sexta-feira, 20 de novembro de 2020

Como parecer 'inteligente' no Dia Nacional da Consciência Negra



Marcus Vinicius Batista

Se você está em crise de abstinência e precisa de uma dose de opinião para se sentir bem nas redes sociais, é só seguir o caminho abaixo. Se você sente falta de ser o protagonista dos grupos de Whatsapp, com o poder de bloquear e atrair seguidores, é só tomar posse das informações deste texto, fruto de anos de achismos e impressões colhidas em almoços, jantares, cafés da tarde onde a aparência é tudo.

Antes, uma sugestão: não se apegue às estatísticas. Nem caia na tentação de distorcê-las. Os números podem ser cruéis com você. Eles exigem sempre mais números, e o palco só estará aberto para você hoje. Amanhã, é ressaca. Para negar qualquer coisa, finja que elas não existem. Estatísticas mantém essa “qualquer coisa” em modo de sobrevivência.

Comece questionando a data de hoje. Sempre funciona. Tira o foco do que importa. Não pareça presunçoso. Não fale no “Dia da Consciência Branca”. Fale em “Dia da Consciência Humana”. Afinal, somos todos iguais, não?

Depois, tangencie – que significa “desviar um pouco” – do conceito de racismo estrutural. Não o explique. Use exemplos de presença negra na sociedade. Policiais, artistas, jogadores de futebol. Você precisa somente indicar que ouviu falar no termo ‘racismo estrutural’. Ouvir falar é o passo para o degrau seguinte.

Na sua ascensão intelectual, questione o racismo inverso. Fale sobre a discriminação que pode alcançar a todos, que o Brasil é uma sociedade onde todos vivem com harmonia. Que alegar racismo contra um grupo só – mesmo que ele seja a maioria, mas – pelo amor de Deus – não toque nisso, lembra dos números? – é manter privilégios, é desejar benefícios. Igualdade sempre.

Agora, é o momento da globalização. Coloque os Estados Unidos na conversa. O Tio Sam vai te salvar. Pode falar em nome Dele. É clichê? Depende de quem te escuta. Fale como o racismo nos Estados Unidos é diferente, que lá é pior. Só ver a violência na TV. Aqui, temos casos esporádicos, que são explorados pela mídia para ganhar dinheiro. E pule para a casinha seguinte. Você está no rumo da sabedoria.

Para não parecer arrogante, entre em questões populares. Futebol. Mencione jogadores, lembre que o melhor de todos é negro, mas fique dentro das quatro linhas. Só jogadores. Não aborde técnicos, dirigentes, médicos, crônica esportiva e assim por diante. Teus amigos, coitados, podem confundir com a Bélgica. Você está aí para esclarecer a democracia racial brasileira.

Democracia é falar em política. Então, cite a Fundação Palmares. Não toque no nome do presidente para evitar perguntas sobre quem não se conhece. Elogie como o governo não é racista, pois escolheu um negro para comandar uma fundação importante. Na retórica política, meu amigo, exceção vira regra. Forma substitui conteúdo.

Não se convenceram de que o Dia Nacional da Consciência Negra é um problema de privilégio? É a hora das cotas. Mesma regra de ouro: na política, exceção vira regra. Forma substitui conteúdo. Repita, por favor, em voz alta! Fez? Ótimo, se agarre nas fraudes, aquelas exceções que saíram na imprensa que, de vez em sempre, está do nosso lado. Se se sentir acuado, Google neles. Tudo o que sai publicado é verdade.

Agora é o momento de conter os ânimos e gerar identificação. Pegue o touro pela unha e pelo coração. Torne a coisa pessoal, meu caro. Ancestrais, relações pessoais, afetividade. Conte a história de seu tataravô que era negro, daquela prima do interior – se não lembrar do nome, tudo bem – que é negra, do amiguinho da sala de aula, o único em oito anos. De como seu tio trata bem os empregados. Na mosca! Você vai parecer sensível e provocará lágrimas nos outros. Se quiser, pode chorar também. Não é fraqueza, não.

Você conseguiu se recompor? Então, lidere e termine a conversa – dê a última palavra, sempre, como mantra para vencer – com o vídeo do Morgan Freeman. Quer melhor saída do que pegar emprestada a fala de quem interpretou Deus? Mas só use o trecho da negação. Mais do que isso, há o risco de brotar contexto, essa praga que contamina quem gosta de estudar.

Espero que dê certo. Tenho certeza de que você vai parecer ‘inteligente’ no dia de hoje. Até porque você falará com propriedade arrendada de algo que parece que não existe: o racismo. E dia 20 de novembro, meu querido, hoje é seu dia!


quinta-feira, 5 de novembro de 2020

Mulheres raras


 Marcus Vinicius Batista


Raras são as mulheres que nunca conviveram com o fantasma do abuso sexual. Que não conhecem um relato, uma história, um fragmento de dor de alguém, próximo ou distante, vítima da violência masculina no Brasil. Isso quando não protagonizam o episódio e, daí em diante, entram numa alameda escura sem possibilidade de escolha ou retorno.

Raras mulheres são aquelas que nunca sentiram uma mão boba no ônibus ou metrô lotado. Ou o homem sentado ao lado, que finge dormir ou explicita seu ato num sorriso maroto, cujo cotovelo escapa e esbarra em seus seios. A mulher que testemunha o corredor diminuir de tamanho, aperto que “autoriza” o sujeito se encostar nela e espremê-la enquanto ele olha para o mundo lá fora numa simulação de movimento que entende como natural.

Raras mulheres são aquelas que nunca foram reprovadas por olhares – e, às vezes, por palavras de moral e bons costumes – por conta de suas roupas, sua maquiagem, seu jeito de andar, falar ou se sentar, como se dessem salvo-conduto para que os homens agissem de acordo com suas “necessidades”.

Raras são as mulheres que nunca foram classificadas entre duas categorias: a mulher para casar e a mulher para sacanagem. A sinhazinha e a mucama. A reprodução moderna da Casa Grande e da Senzala que permite ao homem ter dois comportamentos, um para o cidadão de bem que adestra e exibe a mulher, outro para o cidadão de bem que precisa “libertar suas energias”.

Raras são as mulheres que nunca se sentiram culpadas ou envergonhadas por serem vítimas de violência. A palavra dura, o tapa, o controle financeiro, a humilhação pública diante de amigos e parentes, a ausência de escolha profissional, o sexo quando o outro deseja. “Não foi nada”, recomenda-se justificar. “Eu mereci”, sugere-se repetir em público. “Ele trabalha tanto”. “Ele está com problemas”, segue o receituário.

Raras são as mulheres que, violentadas, conseguem denunciar a selvageria dos “homens que não sabem o que fazem”. Que conseguem enfrentar a desconfiança de gente do sistema de segurança, do sistema de saúde, do Poder Judiciário, de muitas religiões.

Raras são as mulheres que foram ouvidas quando disseram não, não quero. É preciso ser chata, desenvolver melhor a comunicação para lidar com a surdez alheia, com a cegueira seletiva do outro, que – inclusive neste caso – considera a persistência uma qualidade.

Raras são as mulheres que podem beber em público sem serem observadas como vadias. Homem enche a lata. Mulher dá vexame. Homem é o engraçadão da turma. Mulher está seduzindo. Se estiver de saia curta, batom vermelho e decote, ela está pronta para o abate, como muitos gostam de pronunciar. Ela está querendo, ela está pedindo, falas que envolvem os casados, solteiros, tiozões do churrasco, bêbados ou sóbrios.

Raras são as mulheres que aparecem nas estatísticas de violência sexual, crime no qual se estima que somente 10% dos casos são notificados. E raras aquelas que vão testemunhar a condenação do agressor, com quem conviveram em família, em casa, na vizinhança, no trabalho.

Raras são as mulheres que nunca ouviram seu desempenho profissional ser associado à capacidade de seduzir o chefe, o colega de trabalho. Ou, por outro lado, que nunca ouviram uma piada feito só brincadeira, uma palavra obscena fantasiada de estava só comentando, que é isso, você está exagerando. O teste do sofá, uma instituição brasileira que beira ser item curricular.

O Brasil, ao contrário, não é um país raro. É um lugar comum, na sua perversidade particular de lidar com mulheres. O país da minha filha, nunca. Será? Mas a do outro, quem sabe? 

quarta-feira, 4 de novembro de 2020

Estuprador, você está autorizado!





Marcus Vinicius Batista

Caro estuprador não intencional,

Maldita imprensa competente que resolve divulgar as coisas que deveriam ficar nas sombras! Mas, pensando bem, você acaba de receber uma notícia daquelas que valem o ano, que valem a sua liberdade. Desculpe-me, vai, temos que nos descontrair. Até porque as pessoas levam essa história de violência sexual muito a sério.

Os homens não sabem o que fazem, já dizia a velha frase. Os outros homens, aqueles que têm dinheiro, status, amigos poderosos. Esses se arriscam demais. E nos chamam quando a coisa esquenta. Tá cheio de câmeras por aí. Tá cheio de gente cheia de razão e queixas – principalmente essa mulherada ativista com falta de louça para lavar.

Somos a exceção. Nós protegemos vocês. Nós somos homens com H maiúsculo. E protegemos com intenção mesmo, alegando justamente o contrário para acolher vocês, chamados de estupradores por uma sociedade cheia de moralismo quanto ao sexo.

Nós não somos apenas bons de lei. Somos bons de lábia. Somos criativos a ponto de distorcer a própria lei e fingir que há outra que não existe. Dominamos as palavras. Viu nossa criação: ESTUPRO CULPOSO. A contradição em si vira expressão única, sinônimo de machismo, privilégio, mas também de consciência e lealdade de gênero. Estupro Culposo tem que ser escrito em letras garrafais, tamanha a genialidade do nosso Frankstein de terno, gravata e toga.

No entanto, saiba que toda palavra é letra morta – sempre quis dizer isso – sem o teatro do absurdo. Se você não sabe, é um modelo teatral mesmo – essa não inventamos -; apenas distorcemos o conceito a nosso favor.

Nós nos revezamos no palco em três personagens. Um cria o termo, o outro fica em silêncio ou – no máximo – chama a atenção com polidez. E o terceiro...Ah, o terceiro é carrasco e executor. Faz o trabalho sujo para limpar a casa. Aquele quem coloca a mulher no seu devido lugar. De novo. De novo. E de novo. Sacou o erotismo desta sequência? Como você fez quando ela também fez seu teatrinho. Como não queria se estava lá? Então ficasse em casa!

Você apenas atendeu seus desejos, estimulados por ela, claro. Olha as fotos que posta nas redes sociais. Tá querendo o quê? Olha as roupas que usa, a maquiagem, o cabelo, o andar, como fala e sorri com as amigas. Tá querendo...E você, qualquer que seja você, um dos 135 supostos agressores diários no Brasil, não faz com intenção. São as intenções da natureza humana, é preciso dizer o óbvio. Você, redundante dizer, é vítima da sedução da carne. Da sedução de quem estava com más intenções.

Meu caro estuprador, você não tem culpa de a sociedade ser assim. E nós estamos aqui para ajeitar tudo, corrigir a rota, fazer Justiça, colocando os nomes corretos nas ações e, principalmente, nas pessoas envolvidas. Você pode ter algum trabalho, passar algum sufoco, ouvir umas besteiras desta mulherada, mas é parte do jogo. Não se mantém tudo como sempre esteve sem algum esforço, habilidade, talento e união.

No final, costuma dar certo. Batemos o martelo: a culpa é da vítima!

Atenciosamente, Clube dos Machos – sub-sede Santa Catarina

quinta-feira, 22 de outubro de 2020

Humor e preconceito



Mariana Amarante

O humor no Brasil, por muito tempo, foi dominado por homens brancos, cis e heterossexuais, assim como todos os outros aspectos da sociedade. Portanto, é possível perceber inúmeras semelhanças nas piadas, visto que a maioria tem um alvo em comum: as minorias.

As piadas estereotipadas existem há muito tempo, sempre usadas como uma forma de retratar, de forma “engraçada”, o que a sociedade pensa de fato. Piadas preconceituosas repetem um discurso agressivo, na tentativa de manter as minorias no lugar que elas lutam para sair, além de serem rasas, sem reflexão e possuírem um único objetivo: atacar os que sempre foram atacados.

Atualmente, o questionamento sobre o limite do humor está ganhando cada vez mais força, fazendo com que muitos comediantes (não todos) repensem o tipo de piada que criam e reproduzem, e o público questione o que o faz rir. Estabelecer um limite para o humor é uma tarefa complexa, pois nos força a enxergar além da nossa “bolha” e questionar o papel da piada na sociedade.

Na minha concepção, o humor exige diálogo. O comediante deve, de certa forma, estabelecer uma conexão com o seu público, possibilitando, assim, uma troca e um crescimento para ambas as partes. O humor pode ser entretenimento e fazer com que o público tenha um momento de alívio, mas também deve trazer reflexões. 

As piadas são uma ferramenta de enfrentamento da realidade, muitas vezes fazendo com que seja mais fácil refletir e encarar situações complexas. Sendo assim, acredito que piadas estereotipadas não levam a lugar nenhum, apenas reforçam os problemas sociais já existentes, ao invés de confrontá-los.

Vários humoristas dizem que o humor precisa de um alvo, e concordo com isso. Entretanto, é necessário escolher o alvo correto. Se o tema é racismo, a piada não deve ser racista, mas sim dialogar com o público de forma que o faça refletir sobre o quanto o racismo está presente na nossa sociedade atual e fazê-lo chegar a conclusão de que isso precisa mudar. 

O humor é a verdade com um nariz de palhaço, ou seja, uma piada nunca é só uma piada. Ela carrega todo um discurso, por mais que o humorista que a faça diga que não. As piadas podem ser racistas, homofóbicas, machistas etc, mas também podem ir contra todos esses discursos opressores.

Questionar o ato de fazer piadas preconceituosas não é, de forma alguma, uma censura ao comediante. Muito pelo contrário, é uma maneira de fazê-lo enxergar que o discurso dele fere a liberdade de uma parcela da população. Não pode existir “liberdade de expressão” apenas para um grupo de pessoas, é preciso existir para todos.

Se o humorista faz uma piada preconceituosa, ele precisa, no mínimo, lidar com a revolta da parcela da população que foi atacada e assumir a responsabilidade pelo que foi dito. O humor possui responsabilidade assim como qualquer outro discurso. Volto a dizer que as piadas refletem a realidade e, se existem piadas preconceituosas, é porque vivemos em uma sociedade desigual. Ao invés de repetir o discurso, o humor pode ser usado como ferramenta para mudá-lo.

Com os questionamentos, foram surgindo espaços no humor para pessoas das minorias. Hoje, temos um cenário com mais mulheres, negros e pessoas LGBTQ+ fazendo stand-up, por exemplo. Com isso, as pessoas se sentem melhor representadas e há voz para indivíduos que não são de uma parcela privilegiada da sociedade, trazendo o humor como uma forma de enfrentamento à realidade desigual em que vivemos.

As piadas podem ser usadas para argumentar contra os preconceitos existentes e fazer o público refletir sobre a situação atual do país. Não só a situação social, mas também econômica, política, entre outras. O humor pode ser muito importante para trazer mudanças se fizermos bom uso dele, e não apenas o tratarmos como algo vazio e sem propósito.


quinta-feira, 15 de outubro de 2020

Você realmente dá valor ao professor?



Marcus Vinicius Batista

Pense com calma antes de responder à pergunta acima. Não precisa ser em voz alta. Só peço honestidade. Como não me atrevo a especular, vamos colocar deste modo genérico: vivemos num lugar – fica a seu critério escolher o endereço – onde está entranhada uma das hipocrisias mais nocivas que conheço, o professor é essencial e deve ser valorizado.

O cinismo em torno do professor está dentro dele, fora dele, em torno dele. Sou professor há 18 anos e talvez esteja enfrentando as desilusões da “maioridade pedagógica”. Duvido um pouco, comportamento reforçado após sete meses de aulas on-line, período de muita observação, aprendizagem, erros, dissabores e testemunho do melhor e do pior do ser humano.

Meu filho de dez anos vivencia o mesmo período de prisão domiciliar-escolar. Estuda em uma boa escola, convive com professores que sangram para ensinar e aprender. Peço que meu filho os agradeça sempre, esperançoso de que um dia ele compreenda minha súplica e insistência.

Por outro lado, minha filha, de 18 anos e no último ano do Ensino Técnico, é vítima e alvo desta tranqueira que é o Ministério da Educação e seus líderes medievais, com seu genocídio intelectual em formato de política pública. Mari ficou cinco meses sem aulas. O ano letivo dela terminará em fevereiro de 2021, se não houver surtos governamentais ou coelhos da cartola do ministro do mês.

A pirâmide não se sustenta. Rachaduras e vazamentos corroem todas as perspectivas, da base ao topo. Vejo escolas que reduziram salários, aumentaram cargas de trabalho, “roubaram” tecnologias e tempo alheios, fingindo uma modernidade que se traveste em bobagens ocas chamadas de inovação, métodos etc. São casas que escravizam todos sem misericórdia, contando com uma servidão voluntária dos mais gananciosos ou medrosos (por trás da máscara, todo ganancioso é um apavorado, pois teme que façam com ele o que ele – capitão-do-mato – faz com seus iguais).

A mediocridade conta com a conivência de uma parcela de seus principais investidores: as famílias dos alunos. É óbvio que depende do caso, mas me assusta um perfil específico: pais e mães que enxergam seus filhos como clientes; o professor, como empregado; a escola, como pizzaria; e o ensino, como meia muçarela, meia calabresa. Não importa a qualidade do queijo ou da linguiça ou se seu filho pensa como a pizza é feita. Basta que seja entregue, se possível por um motoboy de aplicativo, o professor uberizado.

São pais e mães que oscilam entre a ilusão de um sonho no qual a escola nunca entregará e o mesmo lugar como um depósito que libertará adultos infantilizados, por algumas horas diárias, de suas responsabilidades.

Sou professor de adultos. Não tenho talento para ensinar crianças. Admiro quem trabalha com elas, diante de tantas incertezas e ingratidão. Festinha anual não é muito obrigado. Presentinho no dia 15 de outubro não passa de convenção social para limpar a imagem.

Homenagens apenas aliviam a dor quando o resto do ano se assemelha a um espancamento moral, emocional e até físico. Homenagens são um paliativo com duração de 24 horas, se tanto. Desejo o entendimento de que estudar – e repito: falo de adultos, que têm que assumir suas escolhas – significa formar-se. Construir-se. Avançar e retroceder com consciência. Fazer por onde antes de cobrar, para falar o português claro.

Vivo assombrado com a cultura do não estudo. A cultura da receita de bolo, das fórmulas, das leituras superficiais que auxiliam nas polêmicas virtuais, mas envergonham na vida. Alunos que se portam como crianças mimadas, pouco dispostos a sequer pensar nos porquês do que está sendo dito. Consomem passivamente. Culpa de muitos professores também, sendo redundante.

A vida on-line só reforçou uma inércia de muitos – sempre há exceções -, algozes e vítimas de uma escola (co-autora) que historicamente assassinou a curiosidade, a imaginação e o interesse pelo mundo em volta. Estudantes que se preocupam com questões cosméticas, tal o cliente de pizzaria que come o que lhe é servido, falsamente preocupado com os ingredientes-conteúdos, domesticados pelas notas e demais burocracias que camuflam o pensar crítico.

E nós, os professores? Caminhamos no meio do tiroteio de arma em punho, sedentos para também terceirizar a culpa, escapar da responsabilidade, sobrevivendo na contradição vítima-agressor. Se todos fogem do banco dos réus, então de quem é a culpa? Aí é que reside o coração moribundo. A bronca é de todos, mas também não é de ninguém, feito a piada sobre a responsabilidade sobre a escola pública no Brasil.

Acompanho professores exaustos, acusados de não trabalhar. Gente que estudou por décadas para contar as moedas durante boa parte do mês, quando não o mês inteiro. Mas também testemunho professores que se julgam eleitos, nos arroubos de autoritarismo e arrogância, o que inclui – em certos casos – a recusa em aprender e o olhar de superioridade sobre os demais atores desta peça mal escrita, principalmente os alunos. Como cansa ouvir professor que só sabe falar mal de estudante! A mentalidade envelhecida de quem se esquece do caminho percorrido.

Fico entristecido ao ver professores sem consciência de classe, como se não fossem trabalhadores comuns. Presas fáceis para todos os fatores que tento rascunhar neste texto pessoal. Sinto decepção em conviver, de vez em quando, com professores que sofrem de “professorite”, doença marcada por narcisismo, fala sem a necessidade de ouvinte, ausência de escuta, rompantes de sabichão, ego maior do que a escola onde trabalha.

Todos estamos sujeitos à contaminação viral. A questão é que a doença pode se tornar crônica em muitos hospedeiros. Como vacina, resta somente o autopoliciamento diário, ainda assim sem comprovação científica. Eu tento resistir, juro que tento.

E não sobrou ninguém para poupar? Não. Somos todos cúmplices no lamaçal no qual se transformou a educação. Estamos enterrados até o pescoço em moralismo, utilitarismo, tecnicismo, jogos de cena que torturam os grandes teóricos e exploram seus nomes e legados em vão, a escola como supermercado de qualidade duvidosa, o ensino como fast-food de validade vencida. Todos temos culpa na construção de uma cadeia produtiva com pouca ou nenhuma reflexão, com muitos delírios e fantasias. Sabe o papo furado de professor como missionário, como sacerdote? Esta lição caricata é básica de primeiro dia de aula.

Amanhã, estarei em sala de aula virtual. Amanhã, tentarei novamente ser um trabalhador que cumpre sua função. Sem alucinações. Da melhor maneira que for possível. Como um ofício. Com minhas malditas deficiências, inclusive. E mais uma vez com a pergunta: eu dou realmente valor ao professor?

terça-feira, 19 de novembro de 2019

Nós falhamos!



Marcus Vinicius Batista

Se falar de racismo no Brasil é chafurdar na lama do óbvio, vamos a duas constatações imediatas. A primeira é que, se você desconhece que existe discriminação racial no país e que ela está ligada de forma umbilical ao preconceito de classe social, só posso crer que existem três alternativas saltitando na sua frente:

a) ignorância absoluta do que acontece além da sua janela e talvez dentro de seu mundo de grades ou bolhas;

b) má fé por quaisquer interesses individuais ou sociais;

c) a História, a Antropologia, a Sociologia, a Filosofia, a Medicina, a Engenharia, o Direito e as demais áreas do conhecimento passaram ao largo da sua formação educacional e cultural, seja por responsabilidade de quem te educou, seja por responsabilidade sua mesmo!

Minha crença: d) Todas as alternativas anteriores.

A segunda constatação é que as instituições brasileiras sempre falharam em seus papéis para enxergar os negros, para combater o racismo ou sequer para dar voz a eles, salvo exceções, de nomes de uma lista pequena a datas comemorativas, que esfregam a regra na cara de todos. Como derivação desta redundância, é fundamental tirarmos o peso absoluto das costas das instituições, como entidades espirituais que aceitam tudo e nunca reclamam como sistema, e assumirmos a cota que nos cabe. Temos que falar sobre pessoas, sobre seres humanos (não representam a mesma gente, muitas vezes) e, principalmente, sobre o que nos faz criaturas selvagens.

Nós falhamos como indivíduos, como grupos sociais, como sociedade, como nação, como qualquer critério que nos lembremos para enquadrar as relações raciais brasileiras. Erramos porque aceitamos o politicamente correto como limite. O oportunismo da convenção social.

O equívoco se repete nas falas adequadas ao momento histórico, nos argumentos “brancos” que soam como sussurros de culpa não assumida ou de medo da retaliação.

Nós falhamos porque aceitamos a conversa mole de que tudo vai passar, de tudo está mudando como se estrada fosse linear até um desfecho de sorrisos felizes, abraços apertados, mãos dadas e arco-íris no pé da serra. Erramos de forma grosseira quando acreditamos que o outro, do alto de sua arrogância racista, vai mudar de comportamento pelo simples fato de que alguém tentou explicar a ele que o mundo é diferente de seu olhar superior.

Errei quando, no mestrado, escrevi uma dissertação sobre racismo dentro das escolas públicas pela ótica do professor que se considera negro – a primeira sobre o tema na universidade onde estudei e sou professor. Quando defendi o trabalho, há 11 anos, só tinha dois colegas negros no curso, nenhum professor, e julguei que cumpria um importante papel social ao escrever sobre um problema crônico que me incomodava desde o tempo das redações jornalísticas de predomínio branco onde atuei. Insuficiente.

Minha falha foi também acreditar somente na força da palavra. Em crer que, em sala de aula, ao abordar todos os anos, nos 17 como professor universitário, a temática do racismo no país, via construção histórica, definições conceituais, tentativa de derrubar o senso comum (exemplo: o racismo no Brasil é mais leve do que nos Estados Unidos), imagens vendidas na mídia. Jurei que poderia alterar raciocínios viciados em poder silencioso de uma plateia majoritariamente branca. Alguns talvez tenham parado para avaliar o som que vinha da lousa.

Desejo o benefício da dúvida, instalado na incapacidade de medição objetiva do trabalho de professor. O mesmo vale para o jornalista que publicou dezenas de textos sobre o assunto e insiste em rascunhar uma reflexão como esta, ciente de que os índices deficientes de medição de leitura vão cair, como acontece com os escritos sobre população de rua e violência sexual.

Nós falhamos porque tentar convencer com palavras parece placebo num momento histórico de retrocesso, de liberdade para a intolerância, para a truculência, para o palavrório que endeusa a ignorância, tanto a violenta como a oca de conteúdo. Tudo com o selo de “qualidade” das lideranças políticas e parte dos coronéis religiosos.

É a hora de não aceitarmos mais os racistas. De ter uma postura – mais do que retórica – antirracista. De não fazer só muxoxo para o papo furado de “tenho amigo negro”, “tenho primo de quinto grau”, “a avó da tia da minha madrinha foi escrava”.

Também não dá para apenas repetir as estatísticas das diferenças raciais/socioeconômicas brasileiras. Os números mudam, porém a ordem das coisas permite que se substituam os dados na mesma tabela. Copia e cola.

Não dá para se surpreender com o ar de surpresa – tão redundante quanto a própria frase - dos jornalistas ao “descobrirem” a existência de um ou outro técnico negro, ou que as torcidas europeias, brasileiras, caiçaras ou do time da faculdade entoam cânticos ou grunhidos animalescos para jogadores de futebol vistos como macacos. Ou quando “percebem” – e se calam - que os dirigentes e as entidades organizadoras literalmente jogam para a torcida.

Sempre vi datas comemorativas como uma contradição. Celebrar é lembrar juntos e isso não significa passar a mão na cabeça e fechar o bico pelo resto do ano. Significa demarcar território e se mexer. Alterar. Punir quem comete crime – racismo é crime, para ser óbvio outra vez! – em vez de engolir as desculpas esfarrapadas que cercam um silêncio misericordioso de quem se beneficia das discriminação em todas as instâncias, em todas as instituições.

sábado, 9 de novembro de 2019

A revolução pela consciência (Escritas do Cotidiano # 75)


Christian Godoi

... então a personagem expirou. Cansada de todo o sofrimento ao qual fora exposta, resolveu reunir seu grupo na quadra da centenária escola de samba do bairro. Ali, discursou, inicialmente, para um pequeno grupo. Dissera que trabalhara por trinta anos com a expectativa de conseguir tranquilidade na velhice. Não levou em consideração o tempo dedicado a outras atividades sem o devido registro...

Crescera ouvindo os adultos pregando um país em desenvolvimento. Este que não se concretizou. A miséria sempre o assombrara, fosse no campo, onde os latifundiários ganhavam cada vez mais poder; fosse na urbe, na qual as periferias tornavam-se cada vez maiores.

Ali, ela discursara; por que deveriam se manter quietos em seus barracos mal iluminados? Por que tinham que viver precariamente? Por que existiam tantos espaços, prédios e apartamentos vazios? Por que necessitavam mendigar empregos em troca de comida, praticamente? Por que deveriam ganhar apenas poucos reais por hora? Por que ver os filhos sem perspectiva de futuro? Por quê?

Por que aquela minoria da Casa Grande tinha imensos quintais, sem ter feito algo para conquistá-los? Afinal, a terra é de todos. Pregam um discurso sobre trabalho, quando a verdade sempre foi a exploração! Pregam a propriedade, quando o fato é que ganharam ou herdaram de alguém a terra, demarcada ou apropriada ainda sob o espectro colonial.

Por que, então, deveriam estes, que escutam a fala contundente da personagem, se aquietarem em seus minúsculos espaços no transporte público, assistindo ao desfile de veículos miliardários emparelharem, com seus proprietários ressecados pelo ar condicionado ignorarem a existência do entorno? Era a hora, então, dissera a personagem, de tomar aquilo que lhes era de direito: a dívida das elites para com o povo. Uma dívida que carregara cada gota de sangue índio, derramado no chão das aldeias estupradas; cada lágrima ou lembrança dos africanos capturados e encerrados no porões negreiros, envolvidos pelo calor fétido das fezes e da urina, das infecções e das mortes assistidas.

Era hora de as elites pagarem pelas chibatadas aplicadas sadicamente às costas dos revoltados pela condição de bichos que lhe eram impostas. Estes agora tinham as armas, tinham o motivo, tinham vontade. Bastava a consciência. Nenhuma casa, apartamento, ou mansão, em qualquer lugar que fosse, ficaria sem morador. Toda e qualquer propriedade seria deles a partir de agora.

O Estado não poderia mais segurá-los, desde que tivessem a consciência de que deveriam estar juntos, não em busca da conquista individual, mas do bem comum. Não precisavam de piscinas para uma família, mas sim de dignidade para todos. Era a hora. Muitos dos seus haviam chegado lá: tinham consciência, estudo, educação. Agora eram médicos, professores, engenheiros, empresários.

Por que deveriam se submeter a ficarem excluídos, distantes, nas periferias, se o centro fora construído e mantido por eles? Não, era hora da revolução. De tomar cada espaço, de dividi-lo, de desfrutá-lo, de organizá-lo, para que todos tivessem as mesmas oportunidades, e uma sociedade mais justa se formasse.

Para isso, aqueles que haviam desfrutado das benesses do capital ao longo dos séculos deveriam, em silêncio, para a manutenção de suas vidas, acatar a revolução. Afinal, só saberiam o que viriam, depois de sua conclusão...

Agora era a hora da luta, não de facções, nem de comandos, nem de partidos, mas de coletivos, de uma totalidade ainda impossível, mas que deveria ir se construindo das metrópoles em direção aos campos, e do campo em direção às aldeias... e assim foi...

sexta-feira, 19 de abril de 2019

Adilson não está sozinho



Marcus Vinicius Batista

Adilson Durante Filho é a bola da vez, símbolo e sintoma de como as relações raciais se estabelecem e se desenvolvem onde vivemos. Ao fazer um discurso racista contra os pardos via áudio, o então secretário-adjunto de Turismo de Santos e conselheiro do Santos Futebol Clube se tornou presa moribunda num momento histórico no qual o politicamente correto passa por crise de identidade, legitimado pelas lideranças políticas e econômicas, com a esquizofrenia de muitos setores da sociedade, de forma explícita, na sala de jantar ou no grupinho de rede social.

O caso, embora não tenha esperança de que servirá de aprendizado para ninguém, estimulou o arroto de doses de hipocrisia e merece algumas considerações em diversos níveis, do pontual ao individual, do macro ao microcosmos social.

Eis aqui algumas ideias:

1) Adilson Durante Filho cometeu um erro de racista principiante. Foi arrogante além dos limites que a KKK tupiniquim suportaria. Confiou demais nos parceiros de virulência. Ele não atacou os negros, e sim os pardos. O ataque aos negros também seria recebido com repulsa, mas uma parcela da sociedade fingiria que não é com ela. Fingiria porque se esconde dentro do conceito de pardo, sem vivenciá-lo no cotidiano, se fantasiaria de “cidadão de bem” com aquele papo furado da “minha avó é parda, meu pai também”, para parecer mais simpático publicamente à diversidade racial.

A diferença parece ser sutil, mas funciona como cortina de fumaça que, infelizmente, colabora para a permanência das ideias racistas na dinâmica social e cultural brasileiras. Os hipócritas, assim, conseguem entrar na onda de rejeição e podem, inclusive, se colocar como vítimas em potencial, o que camuflaria o cinismo de quem discrimina ou de quem se cala.

2) O pardo é quase uma entidade espiritual no processo social brasileiro. Embora a palavra tenha peso histórico, o pardo é construção social conveniente, um mecanismo de defesa para suportar o racismo branco, uma manta que cobre e esconde a discriminação que sobrevive pelo silêncio, pela conivência, pela ignorância e pelo debate carente de aprofundamento estrutural, que se limita a arranhar a superfície.

O pardo também apanha na rua, também toma geral da polícia, se encaixa no estereótipo do bandido, é chamado de “mau caráter”, mas o termo permite – pela manipulação individual e coletiva – certa proteção quando associado à posição social. Pardo cultiva, nas relações raciais brasileiras, status superior ao negro, fruto inclusive da aura de miscigenação como elemento democrático, não como um símbolo de violência ontem, hoje e sempre.

3) O pardo, no racismo brasileiro, é conceito incapaz de simbolizar a vida prática. Neste país racista, pardo serve para negar a negritude. Como consequência, auxilia na negação do racismo.

De forma involuntária, acelera as ações da “turma do deixa disso”, quase sempre brancos interessados em evitar exposições. Jogue alguém aos leões, sem mexer no estado de coisas.

Na semana que vem, Adilson será passado. Até o próximo caso.

4) A reação política do prefeito de Santos, Paulo Alexandre Barbosa, foi previsível, como qualquer político com razoável inteligência faria – olhe para Brasília e entenda que não é regra geral. O prefeito deu ao então secretário-adjunto a honra de pedir o boné, mas não perdeu a oportunidade de falar de si mesmo, na sutileza do narcisismo político e do autoelogio. Nenhuma surpresa, é protocolo político.

Outro ponto: é louvável e direito do prefeito se considerar pardo. Respeita sua história e origens familiares. Só tenho dúvidas se muitos de seus amigos políticos o enxergam assim.

5) Quando Adilson vomitou o palavrório racista, ele o fez porque é muito provável (muito mesmo!) que teve caixa de ressonância. Há audiência cativa para este tipo de violência. Como diz minha esposa, semelhante atrai semelhante. Como praticam os algoritmos, as redes sociais funcionam como bolhas de opinião, onde os pares se encontram e dividem prazer em seus achismos, preconceitos, discriminações, visões doentias de mundo.

6) Como figura política, Adilson colecionou adversários, para não dizer inimigos. O vazamento do áudio não aconteceu por preocupação social, por denúncia contra o racismo ou por um lampejo de cidadania. O vazamento ocorreu para destruir uma reputação, para retirar uma pedra do caminho, dentro de certos interesses políticos. Só nos resta saber – se é que importa – se o rastro dos pedacinhos de pão nos levará à Vila Belmiro ou à Prefeitura de Santos.

7) Adilson Durante Filho vive numa cidade historicamente conservadora, que se manifesta há décadas por atos racistas, entre outros processos de discriminação. Uma cidade onde, nos anos 40, sambistas negros eram presos por vadiagem, onde a polícia oprimia os desfiles carnavalescos.

Santos é uma cidade na qual um prefeito negro eleito, Esmeraldo Tarquínio, foi proibido de ocupar o cargo e perseguido pela ditadura militar por muitos anos. É a mesma cidade onde um jogador novato, chamado Pelé, foi proibido de entrar pela porta da frente de um clube de elite. Depois, campeão do mundo, ele foi recebido como se nada tivesse acontecido. A lista de fatos é, infelizmente, bem maior do que esta reflexão poderia comportar.

8) O conselheiro do Santos Futebol Clube vive num mundo onde negros e pardos são as estrelas do show, mas são tratados como empregados ou até escravos modernos. O futebol funciona como reflexo social, um ambiente onde o racismo se pratica em todos os níveis, dentro e fora do campo.

Os excrementos racistas proferidos pelo conselheiro não mudarão o modo de ver o futebol. No último episódio de racismo envolvendo o clube pelo qual Adilson torce, sobrou para a vítima. O goleiro Aranha testemunhou o clube lavar as mãos, parte da torcida desconfiar dele, a imprensa colocar panos quentes até que a história fosse abafada. Para muitos, ficou parecendo chilique do goleiro.

9) Adilson Durante Filho pediu desculpas publicamente e buscou se retratar. Não fez mais do que a obrigação. Quando membros da elite se veem em saia justa ou provam da violência social e psicológica que costumam perpetuar, sempre penso nos dois motivos que levam alguém a pedir desculpas.

O primeiro é o reconhecimento real do erro, do entendimento de que o outro foi machucado, da humildade de enxergar que um ato de violência foi cometido. A segunda razão é pedir perdão como autopreservação, como sinal de medo pela punição, de perder as posições que ocupa, de se proteger para manter a estrutura confortável em que vive, jamais pelo olhar sobre o outro, por se colocar no lugar dele.

Em qual destes caminhos Adilson Durante Filho preferiu colocar seus pés, sua reputação?

terça-feira, 20 de novembro de 2018

Consciência Negra pra quê?

Lima Barreto, escritor brasileiro discriminado
dentro e fora do sistema manicomial

Marcus Vinicius Batista

Sou um homem branco de classe média, de alta escolaridade, que vive num centro urbano de excelentes condições socioeconômicas. Hoje, num dia de folga, sem os empregados do comércio e das casas ao redor, sem a coleta de lixo, sem as mulheres que varrem as calçadas da minha rua, sem os moradores de rua que visitam a armação de metal, a casa dos nossos restos, durante a madrugada, eu poderia perfeitamente perguntar aos meus vizinhos: Dia Nacional da Consciência Negra pra quê?

Poderia também questionar os frequentadores da academia da moda, que fica na esquina de casa. Poderia também indagar a maioria dos meus colegas de trabalho, quase todos professores universitários com seus títulos e honrarias. Consciência Negra pra quê?

Eu poderia confirmar a dúvida de uma amiga de faculdade, que vivia entre o comércio no Gonzaga e o prédio de alto padrão no Campo Grande, a um quilômetro do trabalho dela. Onde estão os negros em Santos (a cidade onde moramos)?

Poderia ainda colocar em debate – na verdade, sucessivos monólogos de confirmações de tese – a questão posta por um colega de futebol, anos atrás. Ou uma dúvida nada infantil de um aluno de universidade, que prefiro dizer que se matriculou em minha disciplina, mas a assistiu com aqueles fones de ouvidos resistentes ao barulho de britadeira. Por que não temos o Dia Nacional da Consciência Vermelha? Por que não temos o Dia Nacional da Consciência Humana?
Sou um branco, num país onde a maioria das pessoas são negras ou pardas, esta última uma classificação peculiar da cultura brasileira, uma parcela da sociedade que preferia (já explico o verbo no passado) o silêncio sobre o racismo, quando defende uma fantasia chamada democracia racial e suas derivações delirantes.

Escrevo há anos sobre o tema. Escrevi uma dissertação de mestrado sobre o assunto. Levo o problema para sala de aula, para uma plateia majoritariamente branca, todos os semestres. Ouço os argumentos brancos, os da negação, e busco refutá-los com informações, com serenidade. E testemunho como as mudanças estavam acontecendo de maneira lenta; lenta, mas gradual.

Não tenho mais ânimo para argumentar com estatísticas. Se alguém duvida de que o Brasil é desigual até a alma (sem cor, aliás), faça uma pesquisa chinfrim na Internet. Qualquer ângulo: saúde, políticas públicas, sistema prisional, segurança pública, universidades, política e até futebol. Se está com preguiça, ande na rua e converse com as pessoas. O racismo só não aparece para os cegos, surdos e mudos de consciência política.

Se não quer sair de casa, acesse qualquer rede social. Ali, você verá o que mudou. Não deixamos de ser racistas. Passamos a acreditar que é possível ser racista sem maiores consequências. Autorizados ou não pelo próximo Governo, muitos saíram do armário da ignorância e da vergonha, se vestiram de colonizadores e resolveram falar como personagens de novela de época do século 19.

O palavrório discriminatório saiu da negação, em muitos cenários, para a agressão com nome e sobrenome. Se no Planalto pode, por que não poderia na terra batida gourmet?

Jamais saberei o que é o racismo, na combinação cor da pele e posição social, no sentido mais profundo, aquele que dilacera a essência, aquele que corrói a identidade e a dignidade de alguém. Ao conhecer sua existência, porém, é vital não ficar calado ou me omitir pela inércia da falsa naturalidade das coisas.

Não é porque uma parcela estúpida se sente legitimada a vomitar sua boçalidade travestida de inteligência que deveremos aceitá-la como parte das relações humanas. O racismo é uma falsa característica humana, ela pertence aos selvagens.

Como disse recentemente a antropóloga Lila Schwarcz, o racismo brasileiro diz respeito aos brancos, pois é provocado por eles. E, desta forma, o ativismo branco é essencial para que seus supostos pares de cor se retraíam na vergonha, na mediocridade e no crime que cometem a cada vez que abrem a boca na mesa de jantar ou escondidos atrás de uma tela de computador.

quinta-feira, 15 de novembro de 2018

Mais Médicos: quem se importa?


Marcus Vinicius Batista

Este texto não é para você, meu costumeiro leitor. É um texto para aqueles que, provavelmente, por falta de acesso não o lerão. É para quem terá uma infinidade de problemas mais urgentes do que usar uns minutos para uma reflexão política.

Vivo numa cidade onde muitos não se importam com a saída de profissionais que pertencem ao programa Mais Médicos. Não se tratam de cubanos, alienígenas ou corintianos. Trata-se de pessoas que, dentro de sua invisibilidade, dependem deste programa para não morrer de causas que deveriam estar nos livros de História sobre Idade Média, como diarreia e infecção urinária.

Vivo numa cidade onde muitos reclamam dentro do que consideram ser um direito dos privilegiados, uma expressão contraditória em si. Privilegiados em ter plano de saúde, mesmo que tenham que esperar três meses por uma consulta com um médico que os atenderão por 15 minutos porque precisa receber um monte de pacientes, pois – como privilegiado também – recebe uns R$ 30 por consulta. Aliás, sem garantias de pagamento porque um erro num formulário burocrático vai significar “pagamento indeferido”.

Não precisamos do programa Mais Médicos porque entendemos que nossa rede hospitalar é suficiente para atender a todos, principalmente aqueles que podem acionar a rede de favores, do médico que é primo do primo, amigo da ex, tio do chefe, o profissional capaz de arrumar um leito para internação do nosso parente. O parente que pagou décadas por impostos, assim como nós – os pedintes de favor -, mas que desprezamos o SUS porque é ruim e, por isso, não serve para a classe média que atira verbalmente no alvo errado.

Não precisamos do programa Mais Médicos porque, muitas vezes, a minha cidade de muros simbólicos possui uma farmácia em cada esquina nos bairros “bons” (os nossos), fingindo descontos já embutidos no preço da concorrência quase cartelizada, mas que alivia nosso ego que adora um discurso fraudulento de lesa consumidor. O consumidor que acha que leva vantagem, como se estivesse num cassino, local onde vantagem é utopia.

Dispensamos o programa Mais Médicos porque podemos entrar no cheque especial – alguns até fazem empréstimos consignados – para pagar pela consulta particular, que será amanhã cedo em vez dos três meses de espera. Na mentalidade do consumidor, podemos pagar R$ 350 pelos mesmos 15 minutos – ou um pouco mais para justificar o “investimento” e receber uma lista de exames que será bancada pelo mesmo plano que paga esmolas aos médicos. Mas cuidado: dependendo dos exames, senha, fila, auditoria, culpa do sistema, atendente uniformizada pior remunerada do que você e que te olha com cara de misericórdia.

O programa Mais Médicos não tem nada a ver com a origem dos profissionais, para um paciente que nada tem. Ele somente expôs o que não queremos ver, a podridão que permeia as relações entre Governo e população, governo de todas as camisetas, caro amigo que julga um grupo corrupto e os demais limpinhos. Não vivemos num filme de super-heróis baseados em histórias em quadrinhos.

O Mais Médicos coloca na vitrine – com 8 mil profissionais – o quanto somos vários países em um só. Vários países na sua cidade. Falta saúde digna de seres humanos, com seres humanos e para seres humanos na cidade onde você mora. No mesmo bairro que você reside. Do outro lado da rua.

As pessoas não precisam de médicos cubanos. Elas precisam de médicos, assim como precisam de outros tipos de serviços públicos. Não é preciso andar tão longe. O buraco da saúde pública está no posto há uma quadra e meia da minha casa. Da sua, caro leitor, a variação da distância não o deixará cansado do passeio que nem podemos chamar de caminhada.

Este texto não é para aqueles que ficarão sem os médicos e que podem morrer de diarreia, infecção urinária e outros problemas medievais. Este texto é para você, leitor, que queima dinheiro em impostos e se vê como privilegiado porque paga para esperar por três meses por consulta. Contraditório, não? Sim, como nossas ações diante do que deveria ser feito neste país.

terça-feira, 6 de novembro de 2018

Resistir é legítimo!


Marcus Vinicius Batista

Os apaziguadores podem ser sujeitos perigosos. O perigo mora na ambiguidade de suas atitudes e como elas podem usadas pelos lados do balcão (sempre mais de dois). A turma do deixa disso pode pecar pela ingenuidade, vestida de Poliana enquanto um dos lados ladra e ladra no limite da agressão.

O pacifismo, quando mal intencionado, mascara a crueldade, camufla as intenções de enfraquecer quem pensa e age diferente, vendendo e comprando a ideia de que todos os envolvidos estão de bandeira branca erguida. Na verdade, bandeira que encobre o desejo por sangue alheio daqueles que incentivam a falsa palavra de paz.

Independentemente do que carregam atrás do palco, os apaziguadores acabaram, no passado recente, por comprar um discurso distorcido de quem virou situação pelo voto, antes pelos conchavos, na política brasileira. Os mensageiros da paz engoliram a ideia que resistir significa, no automático, torcer contra, pensar que quanto pior, melhor, expelir ranhetice, não saber perder. De alguns, pode ser. De todos, é se sentar na infantilidade generalizada.

Esta postura esconde, de maneira voluntária ou não, uma série de pontos. O autoritário deseja, em todos os níveis, ser a única voz. O autoritário goza ao som das próprias notas, sem ruídos, sem interferências, sem contestações. Resistir é mostrar a ele que a voz pode ter vários timbres, diversos autores, inúmeros instrumentos. A resistência aponta para a mudança de repertório com alguma influência de todos os músicos da orquestra, e não exclusivamente do maestro.

O segundo ponto é a própria existência da democracia em si. A democracia representa o regime da maioria e um governo só cresce, só se mostra efetivo quando conversa e ouve, de fato, todos que se sentam à mesa. Resistir pode elevar o nível do debate, apontar novos ângulos, olhar novas perspectivas que não podem ser esquecidas por quem se senta à cabeceira da mesa e hoje dá as cartas.

Resistir é fazer oposição. E fazer oposição é diferente de ser do contra. O ser do contra, cedo ou tarde, se esvazia no próprio discurso oco, sem ideias oxigenadas, sem propostas que arejem o ambiente político. A resistência nasce até com o risco de ser plagiada, quando o poder não sofre da arrogância cega da tirania. O poder inteligente é capaz de aproveitar os questionamentos da oposição igualmente sagaz, nem que seja com o objetivo maquiavélico de tornar seus adversários figuras decorativas.

Resistir é sinônimo de liberdade, de livre trânsito político, de pensar na coletividade, de escapar do destino de repetir mensagens superficiais a serem ruminadas pela manada. Resistir é ser livre para escolher caminhos de proteção contra os excessos do poder constituído, exercitar a fiscalização, vigiá-lo de perto para que não confunda liberdade com ausência de limites, equívoco que resulta em violências de todas as ordens.

A resistência não tem cor de partido derrotado nem cheiro de sigla contaminada pela mosca azul que voa nos palácios dos acordos, porcentagens e dinheiro vivo guardados em todos os buracos do corpo humano e institucional. Resistir é ecumênico, inclusos os que votaram no próximo ocupante da cadeira, caso ele e sua turma decidam pela estrada das patotas, das panelinhas, dos amigos dos amigos. A resistência veste a toga não para se beneficiar, mas para indicar que governar significa mais do que projeto de poder pessoal ou de um grupo.

Resistir é política saudável. Sem contraponto, a democracia adoece, as instituições balançam as pernas, os donos do poder se embriagam sem que ninguém tenha força para fazê-los contornar alucinações e delírios de grandeza. A resistência pode ser o remédio para a soberba política, para o complexo de Deus (ou o caráter messiânico) que acomete e acometeu muitos “pais” da República brasileira.

Os apaziguadores, quando pedem que a resistência desapareça, se esquecem de um ponto vital: quem é situação hoje foi ou pode ter sido oposição ontem. Quem estará no poder amanhã compôs os quadros da oposição agora há pouco ou ontem. Resistir é parte da democracia. Sem ela, temos tirania. Sem resistência, caminhamos sem freios para o totalitarismo.

Nele, o pelotão de fuzilamento atira na verdade, no diálogo, no debate, no pensamento crítico, na contestação, não exatamente nesta ordem de corpos ao solo. A lista de cadáveres inclui os que quiseram costurar panos quentes.

quinta-feira, 1 de novembro de 2018

O juiz


Marcus Vinicius Batista

O maior humanista que conheci tem cerca de 85 anos. É um sujeito de hábitos, entre eles, estudar todos os dias. Ler, escrever, dialogar, incentivar a produção de conhecimento alheio. Sou fruto desta frase.

Quando discordamos, ele sempre me presenteia com ponderações, com análises – conceito diferente de opinião -, com sugestões de textos, links ou outras fontes de informação que possam reforçar a conversa entre nós. Jamais partiu para a desqualificação pessoal. Jamais se colocou numa posição de superioridade ou discursou em tom professoral. Sempre me ensinou sem nunca me dar aula.

Como um humanista, ele sempre entendeu que o amor pelo conhecimento nunca se coloca acima dos homens. Que os homens necessitam do conhecimento a favor de si como coletividade, nunca como individualismos. Ajudou muitos em momentos difíceis, formou inúmeros em contextos iniciais de suas vidas, orientou quem ansiava por aprendizagem, inclusive aqueles que o utilizaram como trampolim. Ossos do ofício. Sedução pela utopia filosófica, talvez.

Este humanista foi juiz de Direito. Desculpe, é, pois não se trata de uma questão de estar, de almejar saltos vantajosos ou oportunos. Ele chegou no alto da hierarquia do Poder Judiciário do Estado de São Paulo e ali se aposentou. Sempre por méritos próprios, nunca por conchavos, acertos ou trocas de favores. Estudou como um condenado à prisão perpétua para concursos, inclusive enquanto criou cinco filhos ao lado de uma mulher de visão, fibra e postura semelhantes. Todos, em sua casa, souberam compreender o valor que se deve dar para a construção do pensamento próprio. Sou testemunha ocular.

Este juiz nunca desejou os holofotes. Nunca se envolveu em polêmicas pela imprensa, concedeu entrevistas coletivas para absorver os louros de uma decisão judicial ou posou para fotos com políticos em eventos de cunho esquisito.

Como juiz, lutou para se aproximar da isenção e consistência máximas, da neutralidade, consciente de que tais termos são falhos e limitados, mas que devem ser perseguidos com obsessão para se aproximar de uma sociedade menos desigual, mais equilibrada, mais justa (com o perdão do trocadilho).

Este juiz jamais tentou interferir em decisões do Poder Legislativo feito deputado ou agir como substituto eventual do Poder Executivo. Conhecia suas fronteiras e atribuições e atuava com a distância de quem é responsável por definir, a cada canetada, os rumos da biografia de outra pessoa. Sempre foi politizado, justificou suas escolhas em âmbito privado, mas se esquivou de maneira obsessiva da política partidária e das tentações dos corredores dos palácios.

Ele escreveu livros (ainda o faz), incansável na busca do entendimento do humano. Sempre repudiou, óbvio dizer, a corrupção. Curioso quase patológico, estudou tão fundo o tema que produziu um livro de 600 páginas. Coincidência ou não, a obra foi editada por uma editora portuguesa, não por estas bandas.

Ele falhou diversas vezes como qualquer sujeito, na vida cotidiana. Cultivou defeitos e manias como todos nós e tentou revê-los na velhice, em exercícios de autorreflexão. Autorreflexão porque a leitura de homem como ser biopsicossocial e espiritual estava incompleta até pouco tempo.

A percepção da incompletude só veio aos 75 anos, quando quebrou resistências internas, descobriu a Psicanálise e se sentou na poltrona dos pacientes em terapia. “Por que não descobri isso antes?”, me perguntou entusiasmado, certa vez, num restaurante.

Na última vez que nos encontramos, não podemos conversar muito. Ele comprou meu livro novo. O anterior, adquiriu pela terceira vez. Dei risada, autografei e perguntei:

“O senhor sabe que comprou pela terceira vez?”

“Não tem problema. Vou dar de presente.”

Dois de seus filhos foram para o mundo jurídico. Outros dois foram para a Saúde. O mais novo milita na Educação. Todos admiráveis pela politização, senso de Justiça, caráter e decência no trato com o humano. Repetem, no cotidiano, as qualidades expostas acima, não como mérito, como obrigação inerente às relações humanas.

O humanista mais importante que conheci deixou de ser professor há uns dez anos. Quando perguntei o motivo, ele me disse estar cansado. Cansado das pequenas corrupções, assim vistas como menores no ambiente institucional. Cansado dos plágios, das negligências, da política provinciana e feudal em muitos ambientes do Ensino Superior.

Ele preferiu estudar em casa, aprender sempre, escrever quando possível. “Estou aprendendo húngaro”, me contou há quatro anos. Era seu décimo idioma, na minha contagem, pois nunca o vi se gabar disso, sequer contabilizar em público. Achei desnecessário perguntar.

Este juiz, cujo nome preservo pelas óbvias motivações descritas ao longo deste texto, nunca quis ser celebridade. Nunca cortejou lado. Jamais seria ministro. O humanista não fez ou faz política partidária. Ele tem a alma de um juiz.

quarta-feira, 31 de outubro de 2018

Carta ao eleitor (quase) silencioso


Marcus Vinicius Batista

Caro eleitor punitivo,

Com a vida voltando ao normal e o novo presidente agindo dentro de sua normalidade, você acreditou que poderia se despir da fantasia social de domingo. Não precisaria mais ser eleitor, cumpriu sua obrigação, e era hora “de deixar o homem trabalhar”.

Você conseguiu o que desejava e é seu direito. É importante dizer, não a você, mas aos truculentos, que é direito. Só que há uma distância entre colaborar com a derrota do adversário – rejeitado por você, não por Deus! – e evitar as discussões cotidianas sobre política.

Numa eleição sem precedentes, caro amigo, política ainda será rastilho de pólvora por algum tempo. Ainda bem. Você não pregou que era fundamental acompanhamento contínuo de quem exercita o poder com mandato. Democracia é assim. Assim talvez o seja para ti.

Sei que você se enxerga como uma pessoa moderada, típica da classe média, pagadora de impostos, trabalhadora em excesso, horrorizada com tanta corrupção. Não questiono este discurso, e creio que seja uma postura, de fato. Você é meu espelho, você mora em meu microcosmo.

A diferença entre nós é o fardo que colocou no seu lombo. Agora que a raiva começa a se diluir no dia-a-dia, você me dá sinais de que o voto emocional, o voto de indignação, o fez simbolicamente violento. Estender o próprio limite, antes desconhecido, pode machucar. Isso talvez o deixe constrangido, comportamento que transparece nas entrelinhas das rodas de conversas, das discussões do intervalo de trabalho, nos elevadores e até no banheiro.

Diante desta tarefa rara, você busca escapar das conversas sobre política. Elas tocam geralmente nos atos do presidente a ser empossado, na sua equipe, no seu palavrório de campanha, nas especulações de nomes de caráter e gosto duvidosos. Você não se manifesta, abaixa a cabeça, sorri de canto de boca. Mea culpa seria necessário? Não sei, emoção e razão caminham juntas dentro de nós.

Como se considera um sujeito ponderado, avesso à desqualificação do outro, equilibrado nas opiniões e nos atos, você evita o argumento falho, mas real, que justifica seu voto. Por que falar do perdedor? Um mérito no pós-jogo. Ele é passado no Executivo federal; por sinal, há dois anos, embora suas heranças povoassem seus pensamentos por semanas até a decisão de clicar outro número na urna eletrônica.

Quem sabe o silêncio calculado mascare a dificuldade em encontrar argumentos consistentes no novo? Você pensou nisso antes? Defender sua escolha, sem cair na tentação de atacar o outro?

Lembre-se: a escolha foi seu direito. Mas assinou um papel pelas razões erradas? Não jogue nas costas do tempo, não o utilize como solução do destino. O tempo é volúvel por natureza, perceptível de forma particular por cada um de nós.

Sua incerteza é o preço do voto útil, do voto que guilhotina o réu nosso de cada eleição. Assim, seu silêncio é justificável. Na dúvida entre a sanidade e a confissão de obsessão, melhor ficar em pose monástica, com sorriso de Dalai Lama.

Você votou também pela dúvida. E se apoia nela quando se encoraja em participar da conversa. O benefício da dúvida para o novo presidente. Você se mostra um sujeito otimista, mas que legisla em causa própria, quase um Poliana.

“Vamos esperar”, você diz.

“Vamos torcer”, você reforça.

“Ele não vai fazer tudo o que falou”, você teme.

“Deus vai nos ajudar”, você apela, sem reconhecer que transfere responsabilidade.

Certamente, o Altíssimo tenha ocupações demais para nos informar, outra vez, que não nasceu no Brasil. Qualquer argumento morre de inanição depois de cinco séculos de violência.

Você caiu em si. Você é diferente daqueles que acompanharam Bolsonaro desde o início da campanha. Estes eleitores não são da mesma crença que você. Eles têm fé no homem. Compartilham de seus valores, muitos até se expõem, inclusive de forma violenta, em nome Dele. São convertidos, parte do processo.

Você votou por descrença e agora, nos olhares, na fala um tom abaixo do normal, na saída à francesa da sala, indica que a racionalidade faz com que seu medo mude de endereço. Você tem medo do que fez? O liquidificador de sentimentos é tão previsível nesta altura quanto foi seu voto. Só que a raiva, ensina a cultura popular, é o veneno que tomamos enquanto desejamos a “desgraça” do outro.

Como Deus virou água na boca dos políticos, só te resta reconhecer os pecados, caso os julgue deste modo. Nunca vou apontar o dedo para ti. O “te avisei” será seu, se houver a dor única do arrependimento.

Compreendo seu sofrimento, que se parece com o meu, ao ver a política se vestir de guerra, com suas propagandas, derrubando soldados feito pássaros pelas mãos de um menino inconsequente e ressentido, armado com uma espingarda de chumbinho.

A má notícia é que ele não governará para você. Ele deveria governar para todos, mas os primeiros passos indicam que o caminho da seletividade está definido. Não silencie. Dialogue. Ouça, acima de tudo. Proponha. Acompanhe de perto.

Estes são os primeiros degraus para quem fechou os olhos com raiva e agora percebeu que talvez tenha falado demais. Ou apertado um botão vermelho, o da emergência, não o do partido-gatilho de obsessões eleitorais.


Já começou!


Marcus Vinicius Batista

O funcionário do supermercado fechou o caixa e virou a placa que informava a suspensão do atendimento. Um consumidor, na faixa de 45 a 50 anos, ignorou o aviso e começou a colocar suas compras no balcão.

O funcionário, de maneira educada, pediu:

— Senhor, por favor, coloque as mercadorias no caixa ao lado. Aqui está fechado e, se o senhor colocar as compras, outros clientes vão achar que o caixa está aberto e vão formar fila.

— Vou colocar minhas compras sim e você vai me atender!, o cliente retrucou aos gritos

— Sinto muito, mas eu tenho direito a um intervalo para ir ao banheiro. Aquela moça vai me substituir e, daqui a pouco, haverá atendimento.

O rapaz, negro e homossexual, virou o corpo para deixar o caixa, quando ouviu o senhor dizer, no mesmo tom alto, pelas costas:

— Ah, a moça vai fazer xixi sentada? Olha, gente, a moça vai fazer xixi sentada.

— Vou sim, senhor, e o senhor não tem nada a ver com isso.

Todos os clientes que estavam nas filas aos lados do caixa ouviram a conversa. Apenas uma mulher respirou fundo e sussurrou: “Já começou!” Todos os homens da fila permaneceram em silêncio.

**********

Enquanto o próximo presidente da República oscila entre as bravatas de campanha e os anúncios iniciais sobre ministérios, seus súditos voluntários começam a colocar as mangas e a irracionalidade de fora. Há vários registros de casos de violência, entre ameaças, atos caricaturais na Internet e registros em delegacias.

A ressaca eleitoral ainda não se dissipou e, mesmo quando acontecer, será difícil conter os comportamentos agora explícitos de quem se sente autorizado, legitimado pelo líder político em suas palavras de ordem contra quem não se encaixa em seu estereótipo de menino valentão.

Os agressores, em todos os episódios que testemunhei, se intitulam cidadãos de bem (voltarei neste conceito em outro texto). Consideram-se, na sua estupidez de baixa cidadania e certezas dogmáticas, legítimos representantes acima de lei e da ordem. Querem, na verdade, privilégios dados aos escolhidos (ou mantê-los), seja pelo discurso irresponsável dos políticos, seja por Deus – quem seria? – que tem seu nome surrado em vão por gente que dá a impressão de cultuar os princípios daquele que foi expulso do paraíso.

A eleição serviu, entre outras coisas, para nos esfregar na cara o quanto somos uma população que chafurda em violência cotidiana, em preconceitos, em intolerância, em mesquinharias, na capacidade de enxergar o outro como diferente, como ser humano. Gente que defende a morte de gente apenas por ser gente...diferente. E olha que, muitas vezes, a diferença se dá somente na vida pública, na máscara do personagem.

O novo presidente tem a obrigação moral de reduzir sua valentia atrás das telas e apaziguar aqueles que pregam truculência em seu nome. Se já é um irresponsável quando faz apologias violentas, será cúmplice quando se sentar na cadeira em janeiro. O problema é esperar uma postura distinta, além dos limites éticos e intelectuais que talvez Bolsonaro não possa nos entregar.

Em vários ambientes, vejo discursos de união, de redução de danos, de expectativas positivas para o novo Governo. Soam mais como justificativas para o cheque branco assinado em vez leituras concretas. Até porque Bolsonaro se elegeu sem pouco propor. Estamos acompanhando seus interesses mais explícitos na economia e na política palaciana nos últimos dois dias, muito pouco para atender 55 milhões de pessoas, no mínimo.

O discurso apaziguador vem, na maioria, daqueles que votaram em outros candidatos e fizeram a escolha por Bolsonaro para punir o Partido dos Trabalhadores. Mas esta fala está se misturando com fatos previsíveis.

O preconceito e a selvageria, em nome de Deus, da família ou quaisquer outras razões cínicas e hipócritas de muitos que não as praticam (conheço tantos assim!), saíram da sala de jantar e das mesas de boteco. Começam a se transformar em ações, que expõem a frágil fronteira entre a civilidade e a barbárie de quem cansou de interpretar o papel de tolerância, de ser humano.

O ciclo de estupidez só ficará completo quando estes sujeitos, muitos de classe média ou baixa e ausentes de crítica política, feito crianças numa democracia cheia de falhas, perceberem que o Estado truculento e seus súditos são míopes também para os “cidadãos de bem”. Que ser eleito significa muito mais do que esbravejar, de forma covarde, na fila do supermercado, como se pagar as compras o tornasse uma criatura acima das demais. Um feitor do “olha com quem está falando” que sonha em viver os tempos áureos das chicotadas nos moradores da senzala.

O feitor, mal sabe ele, só distribui lambadas porque o senhor dos escravos não gosta de sujar as mãos. Um dia, ele se cansa e troca a mão que faz sangrar. E envia, sem escalas, o feitor de volta à senzala.

O senhor, neste momento, está mais preocupado em fazer campanha, enquanto joga a conta nas costas de Deus e flerta com seus falsos profetas.

domingo, 28 de outubro de 2018

Rezar, temer, fiscalizar?


Marcus Vinicius Batista

Eu não rezo. Respeito quem o faz e crê nas respostas. Tenho minha fé, nunca a impus a sujeito algum, mas desconfio que meu Deus talvez seja diferente do de muitas pessoas. Meu Deus não se mete em política eleitoral. Meu Deus não agride adversários. Meu Deus não acende velas para maus defuntos, não importa a camiseta que vista, o líder religioso que fala em nome Alheio, edite textos sagrados ao bel prazer (e dinheiro) e abrace o candidato do versículo da vez.

A decisão das urnas neste domingo não é uma questão de oração. Vejo como uma posição a ser vista com o melhor dos olhares racionais. É preciso pensar, refletir sobre o cenário, mesmo que não alcancemos uma conclusão definitiva, melhor assim, aprender que política é bem mais do que gritar em rede social ou tirar sarro do outro como se eleição fosse clássico de domingo.

Aos eleitores de Bolsonaro, me permitam uma sugestão: tentem amenizar ou se libertar da obsessão pelo PT. A derrota foi punição suficiente para o partido. Caso contrário, só se confirmará a impressão da campanha eleitoral: retirar o PT do poder – algo já feito há quase dois anos – e colocar qualquer sujeito no lugar. Mais do que assinar um cheque em branco, seria também fornecer a senha bancária. Por favor, comemorem a vitória em vez de celebrar exclusivamente a derrota do adversário.

Aos eleitores do Haddad, outra singela dica: unam-se como adeptos de políticas sociais decentes; briguem por tolerância nas práticas cotidianas, não somente na retórica; e deixem o PT cuidar das suas próprias feridas. O Partido mereceu a lambada e tem a obrigação de limpar a casa. Ultrapassar o limite da promessa e provar que é capaz de se reinventar. Ser oposição é a chave do recomeço.

O novo presidente pode ser tudo, menos burro. Ele encabeçou uma estratégia de marketing brilhante para vencer, marcada pela alimentação da fantasia em torno de si próprio. Mas ele sabe que possui uma maioria apertada e boa parte está desconfiada da decisão que tomou. Basta ouvir as falas mais serenas de “vamos ver”, “o futuro dirá” etc. São frases condicionantes e vagas diante da desinformação do rumo a ser tomado. Medo de que ele transfira a senha do banco para terceiros?

Não podemos ser ingênuos de acreditar que o governo Bolsonaro será fiscalizado na unha. Muitos que prometem isso são os mesmos que ignoraram as trapalhadas do atual presidente depois do Fora Dilma se concretizar. Normal vindo de olhares pouco comprometidos e infantilizados sobre o que é fazer política. Não é preciso cobrar de ninguém que seja cidadão exemplar. Muitos se contentam com o título hipócrita de “cidadão de bem”. Sejamos nós exemplares.

Espero que os ativistas se mantenham unidos, ativos de verdade, além da contaminação dos discursos eleitoreiros que vez em quando renascem. Acabou a eleição. É hora de defender quem foi massacrado pela verborragia do novo presidente. Temer? O remédio é se organizar, dialogar, estabelecer estratégias, fortalecer e cobrar das instituições que ainda fazem o Brasil um país teoricamente democrático.

Somos humanos. Erramos. Escolhemos. Aprendemos. Refazemos. Tentamos. Observamos. Corrigimos. Refletimos. Sentimos. Acima de tudo, respeitamos. E erramos novamente. E corrigimos outra vez. Humanos.

Perdoem-me: Deus não tem a nada ver com isso. A decisão foi tomada por homens e mulheres, fiéis às suas consciências. Sem determinismos transcendentais, assumam suas ações, abracem suas responsabilidades como cidadãos e fiscalizem o novo Governo. Afinal, o voto foi seu! E não era pra valer?

Carta ao Fernando (a não ser lida – Parte I)


Marcus Vinicius Batista

Caro Fernando,

Quando passar a ressaca da festa, uma virada histórica sem precedentes, tenho certeza de que você vai colocar a mão na cabeça e pensar: venci de que maneira? E o que fazer agora? Como conquistar a outra metade que me rejeitou com veemência?

Você, certamente, não terá uma longa lua-de-mel com a vitória. A fiscalização será acirrada, ao menos nas primeiras semanas do seu governo. A curto prazo, haverá truculência, possíveis protestos, violência, nada incoerente do trajeto percorrido por esta campanha eleitoral, suja, sem debates, com raras propostas, inclusive da sua parte, convenhamos.

Muitos vão te acusar de ser um fantoche. O adversário, você sabe, o intitulava “poste”. É um ponto a ser contestado no poder. Assim como foi feito na Prefeitura de São Paulo, cidade territorialmente favorável ao quase nanico PSDB.

Espero que você reaja, como muita gente escreveu, conversou, bradou, pregou. Ao se sentar na cadeira do Palácio do Planalto, desejo que a criatura se volte contra o criador. Ou, pelo menos, ande com as próprias pernas. Você não estaria onde se encontra sem o apoio ou a chancela de Lula.

No entanto, até para ser decente com a figura de pai que tanto Lula gosta de cultivar, é preciso inseri-lo no lugar adequado da História. Lula é um líder, independentemente de seus atos, mas é a hora de pegar o boné. Não quero mártir sonhando com a capa de super-herói. Desejo um líder que saiba a hora de sair de cena e resolver seus próprios fantasmas.

Fernando, você tem a oportunidade única – com o poder em mãos – de reabilitar seu partido. Terceira chance, o que poucas pessoas recebem na vida. Limpe a casa. Estimule a punição de quem pecou além dos limites. Isso reforçaria a tais instituições, tão defendidas por você e por outros para manter a democracia de pé.

O PT te levou ao segundo turno. O PT quase provocou sua derrota. Você sabe o quanto o voto punitivo (anti-autoritário) colaborou com sua vitória. Dois candidatos com mais de 40% de rejeição. Foi uma eleição sui generis.

Não permita que os demais caciques rifem o partido outra vez. O PT precisa voltar a fazer jus ao nome que compõe essa sigla tão manchada pelos seus “companheiros”. É, creio eu, a última oportunidade de dedetizar um partido que passou por tantos buracos em quase quatro décadas. Que quase fechou as portas por causa do fedor exalado por uma minoria.

Fernando, você tem a obrigação de ser um presidente acima de todos. Todos quem? De saída, as lideranças que tentam sobreviver jogando e ditando cartas nas prisões. O PT não é apenas eles. O PT é aquele militante que vota com esperança. O PT é aquele que mudou de voto porque se decepcionou e ouviu tantos “eu te disse” depois de testemunhar a arrogância política de quem vislumbrou projetos de poder, e não de governo.

Tenho ciência de que você é um sujeito preparado para o cargo. Sei que, no máximo, saiu chamuscado do incêndio que corroeu aqueles que ajudaram a te construir. Mas é fundamental provar, inclusive para quem defende limpeza étnica, social e um monte de outros aspectos que justificam violência verbal, psicológica e física, que a democracia apanhou e segue de pé.

Não haverá outra oportunidade, caro presidente. Como professor, aprenda com os erros seus e de seus colegas, dialogue em vez de ser professoral, a arrogância dos didáticos, ensine seus adversários. Governe para todos e resista aos peixes podres que nadam sorridentes pelos corredores do Congresso Nacional. Vá além dos muros do Partido dos Trabalhadores.

Boa gestão! Um abraço!

Carta ao Jair (a não ser lida – Parte II)


Marcus Vinicius Batista

Caro Jair,

Não acho que o senhor seja o melhor nome para a Presidência do país onde nasci e resido. O senhor considera uma informação irrelevante, porém é preciso localizar meu lugar de fala. Não creio que o senhor esteja preparado para exercer o cargo ao qual se candidatou, mas tenho consciência de que o presidente, como figura política, é capaz de montar uma equipe que reduza danos ou possibilite avanços.

Imagino que, na festa da vitória, aconteceram muitos tapinhas nas costas, muitos parabéns, muitas promessas, muitos sorrisos, muitas outras coisas mais. Presidente, sinto dizer: a lua-de-mel será também curta para o senhor, como seria para seu adversário, caso ele tivesse vencido.

A lua-de-mel será restrita por razões diferentes. Sabemos que, entre as mentiras contadas por tantos candidatos, uma delas foi a distância da corrupção de sua candidatura. Não o acuso de coisa alguma, mas seus aliados – ligados em vários níveis a Deus, o Diabo e outros grupos que pulam entre as duas entidades – vão cobrar a conta da festa. E cobram sem pudor, sem misericórdia, rezando até. Assim o fizeram com o partido do seu adversário.

Sabemos também, caro presidente, que sua estratégia de campanha se transformou num caso a ser estudado, discutido – e jamais repetido – na História político-eleitoral. Seus eleitores não te conhecem. Votaram numa fantasia, num personagem construído e alimentado, inclusive pelo senhor, que reforçava o voto punitivo ao PT, a limpeza generalizada, os preconceitos, as pequenas violências cotidianas, o pensamento e as práticas da violência institucional.

O senhor tem total consciência de quanto a facada se tornou o divisor de águas nesta campanha. Jamais defenderia tal ato, mas também repudio o uso indiscriminado do vitimismo que o senhor tanto rechaça. A facada te fez fugir de um debate público, organizado, sobre propostas. Por quê? O que temia? Murchar a candidatura?

Meu maior medo é não ter a menor ideia do que o senhor pretende fazer como presidente. Um programa reduzido e vago – ainda que saibamos que programas são peças ficcionais, mas que insinuam a visão de um político e seu grupo de interesse -, e aparições por telas, tão artificiais e limitantes quanto os discursos que carregam, impostos, sem a chance de contestação, do contraditório, da continuidade da reflexão.

O senhor apostou num eleitor insatisfeito, punitivo em ambos os lados da moeda. Um eleitor que não te quer, quer a ausência do seu adversário, não o homem, e sim o partido, do poder. Um eleitor que acredita – em sua ingenuidade – que retirar um presidente é como expulsar um síndico incompetente na reunião do condomínio, na sexta-feira à noite.

Este eleitor, caro presidente, não te escolheu por ser quem é. Ele te escolheu pelo que o senhor representa. Jair Bolsonaro (falar em terceira pessoa significa um sintoma) é uma mentalidade, uma forma de viver para certas parcelas da sociedade. Se todo político sonha em entrar para a História, aí está a sua boa nova. Mas a que preço?

Nunca se esqueça, caro presidente. O senhor está onde está porque a democracia, ironicamente, permite que se fale contra dela dentro de si mesma. O autoritarismo, também vivido pelo senhor, não. Entre os autoritários, só abrem a boca as patotas, ainda assim cerceadas por sólidos protocolos e hierarquias rígidas. O senhor é um homem de posições rígidas, mesmo que sua biografia indique diversas flexibilidades pessoais. A coerência seria uma qualidade, não?

Presidente, seus novos amiguinhos vão mudar o tom da conversa em breve. Seus eleitores, tenho sérias dúvidas, talvez te cobrem um pouco. Seja pelo voto punitivo, seja pela mesma forma de ver o mundo, seus eleitores só queriam a mudança. Talvez a mudança de país, certamente a mudança de grupo de poder. Será que apostou certo? Será que as sombras não são as mesmas?

Jair, me perdoe, tenho quilos de dúvidas sobre o senhor como presidente. Certeza, quem sabe uma só e ela não precisa ser dita: o teor desta singela e curta carta explica.

Boa gestão! Um abraço!

sábado, 27 de outubro de 2018

Por que perdemos essa eleição? (ou A derrota acima de todos!)



Marcus Vinicius Batista


Conscientes ou em coma induzido, abrimos a Caixa de Pandora nesta eleição. Colocamos para fora – não nasceu hoje nem ontem – nossos piores sentimentos e perspectivas de mundo. Trocamos a chance de aprender com esta campanha pela prisão voluntária de nossas pequenas mesquinharias.

Perdemos a vergonha. O politicamente correto ou a lei mesmo mantinha muita gente com seus preconceitos guardados no fundo da gaveta do armário mais obscuro da casa. Aquele que armazena as tralhas.

Testemunho pessoas pedindo limpeza de outras pessoas, clamando pelo silêncio amordaçado de quem não pensa como elas, defendendo o extermínio absoluto do outro, tão impossível de conviver porque pode representar aquilo que mais se abomina em si próprio.

Perdemos a solidariedade, aquele sentimento que costumamos cultivar quando queremos parecer bons. Adotamos a máscara do cidadão de bem, termo que forma patotas e exclui os diferentes, num maniqueísmo raso (perdoe a redundância, é só para reforçar) que divide o mundo entre bons e maus e dispensa duas das características humanas: a contradição e a imperfeição.

Perdemos pessoas. Desfazemos amizades, ignoramos colegas, ofendemos parentes, esbravejamos em textos, áudios, imagens, histerias pontuais e estruturais. Perdemos pessoas por causa de políticos, que tanto desprezamos. Isso! Perdemos pessoas por sujeitos que viram as costas, convictos da falta de fiscalização, assim que as urnas se apagam. Repito: perdemos pessoas por causa de políticos, muitos deles capazes de nos agredir verbalmente a cada aparição pública.

Perdemos o outro como humano. Deliramos sobre outros sujeitos como se fossem coisas, por causa de suas escolhas, por causa de seus comportamentos individuais. Podemos jogá-los na vala comum, sem identificação, sem passado, sem história, mesmo que a História nos tenha mostrado tanta crueldade e bestialidade em nossos ancestrais.

Fingimos desconhecer o mal que nos habita, com a desculpa esfarrapada de “apenas cumprimos ordens”. Ou porque alguém falou. Ou porque é culpa do sistema. Ou porque só “trabalho” aqui.

Perdemos a capacidade de dialogar. Na nossa arrogância, julgamos sermos politizados só porque falamos de política. Falamos, gritamos, impomos, pouco debatemos, raramente aprendemos. Preferimos ganhar a conversa a qualquer preço, ainda que sacrifiquemos as pessoas ao nosso lado – aquelas que costumam importar.

Talvez façamos isso como ato reflexo dos candidatos que adoramos desde a semana passada. Típico de quem crê que a culpa sempre está no outro corpo. Por que não nos calamos de vez em quando?

Perdemos, como conseqüência, a capacidade de ouvir. Não estamos apenas cegos de ódio, mas surdos diante de qualquer voz que não seja a nossa, que também cacareja, que também digita muito e pouco escreve. O próximo presidente, rezo para que nos escute, deveria implantar um programa gratuito, em caráter nacional, que envolva cursos de Escutatória, conforme pregava Rubem Alves.

Perdemos o valor da verdade. Na hipocrisia e no cinismo de todos nós, adoramos cultuar quem matamos dia após dia. A primeira vítima de uma guerra, como explica o clichê. Não falo das pequenas mentiras cotidianas, mas daquelas que contamos para nós mesmos. Daquelas que minimizamos quando levamos adiante informações caluniosas, argumentos levianos, quando compactuamos com a mentira escancarada, mas dita pelo anônimo, que vai machucar quem não pensa como nós. Estúpidos somos quando nos esquecemos que uma campanha eleitoral se movimenta como bumerangue.

Perdemos a liberdade. Confundimos a ideia de que liberdade de expressão significa o poder de dizer qualquer coisa, sem limites. Rasgamos a liberdade para defender o privilégio de agredir quem não está comigo, como Bush ou Trump em seus olhares belicistas.

A liberdade como prática individualista se chama egoísmo, primo da vaidade. A liberdade sempre será sinônimo de convivência, de ato coletivo. Só seremos livres quando todos o forem. E não enxergamos que defendemos o fim da liberdade justamente porque ... somos teoricamente livres. Teoricamente!

Por contradição, tenho dúvidas: será que perdemos tudo isso mesmo? Então, quando teria sido este escoamento moral pelo ralo da violência? Ou será que apenas rompemos os filtros e agora precisamos descobrir e assumir que somos deste jeito, uma espécie truculenta, selvagem? Francamente, não vejo tanta gente assim fazendo mea culpa.

Desconfio que, como animais, somos menos humanos do que imaginávamos ou editávamos no feliz mundo das redes sociais e das conversas cotidianas.

Se todos perdemos, quem ganhou o jogo sem vencedor?