domingo, 22 de julho de 2012

Notas sobre uma pesquisa eleitoral


A pesquisa feita pelo Ibope e publicada pelo grupo A Tribuna, neste final de semana, confirmou o que outras duas pesquisas indicavam para a Prefeitura de Santos. Do final de 2011 para cá, Paulo Alexandre Barbosa (PSDB) é o homem a ser batido. Liderando desde o começo da corrida eleitoral, Paulo Alexandre não tem fôlego hoje para ganhar no primeiro turno, mas parece assistir da varanda aos demais adversários brigarem pela segunda vaga no segundo turno.            

O candidato tucano não se envolve em polêmicas, evita debater as feridas do Governo do Estado e insiste em falar sobre os recursos destinados como parlamentar à cidade de Santos quando andava de braços dados com o prefeito João Paulo Tavares Papa. Bem orientado, Paulo Alexandre jamais anunciou o término do namoro político com o prefeito, até porque parte do eleitorado acredita que o tucano é o candidato de Papa à sucessão, fator que ajuda a entender a baixa rejeição em todas as pesquisas eleitorais.            

Se Paulo Alexandre apareceu com 35% no Ibope, Telma de Souza (PT) está com 25%. O percentual assegura com folga o segundo lugar, mas também constrói um castelo de preocupações. A candidata paralisou neste número. Como crescer sem virar vidraça? É o velho problema que Telma enfrenta nas eleições para o Poder Executivo.

Numa analogia futebolística, Telma seria como o Corinthians. Disputa um campeonato de fórmula conservadora, possui uma torcida fiel e com bases populares, mas consegue unir as demais torcidas contra si quando chega às finais. A rejeição de Telma, por exemplo, gira em torno de 30% nas pesquisas. E redutos tradicionais, como morros e Zona Noroeste, não representam mais fidelidade cega, natural após 16 anos em que o PT está afastado da Prefeitura. 

candidato do PP, Beto Mansur, subiu nas pesquisas. Chegou aos 11%, suficiente para colocá-lo no páreo antes do horário eleitoral e há dois meses e meio da eleição. O problema de Mansur é, definitivamente, a rejeição do eleitorado, por volta de 40% em todas as pesquisas. Qualquer dado isolado compromete o olhar sobre a corrida. Porém, quando a rejeição se repete em três pesquisas diferentes, em um patamar tão elevado, é fundamental ligar o sinal de alerta para sobrevivência.

Mansur precisa ir além de listar as realizações de sua administração. Já se passaram oito anos. Ele também não pode mais se agarrar à paternidade política sobre seu sucessor. Papa ganhou vida e prestígio próprios. E não vai empurrá-lo de volta ao Paço Municipal.

A vida em Brasília também é distante demais do eleitor comum. Sem entrar no mérito dos itens acima, o candidato do PP necessita sofisticar a estratégia para reduzir a distância de Telma. Caso contrário, morrerá na praia que tanto adora caminhar nos finais de semana.

No entanto, as dificuldades de Telma de Souza e Beto Mansur parecem peixe pequeno diante do alçapão que se abriu na candidatura de Sérgio Aquino (PMDB). O candidato oficial de Papa chafurda nos 2% da pesquisa Ibope. Nas demais pesquisas, oscila entre 3% e 4%. A pequena diferença escancara uma candidatura que necessita de curativos para estancar o sangue.

Aquino apresenta baixa rejeição, até porque é um ilustre desconhecido. Neste sentido, ele se assemelha ao candidato do PT em São Paulo, Fernando Haddad, não apenas nos índices de intenção de voto. Haddad é apoiado por um padrinho forte, mas 40% dos eleitores pesquisados não o conhecem.

Nas ruas de Santos, multiplicam-se os cartazes lambe-lambe em que o ex-secretário de Assuntos Portuários aparece ao lado de Papa. Nas redes sociais, Aquino também está em fotografias com o prefeito, numa caminhada na orla da praia, por exemplo.

Será que benção de Papa é suficiente para inserir Aquino – de verdade - na disputa? Aguardar o horário eleitoral gratuito, como salvação da lavoura, é aposta de virada de mesa? Repetir a trajetória de Papa não seria rezar para um raio cair duas vezes no mesmo lugar?

Sergio Aquino se encontra atrás de Fabio Nunes, o Fabião (PSB). Ex-secretário de Meio Ambiente e, portanto, ex-base de apoio do prefeito, Fabião teve 5% das intenções de voto. Ele é carismático, possui boa imagem entre os jovens e os ambientalistas de boutique da classe média. O problema é a falta de dinheiro e o próprio partido, em que parte dos militantes adoraria estar em outra canoa.

Até onde vai a candidatura de Fabião? Seria uma nova Marina Silva, de discurso coerente de desenvolvimento sustentável, a ser abandonada pela sigla na discussão de apoios do segundo turno? A única saída para Fabião seria “sequestrar” eleitores dos três candidatos à frente. Como fazê-lo?

As justificativas dos candidatos para os percentuais fingem variar para alcançar a obviedade. Faz parte do jogo em curso. Transitam entre a humildade de quem está na frente à retórica de que “pesquisa é retrato de momento” para quem peleja atrás.

Alguns sonham com mudanças quando o horário eleitoral gratuito chegar. Outros reforçam a conversa de gastar sola de sapato e debater propostas com a população. Nada que manche o figurino pré-determinado para este momento da campanha.

Os demais quatro candidatos, em legendas nanicas e de dinheiro curto, seguem na posição previsível: a lanterna das pesquisas. Eventualmente, um ou outro alcança 1% das intenções de voto, dependendo do instituto. 

Um ou outro demonstra interesse em colocar propostas na mesa. O problema é descobrir se o eleitorado médio está disposto a ouvi-los. Para os nanicos, a trajetória linear parece ser a estação de desembarque no início de outubro. 

sexta-feira, 20 de julho de 2012

O fim da fraternidade


Santos adora alardear seu pioneirismo. É culturalmente valioso ser o primeiro em alguma coisa, seja no esporte, nas artes ou na política. Um exemplo disso é o projeto República de Idosos, criado há mais de 15 anos e que gerou cópias em várias cidades brasileiras.

A República de Idosos é uma reprodução adaptada das repúblicas universitárias. Os moradores passam por uma triagem antes de residir em um imóvel custeado pela Prefeitura. Lá, dividem as despesas e a administração da casa, supervisionados por uma psicóloga, uma assistente social e uma operadora social.

Antes, os idosos viviam sozinhos e apresentavam dificuldades de relacionamento familiar. Hoje, muitos deles agradecem pela convivência e pela possibilidade de socialização, inclusive em outros projetos da Prefeitura.            

Santos chegou a ter quatro repúblicas, com aproximadamente 40 moradores, todos acima de 60 anos. Mas na última semana, a Prefeitura fechou, em silêncio, a República Fraternidade, localizada na rua Silva Jardim, perto do Mercado Municipal.

A casa, que pertence a uma instituição particular, apresentava sérios problemas estruturais. Infiltrações, rachaduras e comprometimento do telhado eram queixas recorrentes – em outras palavras, uma pilha de ofícios – na Secretaria de Assistência Social. O imóvel abrigava três moradores, mas tinha capacidade para receber quatro vezes mais idosos. O número era reduzido por conta das deficiências da moradia.

A Prefeitura ensaiou mexer no imóvel, mas apenas o conserto do telhado ficaria em R$ 15 mil. Decidiu fechar a casa e não procurar outro endereço, embora haja fila de espera para morar nas repúblicas. Dos três moradores, um se mudou para a residência de uma amiga. Os outros dois foram transferidos para outras repúblicas, que operam no limite da capacidade.

A decisão de fechar uma das quatro repúblicas de idosos, um programa reconhecido nacionalmente, simboliza o clássico comportamento de final de gestão. Por que “inventar” se faltam menos de seis meses para terminar o governo? Por que se preocupar com os próximos quatro anos se não há garantias de continuidade?

É fato que parte da administração está preocupada com a campanha eleitoral, na qual o candidato do governo necessita de uma dose cavalar de recuperação nas pesquisas eleitorais. E, neste sentido, acredita-se que a máquina municipal poderá andar com as próprias pernas, guiadas pelo corpo técnico. Tanto que meia dúzia de secretarias passou para as mãos de profissionais de carreira, em parte servidores concursados.

O fechamento de uma das repúblicas também indica que, nos últimos anos, a assistência social não passou de personagem coadjuvante. O projeto era uma exceção na cidade onde 20% da população têm mais de 60 anos. Na prática, um oásis diante da quantidade de pessoas que necessitam de moradia, mas a Prefeitura preferiu seguir o sentido contrário. O serviço encolheu em vez de se pensar em ampliação.

A Santos da qualidade de vida é uma ilusão de classe média, que mascara outro município que sai da toca depois das 18 horas. Para os idosos mais pobres, clínicas de repouso – para usar o nome politicamente correto – são um sonho distante, salvo as poucas vagas que aparecem por conta dos convênios entre instituições e administração municipal.

Santos envelhece de maneira irreversível, embora não seja um processo exclusivo daqui. É para ontem a necessidade de se melhorar as condições de vida da população mais velha. É uma parcela dos moradores que, de fato, não tem mais tempo a perder. 

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Nós, os tubarões e as sardinhas



Depois de dois meses, a indústria do plástico e os supermercados mudaram a estratégia na batalha das sacolinhas. A briga entrou na fase da Guerra Fria, onde as faíscas são abafadas pelo jogo diplomático e pela máquina de propaganda. Embora com mísseis apontados para o adversário, a compostura e o sorriso amarelo são mais importantes para conquistar corações e mentes, como recomenda o clichê da zona de conflito.

Agora, é preciso convencer consumidores e imprensa pela suposta frieza dos números. Nada como adotar a manipulação de dados estatísticos, legitimados por pesquisas de opinião, para confirmar uma tese que flerta com a redundância, enquanto mantém o público em seu papel de coadjuvante.

Na semana passada, o Datafolha divulgou uma pesquisa sobre o fim da distribuição de sacolas plásticas nos supermercados do Estado. De acordo com o estudo, sete em cada dez entrevistados defendem a retomada da distribuição gratuita de sacolas plásticas.

A pesquisa indica também que quatro em dez entrevistados desistiu da compra por conta da ausência de sacolas para transporte dos produtos. E que dois terços acreditam que o fim da distribuição beneficiou os supermercados, enquanto um terço crê em benefício ambiental com a medida.

A pesquisa do Datafolha pode apontar uma tendência de comportamento, mas um detalhe precisa ser ressaltado. O estudo foi encomendado pelo Instituto Sócio-Ambiental dos Plásticos (Plastivida), que atende aos interesses da indústria do plástico.

É claro que isto não abala a credibilidade do Datafolha. Só reforça o argumento de que o óbvio se transforma em “novidade estatística”. A maioria dos consumidores não se acostumou e, evidentemente, ainda rejeita a mudança nos supermercados.

A Associação Paulista do setor se defende com outros números. Em declaração ao jornal Folha de S.Paulo, o presidente da entidade, João Galassi, cita o exemplo de Jundiaí, no interior do Estado. Na cidade, o consumidor teria entendido os benefícios do fim da distribuição. Em números: 77% dos clientes aprovaram o banimento, explicou Galassi.

A disputa entre a indústria do plástico e os supermercados se assemelha à rivalidade entre dois tubarões no tanque de um aquário. Enquanto os donos do espaço estão distraídos com a demarcação do território, sempre sobra espaço para os peixes pequenos se alimentarem melhor, além de que deixam de ser base da cadeia por algum tempo.

Em Santos, é possível perceber o aumento de vendas em muitas padarias, empórios e mini-mercados. Como estão fora do acordo com o Ministério Público, estes pontos de venda transformaram a distribuição de sacolinhas em sinônimo de atendimento diferenciado e fidelização de clientes. Alguns até criaram promoções diretamente ligadas à distribuição de sacolas.

Infelizmente, o debate está limitado à própria pontualidade do tema. Na verdade, exemplifica como o meio ambiente é somente um enfeite na prateleira, sem uma perspectiva aprofundada de mudança estrutural. Ou seja: os supermercados, sem as sacolas gratuitas, continuam como o paraíso de embalagens, a terra do plástico que garante segurança, beleza, qualidade e pureza aos alimentos. Simbolicamente, claro, assim como a guerra entre tubarões da mesma espécie.

sexta-feira, 27 de abril de 2012

O professor que virou bandido

           
Mochilas se transformaram em objetos criminosos. Cores, tamanhos, marcas diferentes, todas podem transportar armamentos pesados, possivelmente camuflados entre papéis, livros, jornais, notebooks, celulares e agendas. Este arsenal é utilizado por estudantes, professores e outros profissionais quando tem a intenção cristalina de, solitariamente, assaltar um banco. Estes marginais não formam quadrilha. São, na mente dos seguranças, lobos solitários. Ou – para alguns gerentes – iscas para roubos cirúrgicos.

Esta semana, um professor tentou sacar dinheiro no banco. Foi a uma agência, recheada de imagens de gente feliz, segura em situações confortáveis. Cartazes e outros tipos de mensagens publicitárias que repetem um mantra, quase um juramento: o banco foi feito para ele.

Ele não precisava entrar na agência. Faria o saque em um dos caixas eletrônicos, pois pretendia pagar duas contas ainda naquela tarde. Estranhou que o acesso estava concentrado na porta giratória. Quinze minutos antes, havia feito um depósito em um banco público, a uma quadra dali, e as áreas estavam devidamente separadas.

O professor carregava uma mochila. Não sabia que adentrava na zona perigosa do padrão meliante. Talvez as cores cinza e azul indicassem ao segurança o risco de violência. Ou a própria mochila fosse um sinal de perigo, que ressuscitava experiências anteriores de criminalidade no local.

O professor foi barrado pelo detector de metais. Entregou chaves, celular, todos os metais que julgava possuir. Ele o fez de boa vontade, sem duvidar de que havia um olhar determinado a constrangê-lo. Não ele exatamente, nada pessoal, mas o sintoma de periculosidade que carregava preso em um dos ombros.

Depois de barrado por três vezes na porta giratória, o professor informou aos dois seguranças que na mochila só haviam papéis. Agora eram dois seguranças – multiplicados e unidos pela atenção ao suspeito –, que reiteravam ao cliente que não poderia entrar na agência. A máquina indicava que a mochila transportava metais.

Em paralelo, uma fila de dez pessoas se formara no sentido oposto, parte com a cara fechada pelo entrave na porta giratória, parte com aquela expressão de “é assim mesmo, deixa disso”.

O professor, há 15 anos correntista do banco, de quem recebeu o cartão com as estrelinhas brilhantes de taxas abusivas, não teve dúvidas. Ele assumiu o personagem e se comportou como um suspeito. Abriu a mochila e retirou o armamento pesado que traria pânico para clientes e funcionários.

Dali, saíram papéis, uma revista, o jornal do dia, dois livros, agenda de compromissos, agenda de telefones, um fichário e uma caderneta. Artefatos capazes de provocar ferimentos graves e mortes em massa. Se acionasse todos ao mesmo tempo, o homem-bomba seria coroado mártir.

Neste momento, com a fila se reproduzindo como coelhos, a gerente foi chamada. Ela aproximou-se dos seguranças, olhou de lado, mediu o professor e, categoricamente, deu o veredicto, como especialista em situações de constrangimento.

— Ah, deve ser o fichário!

A sentença do processo kafkiano resultou no milagre da liberdade. A porta giratória deixou de detectar substâncias condenáveis na mochila e se moveu como as águas de Moisés. O professor foi liberado e pôde efetuar o saque. Com direito à mochila nas costas.

Na saída, dois minutos depois, ele olhou para um dos seguranças, que tentou desviar o rosto, mas não conseguiu ficar surdo.

— Viu? Ninguém foi assaltado. Pode ficar tranquilo. Nunca quis roubar o banco em 15 anos de correntista. Mas o contrário ...

O segurança agradeceu com o sorriso mais amarelo do que o cartaz solar à esquerda, que retratava uma família correndo feliz pela grama verdinha, amparada pelo texto que insistia: o banco era feito para ele.

Ao compartilhar a história, o professor percebeu que o treinamento anti-guerrilha ganhou contornos humorísticos e patéticos. Uma cliente, por exemplo, foi aconselhada a comprar uma bolsa com menos zíperes. Outra recebeu a dica para ir ao banco acompanhada. O guarda-costas particular ficaria do lado de fora para proteger a mochila. Proteger de quem?

Conselhos, assim, talvez sinalizem a contaminação por metais pesados nas portas giratórias. Metais que provocam problemas neurológicos e psiquiátricos, que infectaram e mataram o discernimento e parte da humanidade de homens de gravata e mulheres de terninho atrás de suas mesas. Afinal, mochilas e bolsas são a prova de que quadrilhas informais podem roubar o segmento que mais lucra no Brasil a qualquer hora, ainda mais no horário de expediente.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

O rap vai ao castelo

As duas mulheres cantaram à capela para as 50 pessoas. O refrão “Negra sim, mulata não” paria olhares diversos, da surpresa à admiração. A música Mulata encerrou o ritual de pouco mais de uma hora, que lotou uma sala destinada quase sempre aos debates e exposições acadêmicas. 

Preta Rara e Negra Jack: rap com política

A sala, de número 315 na porta, está acostumada com tons de pele coerentes com a clareza de suas paredes e o ar de higienização hospitalar. Naquela noite de segunda-feira, pela primeira vez, a sala estava dominada por negros, muitos sem a obsessão pelo diploma na parede de casa. Mas todos orgulhosos porque uma deles – assim o sistema universitário os vê, como de outro mundo – chegou ao fim do caminho.

Joyce personificava o regime de exceção. Defendeu seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) em História, na Unisantos, um estudo sobre o movimento hip-hop na Baixada Santista, a partir de 1993, data de nascimento na região. O trabalho foi o mais concorrido do curso. De doutores a gente com ensino fundamental. Universitários de cinco cursos, de Letras a Pedagogia. Parentes, amigos e integrantes do movimento social, cada vez menos uma tribo vista como moda.

Joyce da Silva Fernandes é candidata a uma lista de preconceitos inerentes à sociedade brasileira. Ela tinha várias credenciais para dar errado no país que finge tolerar quem não nasceu europeizado ou não embranqueceu com as benesses do poder econômico ou com a fama das celebridades.

Joyce é negra, mulher e moradora de bairro de periferia. Veste-se com amor pelas raízes africanas. Já foi chamada de macumbeira na rua e quase foi contratada como cartomante. Joyce também é rapper, outro universo dominado pelos homens. Preta Rara, seu nome artístico, também enfrenta problemas por ser caiçara. Ela e Negra Jack formam o grupo Tarja Preta, a primeira dupla de mulheres rappers do litoral de São Paulo. Hoje, apresentam-se mais na Capital e no interior, onde são tratadas com reverência pelo conteúdo politizado e feminista de suas composições.

Naquela noite de segunda-feira, Joyce não era Preta. Joyce era uma professora de História, que se legitimava pelo rigor acadêmico e pela linguagem científica. A força das letras que, por exemplo, denunciam a falsa abolição e a exploração do corpo da mulher se transformou em argumentos para analisar um dos fenômenos culturais da história recente da região.

O rap abriu as portas do castelo, normalmente atento às próprias preocupações da corte. Dentro dele, há mentes resistentes que transgridem ao compreender a necessidade de conversar com o mundo lá fora, de maneira horizontal, sem pedantismo ou arrotos de conhecimento de almanaque. 

O feminismo na rima e na postura artística

A sala 315 serviu de testemunha para um instante único, um ponto de partida para a aproximação da elite educacional com aqueles que dinamizam a cultura na base social, lutam contra os vácuos da era do consumo e constroem novos caminhos de conhecimento sobre o mundo que, inclusive, rodeia os muros do castelo. Naquela noite de segunda-feira, a sala 315 representou a chance concreta de uma sociedade em que brancos e negros, homens e mulheres, possam conviver com senso de coletividade e atenção para os problemas que insistem em permanecer sob o manto da invisibilidade social. 

A sala 315 ainda se constitui como exceção. Abrigará, possivelmente, muitos discursos, por vezes inócuos, por vezes relevantes, mas suas paredes anti-sépticas não conseguirão limpar aquela narrativa, encerrada com duas rappers que, em rimas de indignação, desnudaram a condição da mulher negra, maioria fora do castelo, visitante ocasional dentro dele.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

O chá da tarde na USP

A Universidade de São Paulo se transformou no centro da educação brasileira. Das socialites aos estudantes, dos políticos aos jornalistas, dos com-ar-condicionado aos sem-nada, muitos resolveram incluir a USP na agenda, ainda que não a conheçam, ainda que não a dimensionem dentro do sistema educacional brasileiro.

Com apoio de parte da imprensa, praticante do jornalismo “copia e cola”, pronta para vomitar as versões mais conservadoras ou elitistas, a ocupação da reitoria por universitários se transformou em um circo com uma lona maior do que o esperado. Mas o resultado nos conduziu ao mesmo endereço: a esquina onde a desinformação e o preconceito se encontram.

Estudantes e policiais militares serviram como canais que carregam sintomas de uma sociedade doente, cega como grupo e manca como consciência coletiva. Os estudantes mal são ouvidos. Ouvir com orelhas tortas não é escutar. As premissas indicam que todos ali são maconheiros e filhinhos de papai, frutos de um sistema que privilegia o topo da pirâmide em detrimento da base sócio-econômica.

É claro que muitos universitários se lambuzam com leituras teóricas em diagonal, o que os leva a crer na possibilidade de promover uma revolução sem contexto, como se estivessem congelados na década de 60. No entanto, isso não condena os estudantes que compreendem a natureza ética e social de seus papéis e, acima de tudo, percebem o quanto falta senso de coletividade no meio acadêmico, por vezes afogado em mesquinharias científicas, de costas para o mundo além dos muros e das grades.

Soa irresponsável associar como questão absoluta a vida universitária e o tráfico de drogas. O consumo não representa prerrogativa ou exclusividade do meio universitário. O assunto é questão de saúde pública e permeia todos os segmentos sociais. Associar vida estudantil à compra e venda de drogas lícitas e ilícitas é de um reducionismo ofensivo, máscara de cínicos.

Outro sintoma de uma sociedade fora do eixo é perceber como se distorce o papel e os limites da Polícia Militar. Via de regra, a sociedade teme a polícia e a associa a comportamentos irregulares. Só que, quando precisa de alguém para fazer a faxina indesejável, o mesmo grupo corre para bajular a instituição policial. Na ocupação da reitoria da USP, parte da sociedade – da boca miúda aos gritos histéricos – defendeu que os policiais batessem nos universitários. Que abusassem da autoridade e da violência, tão criticadas na mesa de chá e vibrantes na pele do Capitão Nascimento.

O autoritarismo e a intolerância se misturam com a patrulha do politicamente correto, escravo do pensamento único. A tradução é varrer dos olhos quem pensa ou se manifesta fora do padrão. É marginalizar o alheio, sem direito à defesa ou à voz de reivindicação.

A ocupação do prédio da reitoria da USP, somada aos conflitos com a PM, além dos protestos da última semana importam menos diante de um cenário onde prevalecem a ausência de diálogo e de poder de escuta. Vence o prazer de ouvir os próprios grunhidos de truculência, mesmo que desinformados, superficiais e fragmentados. Neste sentido, PM é guarda de patrimônio, jamais de gente, independentemente da conta bancária.

Alguém se lembrou de aproveitar o calor dos fatos e discutir o sistema universitário, a violência na USP ou a educação brasileira, excludente e formadora de castas? São enredos que não animam a sala de jantar.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

O que o diploma não dá

A educação recebeu uma missão tão inglória quanto improvável. Virou o exorcista que nos salva de todos os demônios. A resposta para todos os problemas sociais, que mascara as feridas na infra-estrutura em diversas áreas, como saúde, transporte e segurança pública.

Dentro da fragilidade deste discurso, tão comum na boca de políticos, empresários e até educadores, teóricos de carteirinha ou não, o diploma ressuscita como o cavaleiro que cravará a espada no peito do dragão da ignorância, da miséria e da exclusão. A banalização chega ao nível de que qualquer canudo serve. A iniciação do aprendiz pode ser via presencial, virtual, em instituição de primeiro time ou na quitanda do seu Joaquim.

Ter diploma seria, pelas promessas de campanha, o passaporte para degraus mais altos na montanha da desigualdade social. As armas para sobreviver à travessia seriam conteúdos em grande quantidade, sem conexão entre eles, informações com serventia imediata e conhecimento que ganha importância se for aplicável em tarefas, nunca em reflexão.

Sempre fomos escravos do diploma como instrumento de poder. O papel servia para diferenciar os doutores dos seres humanos mortais. Estabelecia status e acesso a círculos sociais de chave restrita. Esta visão medíocre ainda persiste dentro de muitos segmentos, inclusive na universidade.

O problema mudou, mas a natureza dele não. A expansão do ensino superior levou o diploma para camadas sociais que jamais poderiam sonhar com ele. A ilusão se manifesta quando a aquisição do diploma representa o final da linha. É o momento em que se percebe o engodo após anos de gastos e privações. O mundo lá fora não se adequou ao papel recebido em festa. Em muitos casos, ignora a essência do documento e exige aquilo que o dono dele não pode proporcionar.

Diante de uma educação cada vez mais tecnicista, as deficiências e as limitações simbolizadas pelo diploma soam mais cristalinas. E parte delas não está na estrutura da casa do saber; aliás, denominação arrogante que indica falsa exclusividade.

O diploma jamais trará decência e caráter. Nada mais frágil do que supor que horas em sala de aula vão parir uma mudança de valores. Pelo contrário, é muito mais comum reproduzir o modelo desigual e cruel do lado de fora dos muros. Parece, para muita gente, aceitável e normal vomitar arrogância e frieza, absorvidas de quem deveria combatê-la ou reforçada pelo distanciamento do mundo.

O diploma jamais entregará sensibilidade. Olhar para o outro, compreendê-lo, aceitá-lo e respeitá-lo pelas semelhanças, mas principalmente pelas diferenças, não é uma lição que pode ser ensinada por disciplina alguma. Não está nos teóricos, muito menos nas correntes de pensamento que unem e rechaçam outras ideias. A sensibilidade reside em nós, que se manifesta nas relações entre as pessoas, independentemente da posição e do número de certificados pregados nas paredes da sala.

O diploma jamais dará poesia de presente. Perceber-se dentro de um cenário e buscar em seus detalhes o combustível para prosseguir é consequência dos requisitos anteriores. Como entender o que está além da janela se não se vê a própria casa? Como entender a importância das frutas do quintal se o alimento é a cobiça sobre o que não existe ou só existe sob forma de inveja?

Não me entenda mal. O diploma é crucial e merece defesa, até porque o problema não parte dele. A enfermidade está impregnada nos seres que o enxergam como passe livre para o poder. Que, acima de tudo, o utilizam para separar, para transformar pessoas em robôs ou gado.

Neste sentido, o diploma é sem cor, gosto ou cheiro, se a educação não servir para abrir a porta e libertar, desde que o viajante tenha a consciência de que pode escolher a rota e refletir continuamente sobre outros caminhos, inclusive suspender a viagem e se lambuzar de prazer na inércia.