armadas” com um 22 e uma pistola de brinquedo? Quem pratica um sequestro-relâmpago com outras cinco pessoas dentro de um automóvel, conforme a suspeita dos PMs presos?
O treinamento da Polícia Militar é defendido de arma em punho pelos comandantes. Dentro do previsível espírito de corpo, o comando considerou as operações “tecnicamente corretas”, ao contrário do que declararam vários oficiais da reserva à imprensa. Novas perguntas: por que os PMs não atiraram nos pneus do carro do empresário, conforme se ensina em treinamento? Por que os dois tiros não foram disparados contra áreas não-letais da vítima, em vez dos dois tiros na cabeça, obviamente para matar?
As duas mortes, infelizmente, deverão engrossar um enredo de final clichê. As vítimas serão relembradas nas próximas matanças. Os PMs deverão ser condenados e expulsos da corporação. Mas a questão é que, enquanto a polícia brasileira sofrer de complexo de autoridade, continuaremos a testemunhar uma guerra civil digna de transformar conflitos armados em outros continentes em brincadeira de criança.
domingo, 22 de julho de 2012
Notas sobre uma pesquisa eleitoral
A
pesquisa feita pelo Ibope e publicada pelo grupo A Tribuna, neste final de
semana, confirmou o que outras duas pesquisas indicavam para a Prefeitura de
Santos. Do final de 2011 para cá, Paulo Alexandre Barbosa (PSDB) é o homem a
ser batido. Liderando desde o começo da corrida eleitoral, Paulo Alexandre não
tem fôlego hoje para ganhar no primeiro turno, mas parece assistir da varanda aos
demais adversários brigarem pela segunda vaga no segundo turno.
O candidato tucano não se envolve em
polêmicas, evita debater as feridas do Governo do Estado e insiste em falar
sobre os recursos destinados como parlamentar à cidade de Santos quando andava
de braços dados com o prefeito João Paulo Tavares Papa. Bem orientado, Paulo
Alexandre jamais anunciou o término do namoro político com o prefeito, até
porque parte do eleitorado acredita que o tucano é o candidato de Papa à
sucessão, fator que ajuda a entender a baixa rejeição em todas as pesquisas
eleitorais.
Se Paulo Alexandre apareceu com 35%
no Ibope, Telma de Souza (PT) está com 25%. O percentual assegura com folga o
segundo lugar, mas também constrói um castelo de preocupações. A candidata
paralisou neste número. Como crescer sem virar vidraça? É o velho problema que
Telma enfrenta nas eleições para o Poder Executivo.
Numa analogia futebolística, Telma
seria como o Corinthians. Disputa um campeonato de fórmula conservadora, possui
uma torcida fiel e com bases populares, mas consegue unir as demais torcidas
contra si quando chega às finais. A rejeição de Telma, por exemplo, gira em
torno de 30% nas pesquisas. E redutos tradicionais, como morros e Zona
Noroeste, não representam mais fidelidade cega, natural após 16 anos em que o
PT está afastado da Prefeitura.
O candidato do PP, Beto Mansur,
subiu nas pesquisas. Chegou aos 11%, suficiente para colocá-lo no páreo antes
do horário eleitoral e há dois meses e meio da eleição. O problema de Mansur é,
definitivamente, a rejeição do eleitorado, por volta de 40% em todas as
pesquisas. Qualquer dado isolado compromete o olhar sobre a corrida. Porém,
quando a rejeição se repete em três pesquisas diferentes, em um patamar tão
elevado, é fundamental ligar o sinal de alerta para sobrevivência.
Mansur precisa ir além de listar as
realizações de sua administração. Já se passaram oito anos. Ele também não pode
mais se agarrar à paternidade política sobre seu sucessor. Papa ganhou vida e
prestígio próprios. E não vai empurrá-lo de volta ao Paço Municipal.
A
vida em Brasília também é distante demais do eleitor comum. Sem entrar no
mérito dos itens acima, o candidato do PP necessita sofisticar a estratégia
para reduzir a distância de Telma. Caso contrário, morrerá na praia que tanto
adora caminhar nos finais de semana.
No entanto, as dificuldades de Telma
de Souza e Beto Mansur parecem peixe pequeno diante do alçapão que se abriu na
candidatura de Sérgio Aquino (PMDB). O candidato oficial de Papa chafurda nos
2% da pesquisa Ibope. Nas demais pesquisas, oscila entre 3% e 4%. A pequena
diferença escancara uma candidatura que necessita de curativos para estancar o
sangue.
Aquino apresenta baixa rejeição, até
porque é um ilustre desconhecido. Neste sentido, ele se assemelha ao candidato
do PT em São Paulo, Fernando Haddad, não apenas nos índices de intenção de
voto. Haddad é apoiado por um padrinho forte, mas 40% dos eleitores pesquisados
não o conhecem.
Nas ruas de Santos, multiplicam-se
os cartazes lambe-lambe em que o ex-secretário de Assuntos Portuários aparece
ao lado de Papa. Nas redes sociais, Aquino também está em fotografias com o
prefeito, numa caminhada na orla da praia, por exemplo.
Será que benção de Papa é suficiente
para inserir Aquino – de verdade - na disputa? Aguardar o horário eleitoral
gratuito, como salvação da lavoura, é aposta de virada de mesa? Repetir a
trajetória de Papa não seria rezar para um raio cair duas vezes no mesmo lugar?
Sergio Aquino se encontra atrás de
Fabio Nunes, o Fabião (PSB). Ex-secretário de Meio Ambiente e, portanto, ex-base
de apoio do prefeito, Fabião teve 5% das intenções de voto. Ele é carismático,
possui boa imagem entre os jovens e os ambientalistas de boutique da classe
média. O problema é a falta de dinheiro e o próprio partido, em que parte dos
militantes adoraria estar em outra canoa.
Até onde vai a candidatura de
Fabião? Seria uma nova Marina Silva, de discurso coerente de desenvolvimento
sustentável, a ser abandonada pela sigla na discussão de apoios do segundo
turno? A única saída para Fabião seria “sequestrar” eleitores dos três
candidatos à frente. Como fazê-lo?
As justificativas dos candidatos
para os percentuais fingem variar para alcançar a obviedade. Faz parte do jogo
em curso. Transitam entre a humildade de quem está na frente à retórica de que “pesquisa
é retrato de momento” para quem peleja atrás.
Alguns
sonham com mudanças quando o horário eleitoral gratuito chegar. Outros reforçam
a conversa de gastar sola de sapato e debater propostas com a população. Nada
que manche o figurino pré-determinado para este momento da campanha.
Os demais quatro candidatos, em
legendas nanicas e de dinheiro curto, seguem na posição previsível: a lanterna
das pesquisas. Eventualmente, um ou outro alcança 1% das intenções de voto,
dependendo do instituto.
Um ou outro demonstra
interesse em colocar propostas na mesa. O problema é descobrir se o eleitorado
médio está disposto a ouvi-los. Para os nanicos, a trajetória linear parece ser
a estação de desembarque no início de outubro.
sexta-feira, 20 de julho de 2012
O fim da fraternidade
Santos adora alardear seu
pioneirismo. É culturalmente valioso ser o primeiro em alguma coisa, seja no
esporte, nas artes ou na política. Um exemplo disso é o projeto República de
Idosos, criado há mais de 15 anos e que gerou cópias em várias cidades
brasileiras.
A República de Idosos é uma reprodução adaptada das repúblicas
universitárias. Os moradores passam por uma triagem antes de residir em um
imóvel custeado pela Prefeitura. Lá, dividem as despesas e a administração da
casa, supervisionados por uma psicóloga, uma assistente social e uma operadora
social.
Antes,
os idosos viviam sozinhos e apresentavam dificuldades de relacionamento
familiar. Hoje, muitos deles agradecem pela convivência e pela possibilidade de
socialização, inclusive em outros projetos da Prefeitura.
Santos chegou a ter quatro repúblicas, com
aproximadamente 40 moradores, todos acima de 60 anos. Mas na última semana, a
Prefeitura fechou, em silêncio, a República Fraternidade, localizada na rua
Silva Jardim, perto do Mercado Municipal.
A casa, que pertence a uma instituição particular, apresentava
sérios problemas estruturais. Infiltrações, rachaduras e comprometimento do telhado
eram queixas recorrentes – em outras palavras, uma pilha de ofícios – na
Secretaria de Assistência Social. O imóvel abrigava três moradores, mas tinha
capacidade para receber quatro vezes mais idosos. O número era reduzido por
conta das deficiências da moradia.
A Prefeitura ensaiou mexer no imóvel, mas apenas o
conserto do telhado ficaria em R$ 15 mil. Decidiu fechar a casa e não procurar
outro endereço, embora haja fila de espera para morar nas repúblicas. Dos três
moradores, um se mudou para a residência de uma amiga. Os outros dois foram
transferidos para outras repúblicas, que operam no limite da capacidade.
A decisão de fechar uma das quatro repúblicas de idosos,
um programa reconhecido nacionalmente, simboliza o clássico comportamento de
final de gestão. Por que “inventar” se faltam menos de seis meses para terminar
o governo? Por que se preocupar com os próximos quatro anos se não há garantias
de continuidade?
É fato que parte da administração está preocupada com a
campanha eleitoral, na qual o candidato do governo necessita de uma dose
cavalar de recuperação nas pesquisas eleitorais. E, neste sentido, acredita-se
que a máquina municipal poderá andar com as próprias pernas, guiadas pelo corpo
técnico. Tanto que meia dúzia de secretarias passou para as mãos de
profissionais de carreira, em parte servidores concursados.
O fechamento de uma das repúblicas também indica que, nos
últimos anos, a assistência social não passou de personagem coadjuvante. O
projeto era uma exceção na cidade onde 20% da população têm mais de 60 anos. Na
prática, um oásis diante da quantidade de pessoas que necessitam de moradia,
mas a Prefeitura preferiu seguir o sentido contrário. O serviço encolheu em vez
de se pensar em ampliação.
A Santos
da qualidade de vida é uma ilusão de classe média, que mascara outro município que
sai da toca depois das 18 horas. Para os idosos mais pobres, clínicas de
repouso – para usar o nome politicamente correto – são um sonho distante, salvo
as poucas vagas que aparecem por conta dos convênios entre instituições e
administração municipal.
Santos envelhece de
maneira irreversível, embora não seja um processo exclusivo daqui. É para ontem
a necessidade de se melhorar as condições de vida da população mais velha. É
uma parcela dos moradores que, de fato, não tem mais tempo a perder.
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